quarta-feira, dezembro 07, 2011

Neurociência Para Cris

Texto original escrito pelo Lázaro Freire e postado na lista Voadores:

http://br.groups.yahoo.com/group/voadores/message/107148


Em voadores@yahoogrupos.com.br, "Cristina Ferraz" escreveu:

- Láz, sei que não se trata de assunto que possa ser discutido aqui na lista, somente esclarecido por especialistas. Eu pediria, se possível, apenas um breve comentário sobre essas duas perguntas:

1 - Alguns receptores podem já nascer com defeito, ou então ser danificado, após um parto a fórceps ?

Não sei se chamamos a mesma coisa pelo mesmo nome.

Eu sou um psicanalista neo-kleiniano transpessoal, além de estudante de neuropsicanálise dentro do paradigma biopsico sócioespiritual e compreensãointegrada numa visão neuropsicoimunoendocrinológica, portanto tenho meus motivos para crer na formação psíquica impactante já a partir do primeiro momento de vida, com forte participação do primeiro ano, antes das fases clássicas de Freud. Mais ainda, temos bons argumentos para a influência da vida intra-uterina e psiquismo da gestante - de modo determinante - nos conflitos psíquicos que podem influenciar a criança décadas e décadas depois. Mas isso é outra história.

O que chamei de "receptores" para neurotransmissores na fenda sináptica, me parece, é outra coisa diferente do que você compreendeu.

Vou tentar simplificar, correndo o risco do reducionismo:

Prmeiro lembre de um neurônio:


Lembrando que são células, e que há neurônios em TODO o sistema nervoso central,
certo?

Note que os neurônios tem "bracinhos", axônios. Que se comunicam com os demais. Seu movimento, pensamento, sensibilidade, etc, ocorre a partir desta comunicação. Lembre-se que certas lesões na medula, por exemplo, podem implicar em perda de movimentos. E que "derrames" cerebrais (AVC) e outras lesões podem trazer perdas cognitivas.

Pois bem, na comunicação entre os "bracinhos" dos neurônios há um "espaço" que chamamos de "fenda sináptica". Já ouviu falar em sinapses? Elas andam na moda ultimamente... Nelas ocorrem as "comunicações" dos neurotransmissores. Ou seja, de um bracinho de um neurônio para outro.

O que emite o sinal, chamamos de pré-sináptico. Antes da sinapse. O que recebe, chamamos de pós-sináptico. Ou seja, o que está depois da fenda da sinapse. Aquilo que chamei de "receptores", portanto, são conexões no bracinho do neurônio que está depois da sinapse. Aquele que vai receber o neurotransmissor emitido.

Creio que a figura abaixo ajude a compreender a explicação:


Caso não seja suficiente, procure no Google Imagens por "fenda sináptica", que outras boas ilustrações legendadas aparecerão.


No artigo anterior, falávamos em particular dos receptores dos neurônios de uma parte específica do cérebro, o núcleo accumbens, uma espécie de central de estímulos e recompensas. Quando você acha algo gostoso, ou importante, ou prazeroso (sexo e alimentaçao, por exemplo - ou principalmente, do ponto de vista evolutivo), o núcleo accumbens está envolvido. Nos jogos compulsivos e no uso de drogas alucinógenas, também.

Dá pra gente ver em neuroimagem (ressonância, tomografia, PET Scan, essas coisas) a quantidade de receptores S2 do núcleo accumbens em determinadas situações. E assim descobrimos que, tanto no jogo compulsivo quanto no uso de drogas, a sensibilidade desses receptores pós-sinápticos (bracinho do neurônio de depois) diminui com o estímulo. Mais ou menos como um perfume que, quando você usa demais, não sente mais tanto. Ou seja, em resumo, muito estímulo de neurotransmissor (no circuito de recompensas) por muito tempo seguido e de modo forçado e exagerado (drogas, jogo) fazem com o que o mesmo estímulo não gere mais o mesmo prazer. Os receptores diminuem, e aí você precisará de mais e mais estímulo para conseguir a mesma coisa. Em outras palavras, jogo compulsivo vicia, maconha vicia, daime vicia, sexo compulsivo vicia, comida compulsiva vicia. Sério. Digam isso para o pessoal que espalha o mito de que maconha e daime não trazem prejuizos nem causam tolerância. Impossível. Porque os princípios ativos destas substâncias fazem uma inundação de neurotransmissores naquela fenda da última ilustração, entendeu?

Cabe duas explicações menores. Primeiro a má notícia. Estímulos exagerados, patológicos ou artificiais podem danificar esta comunicação. Bye bye sinapse. Bye bye axônio. Bye bye neurônio. Tudo bem, você tem zilhões deles. Mas quero os meus muito vivos. Lembra daquelas lendas de que maconha afeta a memória? Pois é. Mas não é só maconha e daime não. Álcool é um dos que mais provoca perdas neuronais. Até café em excesso. Estímulos demais, do tipo prejudicial.

Não usar o cérebro que se tem, também gera perdas. Pensar sempre do mesmo jeito. Tarefas repetitivas. Visões de mundo estreitas. É como você ter um mapa cheio de estradas (as sinapses) interligando várias cidades (neurônios) via diversos tipos de transporte e veículos (neurotransmissores) mas você usar apenas uma estradinha, deixando as cidades distantes antes prósperas sem alimento, sem visitantes, sem tráfego... As estradas esburacam, as cidades morrem. Bye bye. Mente pequena é caminho para o Alzheimer, seja lá como se escreva isso.

A boa notícia é que estímulos adequados fazem com o que o neurônio pós-sináptico aloque mais receptores, mais receptores, mais receptores... e quando o estímulo é bastante, o axônio (bracinho do neurônio) se abre em mais um, para haver mais neurotransmissão adequada, gerando o que chamamos de NEUROPLASTICIDADE. Mais bracinhos, mais sinapses, multiplicando-se exponencialmente. Talvez por isso alguns homens sábios e inovadores parecem ficar mais e mais inteligentes com o tempo (Freud, Platão, Jung, tantos outros); enquanto os de mente pequena e presos a paradigmas parecem caminhar para a demência com a idade.

Uma das coisas que geram neuroplasticidade é psicoterapia. Espiritualidade e filosofia também ajudam, e muito. A turma que resiste à voadores e segura a onda aqui certamente está revendo paradigmas, tendo insights e portanto modificando seu cérebro para melhor a cada nova ficha que cai. Modificando FISICAMENTE. E nem vou entrar agora em neurogênese, a criação de novos neurônios.

Outra coisa que parece facilitar a neuroplasticidade é o uso de algumas medicações "antidepressivas" que aumentam o nível de serotonina na fenda sináptica. Só a medicação não faz milagre, mas em conjunto com psicoterapia e novos pensamentos, o nível aumentado de serotonina ajudado pelo medicamento permite que novas conexões sinápticas apareçam. Por isso quem faz psicoterapia, com ou sem medicamento, parece mudar de vida depois de algum tempo, e enxergar o que não via. Literalmente, eles tem um cérebro (fisicamente) diferente. E
melhor.

2 - Seriam os sentimentos e emoções as principais causa do funcionamento ( adequado ou não) desses receptores?

Não, a relação não é bem essa, conforme já deve ter percebido a partir da explicação do que são os receptores do núcleo de recompensa.

Mas sentimentos e emoções passam, é claro, pelos neurônios. Assim como medo, desejo, instinto, espiritualidade, e até o movimento dos meus dedos neste teclado. Ou a visão que tenho dessa tela.

Eu entendo sentimentos como algo mais elaborado, cognitivo, e aí associado a regiões talvez do córtex frontal do cérebro (ali atrás de sua testa, área da inteligência, etc).

Emoções eu entendo como algo mais límbico, mais de dentro da caixola, outras áreas e neurônios envolvidos. Todos mamíferos tem emoções. Elas são indispensáveis para a preservação da espécie.

O que tem a ver é que as emoções são também fundamentais para a memorização. O neurotransmissor DOPAMINA também, e este passa pelas tais sinapses e receptores. Quando o macaquinho transa, isso é fundamental para que a espécie sobreviva. Então ele recebe uma dose de SEROTONINA no núcleo accumbens (o centro de recompensas), para dizer pra ele que isso é PRAZEROSO. E recebe também uma dose de DOPAMINA e outros neurotransmissores menos falados ali nos receptores do mesmo núcleo, para ele saber que é IMPORTANTE E GOSTOSO. A emoção é importante nisso. Ele vai lembrar da experiência, e tender a repetir. Vale para outros prazeres e coisas importantes.

A coisa é bem mais complexa. E receptores e neurônios estão em tudo.

Agora, o que talvez tenha a ver com sua pergunta, sem precisar entrar em tanto detalhe de neurotransmissores, é que:

a) Sim, existem diferenças cerebrais e neuronais explicadas pela genética, ou pela epigenética, e até mesmo pelos estímulos recebidos (ou não) pelo feto na gestação. Sem contar em más formações, efeitos de medicamentos, alimentação da gestante, etc. Não nascemos todos iguais, cerebral e neuronalmente falando.

b) Não preciso já ter cérebro desenvolvido para ter problemas neuronais. Lembre-se que os estímulos ali nas fendas são também químicos, e que noradrenalina é um neurotransmissor. Importante. Em outras palavras, tudo me leva a crer que gestantes desequilibradas, tensas, neuróticas, etc (muitas vezes devido ao pai, para dividir a culpa) geram bebês com circuitos neuronais - e posteriormente cerebrais - diferentes.

c) Traumas físicos e emocionais de qualquer época da vida são, evidentemente, registrados em algum nível. Consciente ou inconsciente. Vale para o parto. Vale para a gravidez. Vale para a infância. Quanto mais cedo, a meu ver, mais impactante - pois a neuroplasticidade futura será construída a partir daí. O cérebro de uma criancinha tem poucas "estradas" e "cidades" de minha metáfora anterior. Se uma delas já começa com um bloqueio, o desenvolvimento vai para outro lado, onde suas defesas funcionarem melhor. Em outras palavras, o que o Freud chamaria de "traumas", a meu ver, não é só lógico como ele talvez pensasse, mas FÍSICO. O cérebro vai por outro caminho.

d) Por outro lado, nascer por si só já é um filme de terror. Traumas todos temos, o importante é se tivemos suporte para fazermos a neuroplasticidade adequada. Se a mãe foi "suficientemente boa". Se tivemos o afeto e cuidados adequados. Nascer é traumático, o bebê está quentinho é é jogado numa sala refrigerada, ele nunca se mexeu direito e em seguida abrem seus braços e pernas em uma posição inédita como se o rasgasse, ele nunca respirou e terá que abrir alvéolos pulmonares na marra e sob tapas para não morrer (dói, mas se não respirar, morre), nunca viu luz e de repente sai numa sala híper iluminada (lembre-se dos mineiros do Chile), nunca teve contato com a pele e então até um cobertor parecerá uma lixa, nunca esteve em outro lugar e agora se vê separado, nunca sentiu fome nem mamou, não tem músculos desenvolvidos para sucção, sentirá a dor de 30 aulas de musculação, mas se não fizer esforço para mamar morrerá de fome... Então TRAUMAS todos temos. Viver dói. A primeira coisa que aprendemos no primeiro instante de vida é que para ter prazer teremos custos e sofrimento - e mudar esse momento masoquista para alguns leva a vida toda e muita terapia. O importante é como aprendemos a lidar com esses traumas, que cuidado tivemos nos primeiros momentos. Ou como reconstruimos nossas mentes e neurores depois de crescidos.

- Elas são muito importantes pra mim.
bjs da cris

- Espero ter ajudado você de algum modo... ou pelo menos ter ensinado alguma coisa
útil aos demais.

Láz

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