segunda-feira, dezembro 06, 2010

TAKE FOR GRANTED

Fiquei sabendo que uma querida amiga ex-evangélica acordou numa certa manhã de domingo, com um grupo de pessoas ao redor da sua cama, orando, de acordo com eles, pela sua alma. Sua família preocupada com o fato da menina ter saído da igreja, chamou toda a congregação para o resgate da sua alma. Ela agradeceu as orações, prometeu que voltaria a igreja, mas nunca mais apareceu por lá. Os pais seguem desolados, e ela vivendo com uma tremenda solidão por saber que não pode mais conversar com eles; não teria sido mais fácil se eles tivessem conversado com ela e perguntado se ela estava feliz, mesmo sem a igreja?

Uma das grandes vantagens da religião é a oportunidade de unir pessoas, reforçar a importância do amor incondicional e dar prioridade ao que há de mais importante na vida: a família! Porém, as vezes, na prática, o que ocorre é justamente o contrário, a família, amigos, a própria vida, fica em segundo plano, se não em terceiro ou quarto lugar.

Ora, se estamos aqui na Terra em matéria é justamente para vivermos aqui e agora; a espiritualidade é um exercício de reforço de lembrança de que somos mais do que um corpo só, que temos uma chama divina que sopra consciência dentro da nossa carne. Quando a espiritualidade começa a se tornar prioridade acima das coisas do dia-a-dia ou da importância da nossa família, começamos , pouco a pouco, a flertar com o fanatismo, que é justamente o oposto do "religare" proposto pela religião. Se Deus existe, e tenho certeza disso, ele está representando muito mais no outro, no próximo, do que num templo ou numa figura religiosa, que serve como símbolo sim, mas não substitui o sagrado dos laços de amor e amizade que temos pelos nossos parentes e verdadeiros amigos.

Não faz muito tempo em que fiz um evento, onde pretendia reunir pessoas muito queridas, amigos e gente da família. Eles confirmaram presença, preparei a casa para o encontro, imaginei a festa, mas na hora H, alguns deles não apareceram, justificando que havia um culto, uma batucada, uma missa que eles não podiam perder justamente naquele dia.

Isso me faz lembrar da estória de outra amiga: grávida, que esperava o marido para fazer o ultrasom que diria o sexo do seu bebê, porém, o "papai" não apareceu. O exame coincidia com um jogo do corínthias, e o maridão, torcedor fanático, preferiu o jogo.

Muita gente trata a família e seus amigos como se eles fossem continuar ao seu lado para sempre, "taking their family and friends for granted", e justamente por isso, acreditam que eles podem receber um tratamento de segunda, que eles podem ser esquecidos e deixados de lado, pois há uma garantia que qualquer desconsideração, falta de respeito será desculpada, esquecida, perdoada; e o que foi feito, ficará pra lá, não terá importância, sei lá. mas não é bem assim não!!!

Consideração é uma linha muito delicada que une quem se ama; porém, por ser tão fina e preciosa, ela deve ser mantida como se lidassemos com um cristal, que a qualquer momento pode se quebrar; sim, estamos acostumados a quebrar o cristal da amizade e da família, mas o que não nos damos conta é que uma vez que esse cristal é quebrado, mesmo se emendarmos os cacos, ele nunca mais será o mesmo.

Quando amamos alguém ou damos valor a uma grande amizade, não precisamos estar juntos o tempo todo, porém, há momentos em que temos a chance de provar a essas pessoas a importância que damos a elas, e é justamente nesses momentos, que falhamos, e ás vezes, tudo o que precisavámos ter feito era, ao menos, quem sabe, um telefonema para dizer: "olha, parabéns para você!"

Daí a razão do sorriso triste da minha amiga ex-evangélica ao dizer que compreende a ignorância dos seus pais em relação ao que se passa em seu coração, e por mais que eles tenham tido boa intenção e tiveram bons motivos para se ausentarem dessa fase da vida dela, algo se perdeu nesse processo e talvez, nunca será recuperado...

Daí a razão dessa minha crônica, quando percebo que a espiritualidade é usada como desculpas, muitaz vezes, para não praticarmos a lealdade e a consideração a quem amamos...é claro, que poderia ser pior, tem gente que deixa a família e os amigos em segundo lugar, por um jogo de futebol ou uma cervejada com gente que eles sequer sabem o sobrenome...

Notas do autor:
*TAKE FOR GRANTED é uma expressão da língua inglesa que, em um dos seus possíveis significados, quer dizer que tomamos algo como nosso para sempre ou como verdade absoluta do universo, quando na verdade não é bem assim.
"I took my job for granted, but in the end, I was fired"
Achei que teria o meu emprego para sempre, mas no final, fui despedido.

Um comentário:

Débora Sousa disse...

Fraaank!!! Às vezes acho que você é um sonho; mas aí, eu leio essas suas palavras e penso:" Ele existe, e eu tive a sorte grande de conhecê-lo"

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