quarta-feira, dezembro 15, 2010

Mediunidade ou Esquizofrenia? Sensitivo ou Psicótico? Como diferenciar?

Por Lázaro Freire

Em http://formspring.me/LazaroFreire perguntaram:
> Olá Lázaro, eu gostaria de saber a diferença entre esquizofrenia e uma pessoa sensitiva que vê e ouve vozes
.

Esse pode ser um diagnóstico muito delicado. Se não pelo lado técnico, no mínimo devido ao respeito a crenças e sucetibilidades. O simples fato de ter que abordar a questão com alguém já demanda um embasamento e preparo profissional. No caso, transpessoal, já que uma visão por demais crédula ou cética pode levar a equívocos graves.

Médiuns todos somos, e todo "louco" também percebe coisas do dito além. Isso não importa tanto. Há mediunidade na loucura e loucura na mediunidade. Para se falar em aceitação transpessoal, é preciso outro critério. Cada caso é um caso, mas um bom parãmetro inicial é o da FUNCIONALIDADE e NORMALIDADE.

1) Como a pessoa que ouve vozes FUNCIONA socialmente? Tem o humor normal? Se relaciona bem no trabalho, família, carreira, via acadêmica, vida financeira, amigos, etc? Tem boa socialização, relacionamentos afetivos normais?

2) Como é a ESTURUTA DE LINGUAGEM e DISCURSO? Há presença de elementos delirantes? Os outros percebem o discurso dela como coerente, verossímel, logicamente estruturado? Ou é uma conversa que abre pontas que mal se fecham? Cada patologia tem uma estrutura de discurso (e, às vezes, maneira de olhar) BEEEEM característica, que ouvidos treinados profissionais conseguem captar quase que imediatamente, por nosso "olho clínico".

3) Qual a característica da mensagem das vozes? São coisas óbvias e caricaturais ou mensagens originais? Se originais, qual o grau de coerência do recado? Tem alguma característica de delírio de grandeza, de perseguição ou auto-referente? O suposto "médium" que ouve vozes é "engrandecido" por elas, ou ocupa um papel comunicante MUITO especial em relação à humanidade, incompatível com as probabilidades e bom senso?

4) A mediunidade constuma levar as pessoas a CRESCEREM, fazerem reformas íntimas, reverem suas sombras. Já os estados psicopatológicos em geral fazem a pessoa se manter onde está, e até se dissolver, largar compromissos, não conseguir manter o que fazia. Então um bom critério é o quanto a pessoa está CRESCENDO, nos parâmetros éticos, sociais, pessoais, materiais, etc, a partir do contato com sua mediunidade.

5) Esquizofrenia e demais estados psicóticos envolvem sempre DELÍRIOS e ALUCINAÇÕES. Ou seja, não basta ser vozes, são vozes fora de hora, e que às vezes levam o "médium" a modificar a realidade objetiva a partir do contato interno subjetivo. Esse é para mim o grande limite da patologia, mesmo quando vem de médiuns autênticos. O ponto em que deixa de ser uma expressão interna elevadora, em momento adequado, e deixa de ser tomada PARA SI; e passa a ser baliza para a realidade externa. Nas palavras de Freu, o princípio dos desejos começa a lutar não mais contra o ego ou o superego, mas contra a própria realidade externa, que se dissolve. As vozes interferem no mundo externo, ou mudam a vida OBJETIVA de quem as escuta. Aí é hora de intervir.

6) O mais importante é que MÉDIUNS devem SEMPRE fazer psicoterapia. Eles lidam mais com o inconsciente do que os demais, e pisam sempre nessa linha tênue entre realidade e simbologia, material e espiritual. Podem a qualquer momento ter seu senso de avaliação comprometido, e, portanto, precisam de um interlocutor externo imparcial. Se alguém chega a TER DÚVIDAS então, passou da hora de uma avaliação profissional. Então, estamos supondo que o tal médium TENHA acompanhamento psicoterapeutico capacitado. Nesse caso, podemos perguntar se, na visão de um profissional que conheça a vida dela, se o conteúdo dessas vozes É MESMO transpessoal ou se trata de uma clara representação do inconsciente, como um sonho acordado.

7) Outra questão é que um médium deveria ser intermediário. O que importa não é ouvir vozes, mas ter normalidade e credibilidade para passar o seu recado adiante. Não é "médium" o sensitivo que não se relaciona socialmente. Não era "médium" aquele que se encontrava em manicômios.

8) Se houver um diagnóstico ou suspeita de esquizofrenia / psicose, é fundamental manter o tratamento. Remédios antipsicóticos atuam apenas em delírios, na esfera cerebral. Não afetam a mediunidade ou sensibilidade de ninguém, já que estas deveriam vir de além do físico. Ao contrário, tratar a esquizofrenia, tanto em psicoterapia quanto com medicamentos, auxilia a verdadeira mediunidade, já que diminui a confusão mental interna no sensitivo, que impedia dele passar o seu recado adequadamente. Um médium fica MELHOR MÉDIUM com tratamento, e confunde as mensagens, mesmo as legítimas, enquanto está na psicose. Se um tratamento para psicose "remover a mediunidade" de alguém, não era mediunidade. Simples assim.

Há mais critérios, o diagnóstico é sutil, não dá para esgotar por aqui. Espero ter ajudado. Na dúvida, estou na clínica para orientações: http://voadores.com.br/clinica


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Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


Fonte: http://www.voadores.com.br/

Um comentário:

Láz disse...

Esse texto é de fato muito útil e devia ser melhor compreendido. Lido há muitos anos nessa fronteira, e embora haja critérios bem razoáveis para a distinção, como explico no texto, a gigantesca maioria se perde nessas fronteiras, e cultua suas patologias e fantasias como se fossem deuses, prolongando sua tragédia pessoal. 

O problema é que se formos usar esses critérios que expliquei, por mais sensatos que sejam, MUITO agrupamento "esotérico" ou "canalizador" cai por terra. Na turma dos BILUs e Sherans, os da "urologia" mística, seria quase um strike. Para não falar na turma que promove catarses e transes pré-pessoais, conforme advertências de Ken Wilber, e sai arrogantemente dizendo que tudo ali é contato "com Deus".

Ou seja, adotar esses critérios simples incomodaria demais as lideranças religiosas do segmento dito espiritual. Inclusive financeiramente. Mesmo os mais sérios e de mais discernimento parecem preferir que não haja esse tipo de esclarecimento, para não perderem o direito de dar uma surtadinha ou apeladona de vez em quando - atribuindo tudo sempre à vontade dos amparadores, graças a Deus. E ai de quem não disser Amém...

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