quinta-feira, fevereiro 23, 2012

O Céu de Dante

Dante subiu aos céus e atravessou o portal celestial, sendo recebida por um coral de anjos e todos os homens santos que já pisaram na Terra; porém, havia algo estranho...

Tudo era perfeito e lindo. Os palácios dourados refletiam o ouro em seus olhos; os jardins eram perfeitos; todos sorriam com extrema hospitalidade; não havia nada que ele pudesse achar o menor defeito; mas faltava algo...

Faltava uma certa autenticidade, era como se tudo ali fosse feito para encantar, para prender pela beleza, para desviar sobre o que realmente havia. Era como se aquele céu fosse apenas uma fachada de algo obscuro que se escondia por uma bela máscara.

Aquele céu tinha cara de casa, mas não tinha a energia de lar.

E foi quando Jesus apareceu que Dante desconfiou que não tinha subido ao céu; ele tinha, na verdade, descido ao inferno e tudo aquilo ali tão belo não passava de uma prisão para o seu intelecto vaidoso que revestia de símbolos aquilo que ele não conseguia conceber. O demônio vestido de Jesus havia apenas pintado o inferno com as cores que ele queria ver no paraíso.

- Como? - perguntou incrédulo Dante ao demônio que parecia mesmo com o Jesus que Da Vinci pintara.

- A beleza está no olho, não é? O inferno não é um buraco em chamas guardado por cachorros de três cabeças, o inferno é um estado mental criado pelas imagens que você mesmo cria.

- Mas você está usando essas figuras sagradas para nos iludir. Como isso pode ser permitido por Deus? E como saberemos se estamos diante do Divino, se o inferno tem cara de céu?

Não há inimigos por aqui, eu e o Chefe somos parceiros, aliados; só sobrou para mim essa fama ruim. Eu não faço nada, apenas cedo o palco para as fantasias de quem chega. Essas imagens não são sagradas para mim; elas são projeções dos símbolos que possuem o significado que você lhes der. Porém, se você não se deixar iludir pela aparência, perceberá que é o inferno que guarda as portas do céu; é um lugar apenas de passagem, mas a maioria decide ficar por aqui por toda a eternidade. 

- Estou preso aqui?

- Preso? Que nada! Até no inferno, você tem livre arbítrio. Como sou bom anfitrião, não posso negar a hospitalidade. Contudo, se você seguir adiante, você vai descobrir que o que se apresentará não é nada daquilo que se pinta na Terra e nenhuma canção ou poesia consegue descrever. A questão é: não é mais confortável permanecer com aquilo que já conhecemos e acreditamos ser só o que há?

Diz a lenda e a literatura que Dante voltou do inferno para contar o que encontrou, mas como achou que ninguém compreenderia o que ele havia vivido, ele decidiu recontar tudo com os símbolos do coletivo da época em que ele vivia, mas se o leitor fosse alguém que lesse além das entrelinhas, perceberia o que Dante descobriu: o inferno pode ter cara de paraíso e só quem se questiona e se abre para o desconhecido consegue passar além disso.


Um comentário:

Thiery Peleias disse...

Muito legal!
Foi como na época que li sobre o "território de crenças" descrito pelo Robert Monroe. ( depois quando passei por lá)
Numa faixa de consciência estava tudo, céu de todas as religiões, assim como todos os infernos. Mesmo partidos políticos radicais também estavam por ali.

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