terça-feira, fevereiro 15, 2011

Valeu, Ronaldo

Por Fábio Santos

Ao anunciar ontem sua aposentadoria, Ronaldo disse que essa foi sua primeira morte. Ele respondia a um jornalista que mencionou Paulo Roberto Falcão, para quem jogadores de futebol morrem duas vezes; a primeira, quando deixam os gramados.

A frase do meio-campista da espetacular Seleção de 1982, hoje comentarista de futebol, traduz bem a dor que sente e que provoca um ídolo quando se ausenta do palco onde brilhou. É como uma morte, de fato. A ausência só é diminuída pela memória dos bons momentos.

Mas Ronaldo, na verdade, é um sobrevivente. Por pelo menos duas vezes, ele teve decretada a sua morte e soube afastá-la de si, vencendo um adversário impossível de bater. Muito pouca gente é capaz de superar a decadência física, psicológica e emocional que tantas vezes ameaçou o craque em sua trajetória.

Sim, como várias pessoas que se tornam célebres, Ronaldo meteu-se em algumas confusões que ganharam muito destaque, além de lhe renderem críticas e até escárnio, como o famoso caso do travesti carioca. Essa, porém, era uma das faces mais humanas da figura de mito que ele vestia com certa resistência.

Assim como o personagem do "Poema em Linha Reta", de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, ele não era campeão em tudo e levou porrada. Como todo mundo, mesmo os muitos que não admitem essa verdade, Ronaldo também foi vil e ridículo. Mas seus erros e tropeços faziam mal principalmente a ele mesmo, não aos outros. Com estes, ele sempre mostrou sobretudo respeito, como sabem todos os torcedores brasileiros, corintianos ou não.

O craque aposenta as chuteiras longe do auge que fez dele o maior goleador de todas as Copas e lhe rendeu o merecido apelido de Fenômeno. Ora, é sempre assim. Todos nós já somos ou um dia seremos piores do que fomos quando estávamos na melhor forma. Essa é uma das dores que a tragédia humana nos impõe. Só escapam dela aqueles que caem muito cedo pelo caminho. Apenas os heróis de guerra abatidos em batalha morrem no apogeu. Para os demais, a decadência é inevitável. Que ela seja enfrentada com grandeza.

Ronaldo despediu-se dizendo que não se arrepende de nada. Não deveria mesmo. Ele foi humano do começo ao fim. E concordo com o craque: foi lindo.

Fonte: http://www.destakjornal.com.br

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