sexta-feira, dezembro 02, 2011

O Dia Em Que Acordei Sem Palavras


Um dia, como num pesadelo kafkiano, acordei sem palavras. Eu não só apenas havia me esquecido como dizê-las, como eu também não as pensava.

Eu existia. Vivia o sonho do místico que almeja um silêncio meditativo continuo, porém, para mim, aquela experiência era puro tormento, pois escritor sem palavra é bailarina sem pé, escultor sem mãos.

Eu existia, assim como um animal existe, apenas sentindo, respirando e continuando, mas sem o sabor da experiência narrada, acumulativa, que nos faz ser humano, experiência pensada para ser com o outro compartilhada.

Eu existia. E sabia que aquela mulher que falava comigo, me era querida, mas eu não conseguia sequer formular o pensamento: "ela é minha mulher!"

Eu tentava dizer " ela", mas não conseguia formular o som, nem pensar como se escrevia mentalmente a palavra.

Queria pedir ajuda, mas não conseguia juntar o a, o ju e o da. E quanto mais tentava formular palavras, mas cansado ficava. Senti, enfim, que talvez fosse melhor apenas mergulhar no silêncio.

Mergulhei...

Mergulhei no lago aonde as palavras fluem, vi as ilhas de idiomas, árvores que frutificavam gramática com troncos de estrutura. Ouvi o som, a pronúncia, percebendo como cada palavra formada pelo ar dançando pela nossa garganta é capaz de produzir.

Sem palavras , eu existia, e percebia que lá fundo na mente, existimos mesmo sem pensar que existimos. As idéias, os símbolos, as crenças e certezas está tudo lá em casas de símbolos, edifícios construídos para dar significado ao mundo que vivemos e as coisas a nossa volta.

Tudo embalado por ruas e avenidas, por onde correm Mercúrios, esses mensageiros de pés alados que associam um símbolo num outro, para que tudo pensado possa ser dito e tenha um sentido e se faça uma união chamada: linguagem! Contudo, de que vale ver a coisa mais bonita do mundo e ficar mudo. Nem " uau" eu sabia dizer, nem " caramba" eu conseguia pensar.

Então, como já devidamente revelado, afinal essa é uma crônica escrita sobre a experiência de não conseguir pensar em palavras, notei que as silabas e seus sons começaram novamente a circular em minha mente, como se elas tivessem retornado do lugar em que se esconderam; e fui unindo pen com sar e consegui lembrar da fórmula para criar pensamentos, podendo finalmente sentir que saia da minha boca, uma frase: bom dia!

Como é bom reconhecer a alquimia que ocorre quando pensamento vira magia saindo da boca e entrando no seu ouvido como minha opinião. Que responsabilidade é reconhecer o poder do falar e do bem dizer.

A mal dicção é não poder falar. Maldição é usar as palavras sem uma voz que construa, que una, que compartilhe algo que valha a pena ser dito, bem dito, falado.

Que bom poder palavrear...

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