sexta-feira, dezembro 16, 2011

O Menino e o Leão



A cidade era Cajazeiras, no mundo agreste da Paraíba. O menino era eu, ou acho que era, pois já estou na idade em que as memórias reais se misturam com as memórias criadas, influenciadas pelos antigos filmes de matinês e pelas propagandas de coca-cola; porém, se era eu ou se era um outro, pouco importa, uma vez que é a mensagem da crônica que vale a prosa. A mensagem é que importa pois essa é uma crônica sobre a maldade com os animais, se bem que será uma crítica bem indireta, pois não darei nomes, mas direi quando; foi em algum mês que não me lembro de 1986, quando os terrenos baldios não eram invadidos por sem-terras e sim por circos; circos desses antigos, com mulher barbada, gordo fingindo ser forte e leão.

O leão! Há um leão na crônica, mas fiquem primeiro com o menino...

Eu era um menino bem pobrezinho desses bem Chaplin, desses molequinhos que mal tem dinheiro para comprar pão, quanto mais chocolate; daí, meus leitores, cabe a vocês compreenderem que um doce de amendoim, que muitos chamam de paçoca ou pé-de-moleque na minha mão era chocolate suíço. Um dia, após muita espera, eu consegui comprar um desses doces e sai pelas ruas escondido, me escondia, pois evitava encontrar algum amigo que pedisse um pedaço. Pobreza tem disso. Ficamos egoístas e ponto. Não queria dividir, nem iria; afinal, tudo o que eu queria era comer pedacinho por pedacinho, desejando que aquele doce durasse para sempre...

Agora o leão!

Aquele som não parecia ser da minha barriga. Doce não enche pança, mais eu reconhecia aquele urrarrrr dos filmes do Tarzan e de uma vez há muitas infâncias quando tinha ido ao zoológico dar pipocas às ariranhas.

Urrarrrr!!!!

Fui seguindo o som e dei de cara com aquela tenda cinza gigante que prometia macacos, gorilas e elefantes, tudo pelo preço de dez doces de amendoim. O "urrarrr" continuava e fui andando entre caminhões e trailers, até que vi aquele gato gigante entre grades: magro, fedorento, com moscas pousando em seu rosto e juba caída; não havia nada naquele felino que lembrasse o "Rei da Selva". Daí, senti dó, dó de menino que olha cachorro ferido e sente vontade de querer ajudar. Olhei para ele e ele rosnou para mim, tinha fome, só podia. Eu não entendia nada de leões, mas de fome, eu sabia.

Eu queria ter um bife, não tinha; tudo o que eu tinha era a outra metade do meu doce de amendoim guardado no bolso.

Acho que naquele momento nascia qualquer sentimento que se parecia com compaixão, pois tirei o pedaço de doce do bolso, o pedaço que restara, e joguei para o leão que avançou sobre o doce; como se fosse um almoço delicioso; e era!

De repente, um susto:

- Ei moleque! - gritou um homem que deveria trabalhar no circo e cuidar do leão - Venha cá! - disse ele e eu saí correndo de lá. Do leão, eu não tinha medo, desses homens que deixam animais definhando, eu tenho pavor até hoje.

Acho que naquele momento, nasceu também um defensor dos bons tratos aos animais, que jurou para si mesmo que não entraria mais em circos que tivesse qualquer animal como atração ( não inclui a mulher barbada, of course!).

Acabei cumprindo a minha promessa, talvez por não ter mesmo o dinheiro ou talvez porque com o tempo, os circos mudaram e de uma década pra cá, sei que eles já não usam mais esses animais. O que me leva a uma pergunta: o que foi feito desses bichos? Será que existe algum asilo para animais aposentados? Animais que trabalharam a vida inteira para fazer graça, como os pobres dos macacos domesticados ou para causar medo, como os coitados dos tigres e leões de circo; o que ocorreu e ocorre com eles?

Será que algum dia o ser humano deixará de pagar para ver animais sendo mal-tratados ou ainda continuaremos a lotar cidades como Barretos para ver os seus rodeios e bois massacrados, perpetuando nas nossas crianças o nosso gosto por espetáculo às custas do sofrimento alheio?

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