terça-feira, maio 10, 2011

EM BREVE


Uma vez escutei o Seu chamado, mas você me chamou de um jeito diferente, pois não falou meu nome, nem gritou pela minha atenção, apenas se aproximou e disse de um jeito bem carinhoso, através da brisa do entardecer:

“Deixa de choro, menino, vem crescer!”

Era um dia daqueles em que a gente só reclama e não se dá conta da beleza do mundo ao nosso redor. Estava descendo em direção ao metrô e vi um pôr-do-sol, tão lindo que fiquei com vergonha de estar me sentindo tão para baixo. Então, parei com todas aquelas abobrinhas na cabeça e percebi Você. E fiquei lhe olhando: eu, ali, vestido de humano, e Você, do outro lado, disfarçado de sol se pondo.
Fiquei perguntando um monte de coisas, e Você na maior paciência, só me iluminando; então você não agüentou e disse que havia mesmo uma razão para tudo ser como é, assim como havia uma razão para os pássaros voarem no céu e para as flores desabrocharem. Saquei na hora que era tudo tão simples e fácil de entender, que logo eu iria esquecer tudo (sabe como é, a gente só lembra daquilo que é complicado). E sabe de uma coisa: não é que eu esqueci mesmo?

Mas lembro-me de que, naquele momento, Você meio que entendeu que eu iria esquecer tudo o que conversamos espiritualmente, e fez tocar no rádio que eu escutava uma música tão bonita, que na hora entendi tudo; aquela música era como a Sua verdade: só podia ser ouvida e entendida com o coração.

Hoje, em frente a uma folha de papel com a caneta na mão, ouço essa canção novamente. Jon Anderson, o vocalista da banda de rock progressivo Yes, vai cantando a canção chamada “SOON”, enquanto me lembro daquele dia conversando com Você.

Acordes maravilhosos de guitarra, junto com a bela voz do Jon Anderson vão me levando até aquela tarde na qual Você chamou meu nome com o entardecer, sacudindo-me e tirando-me da pobreza mental em que eu estava. Ouvindo essa música (passei anos procurando por ela, sem saber como ela se chamava), lembro-me também de um outro amigo que me ensinou tanto e que ensina a muita gente através da música e da poesia, do mesmo jeito que Você me ensinou. Acho que ele se lembra da Sua verdade, mas como sabe que todo mundo vai esquecer, ele usa música e poesia para fixar na cabeça da galera que vale mesmo a pena a gente melhorar e se tornar pelo menos alguém bacana, que entre erros e acertos, saiba que o céu e o inferno são portáteis, e a gente os carrega dentro da gente mesmo.

Lembrei-me dele, também, porque ele manja tanto de Yes, que provavelmente deve estar se perguntando porque eu nunca lhe perguntei se ele sabia o nome dessa música que eu tanto procurava, mas ele sabe que certas respostas a gente tem que encontrar sozinho, mesmo que seja o nome de uma música, ou por que razão o sabão em pó é branco. Porém, para outras tantas dúvidas e tropeçadas, a gente precisa de um amigo que nos sacuda e nos lembre que é hora de retornar ao caminho, e que não precisamos mais bancar os perdidos.

Quanto a Você, só espero que continue enviando esses amigos para nos ajudar; amigos que estão tanto aqui quanto do outro lado, e mesmo com tanto egoísmo da nossa parte, eles continuam usando melodias e poesias para nos despertar, até quem sabe, muito em breve todos nós possamos nos lembrar dessas conversas com entardeceres e descobrirmos o segredo das flores e do vôo dos pássaros no céu. Até lá, que a canção continue a nos tocar e que a poesia guie nossos passos pela vida, de volta para casa.


P.S.: A música que eu escutava se chama “Soon”, e encontrei-a numa coletânea do Yes chamada “The Ultimate Yes” (edição comemorativa do 35o aniversário da banda, em atividade desde 1968). A música fala por si mesma*.


- Frank -
Londres, 16 de Janeiro de 2004

- Nota de Wagner Borges:

Comentário sobre a canção do Yes: Na verdade, “Soon” é apenas a parte final de uma suíte chamada “The Gates of Delirium” (música de 18 minutos, inserida no magnífico álbum “Relayer”, de 1974) – Esse trecho da canção também foi inserido na coletânea “The Ultimate Yes”, contendo uma seleção das melhores músicas da banda.

Aproveitando o texto do Frank, reproduzo na seqüência a tradução da letra em português, e logo em seguida a letra original, em inglês.

Agradeço a minha amiga Sheila Smith pelo trabalho de tradução.

EM BREVE

Em breve, ó em breve a luz,
Passa por dentro e suaviza esta noite sem fim
E espera aqui por você,
Nossa razão de estarmos aqui.
Em breve, ó em breve o tempo,
Tudo o que movimentamos para ganhar será atingido e acalmado;
Nosso coração está aberto,
Nossa razão de estarmos aqui.
Há muito tempo atrás, posto em rima.
Em breve, ó em breve a luz,
Nossa para moldar por todos os tempos,
Nosso o direito;
O sol nos guiará,
Nossa razão de estarmos aqui.
Em breve, ó em breve a luz,
Nossa para moldar por todos os tempos,
Nosso o direito;
O sol nos guiará,
Nossa razão de estarmos aqui.

SOON

Soon, oh soon the light,
Pass within and soothe this endless night
And wait here for you,
Our reason to be here.
Soon, oh soon the time,
All we move to gain will reach and calm;
Our heart is open,
Our reason to be here.
Long ago, set into rhyme.
Soon, oh soon the light,
Ours to shape for all time,
Ours the right;
The sun will lead us,
Our reason to be here.
Soon, oh soon the light,
Ours to shape for all time,
Ours the right;
The sun will lead us,
Our reason to be here.

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