quinta-feira, dezembro 09, 2010

UM CONTO NADA ERÓTICO

Nos encontramos na livraria, um livro coincidiu com outro, assunto com assunto, tinhamos autores em comum; paguei um café, ela repartiu o bolo, conversa dentro, conversa fora, toquei de leve a perna dela, ela balançou o cabelo e ficou me ouvindo, enquanto um dos seus dedos percorria seus lábios; os sinais eram tantos e tantas eram as entradas que eu não tive saída: retornei o flerte! Era tudo ou nada!

Química instantânea, o nome dela era Tânia, o meu Romeu; não consegui esperar, nem ela; ficamos roçando um no outro, as pernas; e o beijo ocorreu.

Deixamos mesa, café e livros e fomos, meio escondidos, para o banheiro; eu entrei primeiro, ela entrou depois; daí, feijão com arroz e fechei a porta do toalete, ela me tocando, eu tocando ela; nenhum dos dois se segurando, que sorte a minha ter encontrado ela! Ela desceu as minhas calças, e eu subi nas paredes; mas antes do desfeche, lembrei que não tinha camisinha; mas ela era limpinha, parecia intelectual, não deveria ser uma dessas meninas; nem eu era um desses meninos...ou erámos?

Parei a montanha russa, ela me olhou desapontada. Eu pedi desculpas, não podíamos prosseguir sem a devida segurança; ela respirou fundo, parecia chateada, mas compreendeu e aceitou o fim da jornada.

Saímos do banheiro público, já sem o rio de lavas, já sem vontade de pagar para ver. As pernas se fecharam, o calor ficou frio. Voltamos a falar dos livros, trocamos telefone falsos... e assim termina esse conto, que de erótico não tem nada, mas de heróico tem tudo, pois não importa o tamanho da vontade, nem quem está ao seu lado; sem camisinha, é melhor que cada um vá para o seu canto, com coito não acontecido, mas inteiro, com saúde, e muito mais vivo!





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TRAUMA DE CAMISINHA

Por CRISTIANE SEGATTO

Ganha o título de conselheiro sexual do ano quem conseguir me explicar por que é tão difícil convencer a moçada a usar camisinha. Se você tem 20 anos, pode me dizer com conhecimento de causa. Se você tem 40, 50 ou 60 pode palpitar sobre as diferenças entre os jovens de hoje e a sua geração. Se você é um especialista ou um militante que conhece como ninguém o universo da aids, certamente terá uma ótima contribuição a dar. Se você é apenas um inconformado como eu, seu comentário é muito bem-vindo.

O quadro atual da aids no Brasil é o seguinte: o número de novas infecções por HIV passou de 37.465 em 2008 para 38.538 em 2009. Dos cerca de 630 mil que vivem com HIV no país, 255 mil não sabem que estão infectados. A aids continua sendo, portanto, uma grande preocupação.

O alvo da nova campanha do Ministério da saúde são os jovens de 15 a 24 anos. Faz sentido. Esse é o grupo com o maior número de parceiros casuais entre os adultos. Apesar disso, cerca de 40% deles declararam não usar preservativo em todas as relações sexuais. Por quê?

Muitos especialistas acreditam que a camisinha “não pega” nessa faixa etária porque os jovens acham que a aids é um problema menor, uma doença que se tornou crônica e administrável. Essa geração não perdeu amigos pouco tempo depois da infecção. Não viu a agonia das pessoas que definhavam e morriam aos montes como a minha geração viu nos tempos pré-coquetel.

Acho que esse fator pesa na decisão de não usar camisinha, mas tenho outro palpite. O tom das campanhas de prevenção é excessivamente suave. Assista ao anúncio de TV lançado nesta semana e me diga qual é a imagem que ele ajuda a construir.


A intenção do anúncio é combater o preconceito. Ótimo. Preconceitos, de qualquer tipo, precisam ser combatidos. Quem vive com o vírus precisa de respeito, dignidade e tratamento adequado. Mas esse vídeo não dá à aids a verdadeira dimensão. A aids é uma doença grave, que impõe limitações ao paciente e grandes gastos à sociedade. Não é o cenário cor de rosa que as imagens sugerem.

Qualquer campanha contra a dengue ou a gripe suína é mais enfática do que a da aids. Querem nos fazer acreditar que viver com o HIV é mais simples do que enfrentar a dengue ou a gripe?

Felizmente hoje é possível viver muitos anos com o HIV. Mas o tratamento impõe desafios emocionais e físicos. É preciso cuidar da alimentação e tomar vários comprimidos por dia, na hora certa. Essas drogas têm importantes efeitos colaterais. Podem provocar, por exemplo, problemas cardiovasculares e disfunção na distribuição de gordura corporal.

É preciso tirar da cabeça dos jovens a ideia enganosa de que ter aids é um passeio no parque. Nesse aspecto, as agências de publicidade, os governos, a imprensa, as escolas precisam ser mais criativos. Se um garoto e uma garota não compreendem a extensão do risco por que vão se proteger?

Muita gente simplesmente não gosta de usar camisinha. Esse é um ponto que também precisa ser enfrentado com criatividade. Pelo menos os fabricantes têm feito sua parte. Novidades --com sabor, ultrafinas, anatômicas etc – não faltam.

Um dia desses uma colega da redação me deu um lançamento que ela havia acabado de receber. Disse que era uma camisinha revolucionária, ultrafina. Era tão fina que eu duvidei que não estourasse. E brinquei:

-- Camisinha revolucionária? OK. Deve ser aquela que estoura, faz você engravidar e revoluciona a sua vida.

Fiz o teste e aprovei. É muito fina e não estoura. Se já não entendia por que é tão difícil convencer os jovens a usar camisinha agora entendo menos ainda.

Fazê-los aceitar a camisinha com naturalidade é um front aberto na luta contra a aids. Reduzir o preconceito é outro. Li nesta semana um artigo interessante que serve de exemplo sobre como o preconceito dificulta as ações de saúde.

O médico americano Kenneth A. Katz publicou no The New England Journal of Medicine um artigo que aponta como o preconceito prejudica a saúde dos soldados americanos homossexuais.

Nos Estados Unidos, vigora a política do “dont’t ask, don’t tell”. Ou seja: a lei não impede que gays e lésbicas sigam carreira nas Forças Armadas. O combinado, no entanto, é que eles não devem mencionar sua preferência sexual. Os superiores, por sua vez, não devem perguntar.

Do ponto de vista da saúde, essa norma é uma catástrofe. Como um militar pode receber o atendimento adequado se ele não se sente seguro para contar ao médico quais são suas práticas sexuais?

Katz conta o caso de um soldado que atendeu numa clínica municipal de San Diego especializada em doenças sexualmente transmissíveis. Embora tivesse direito a atendimento médico dentro do Exército, o rapaz buscou ajuda numa unidade civil.

A razão é óbvia: se ele revelasse sua preferência sexual ao médico militar estaria infringindo a política do “don’t ask, don’t tell” e poderia ser punido. Katz diagnosticou e tratou a gonorréia que acometia o rapaz. Ele não tinha HIV. E se tivesse? Correria o risco de transmiti-la aos parceiros e de não receber tratamento o mais cedo possível por conta de uma convenção preconceituosa que impede qualquer ação de prevenção?

Katz lembra que os civis também pagam um preço pela escolha das Forças Armadas de manter o problema embaixo do tapete. “Uma visita a qualquer bar frequentado por gays, lésbicas e bissexuais em áreas próximas às instalações militares revela como militares e civis se misturam socialmente – e sexualmente”, escreveu Katz. “A prevenção só pode funcionar se atingir toda a sociedade, inclusive os militares.”

O vírus não respeita patente, condição social, preferência sexual, gênero ou idade. O objetivo do HIV é infectar e reinfectar o maior número possível de pessoas e resistir ao ataque das drogas usadas para combatê-lo. Tem sido muito bem sucedido, como demonstram as tentativas frustadas de produzir uma vacina realmente eficaz contra ele.

Para fazer frente ao HIV, temos que ser mais bem-sucedidos na prevenção. É preciso combater o preconceito sem subestimar o tamanho do estrago provocado pelo inimigo.

O que você acha? Qual é o problema da camisinha? Por que é tão difícil convencer os jovens e os adultos a usá-la? Você acha que as campanhas de TV deveriam ser mais enfáticas?

Fonte: http://revistaepoca.globo.com

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