terça-feira, dezembro 21, 2010

A Autoria dos Pontos de Umbanda

" Eu vi Mamãe Oxum na cachoeira;
Sentada à beira do rio..."


Comecei a fazer um estudo sobre os hinos recebidos e cantados nos rituais de Santo Daime, o que levou-me quase que de imediato aos pontos de Umbanda, haja vista que essas duas religiões estão cada vez mais próximas, especialmente nas capitais do Sudeste do país. Assim como nos ritos que se utilizam da bebida Ayahuasca (ou Santo Daime/Huasca, etc); na Umbanda, o ponto ( o canto) é o elo de ligação entre o mundo espiritual e o mundo material, uma espécie de chamado para que a entidade que é saudada no canto, se manifeste ( encorpore) no médium, ou seja, o canto é o principal elemento do ritual.

Para prosseguirmos, é importante dizer que esse artigo não tem a pretenção de discutir essas religiões ou seus rituais, mas apenas tratar da questão de como esses cantos são tratados pela Umbanda em relação aos seus autores.

No Santo Daime, acredita-se que o hino é recebido pelo padrinho diretamente do astral, numa espécie de psicografia musical, e esse hino passa a ser parte de um hinário que será cantado em alguma data especial da agenda anual de ritos dessa religião; não sendo aceitos hinos compostos pelos próprios adeptos. Esse hinário, geralmente, é compilado e faz parte da indumentária de trabalho do participante, assim como a farda e o maracá. Na Umbanda, porém, apesar de haver uma indumentária e o rito também conter bailado e canto, não é comum, vermos os " médiuns" com hinários ou qualquer outro livro em mãos, onde esses cantos estariam registrados.

Se no Santo Daime, há uma preocupação muito presente das "puxadoras" em cantar os hinos de acordo com o ritmo e a cadência ditada pelo padrinho, de acordo com o que foi ouvido "no astral";o mesmo não ocorre na Umbanda, onde os hinos são cantados e tocados pelos "Ogãs" de acordo com as orientações do Pai de Santo ou Dirigente da Casa.

O que observei em minha pesquisa foi o fato de que as letras desses cantos se alteram de terreiro para terreiro; ou seja, eles são puxados e cantados sem uma devida padronização, o que leva a uma alteração também no ritmo e no próprio rito que se desenvolve a partir desses cantos. Talvez seja por isso que há tempos, perdeu-se a informação da autoria desses cantos. Junto com o autor, perdeu-se também o ritmo e a letra original, uma vez que os cantos são alterados não somente em sua letra, mas também em ritmo e cadência.

" Meu pai Oxalá É o rei.
Venha me valer.
Meu pai Oxalá É o rei.
Venha me valer.
O velho Omulu Atotô, abaluaiê"


Como a Umbanda expandiu-se em terreiros de fundo de quintal, muitas vezes, na clandestinidade, devido a perseguição religiosa; nunca houve a preocupação de uma formatação das regras de seus ritos, e com isso, os centros foram seguindo com os seus trabalhos baseados na tradição oral do "como era feito antes, deve continuar sendo feito"; os pontos/hinos acabaram tornando-se propriedade desses terreiros e dos seus ritos. A grande questão é que se os hinos da Umbanda tiverem sido recebidos no astral ou transmitidos por uma força maior, como ocorre com o Santo Daime, não seria essa alteração livre prejudicial para o rito?

"Eu vi chover
Eu vi relanpejar
Mas mesmo assim o céu ficou azul
Firma o seu ponto na folha da Jurema
Oxossi é tema de maracatu"


Nas religiões que se utilizam de mantras e bhajans indianos (hinduísmo, budismo, dentre outras); os cantos são também parte fudamental do ritual. Esses cantos e sons sutis são em sânscrito, uma língua que todos acreditam ser sagrada e que só existe nos planos superiores. Muitos dos mantras utilizados, acredita-se, que tenha sido recebido pelos antigos sábios da Índia, diretamente do astral; Sendo assim, a repetição das palavras devem ocorrer de forma correta, uma vez que, de acordo com eles, cada palavra forma um som único que repercute em uma parte do nosso ser e nos liga até as dimensões sutis. Se o som não for feito da maneira correta, ele não alcançará o resultado esperado, podendo até mesmo prejudicar o ritual e os seus adeptos.

"Om bhūr bhuva svar
tat savitur varenyam
bhargo devasya dhīmahi
dhiyo yo nah prachodayāt"


Retornando a Umbanda e aos seus pontos, acredito caber aos dirigentes, a responsabilidade de organizar esses cantos, de forma, que os registros dessa cultura não se perca em meio a tradição oral. Porém, há muitos poucos "Terreiros" preocupados com a preservação dessa herança. Alguns dirigentes alegam que não é possível saber a origem desses cantos e a sua alteração é sempre autorizada pela "Entidade da Casa", porém, essa explicação não elimina a discussão sobre como seriam esses cantos em sua forma original ou sobre quem os teria recebido; nem muito menos, nos ajuda, a preservar uma tradição tão rica, e ao mesmo tempo, tão desconhecida.

Se por um lado, a ausência da informação dos autores impossibilita um estudo mais aprofundado sobre esses cantos; por outro lado, é interessante observar como os cantos se transformaram de lugar em lugar, alterando muitas vezes, até a organização do rito ou a simbologia da religião. Em São Paulo, Rio e boa parte do Sudeste do Brasil, por exemplo, há cantos que fazem referência ao Orixá Ogum como São Jorge; já na Bahia, os terreiros de Umbanda, fazem a correspondência com Santo Antônio de Pádua ou com São Sebastião, talvez por uma grande influência do Candomblé, tão preponderante na região.

Para complementar esse artigo, cito parte de um texto da autora Daniele do site:
http://religiaoespirita.com/umbanda/o-ponto-cantado-na-umbanda

" A música é utilizada desde os tempos mais remotos, como uma forma de contato entre nós, seres humanos e a Divindade. Na própria Bíblia existem muitas passagens que nos mostram isso.

A Umbanda, religião anunciada em 15 de novembro de 1908 pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, também utiliza desse processo, principalmente através dos pontos cantados, que são verdadeiros mantras, ou ainda, preces, que dinamizam forças naturais e nos fazem entrar em contato íntimo com as Potências Espirituais que nos regem, em especial os Orixás, Guias e Protetores do Astral.

O ponto cantado está entre os fundamentos de mais importância para os trabalhos dentro de uma tenda de Umbanda e por isso, os curimbeiros ou ogãs devem conhecer o mínimo necessário sobre a magia musical gerada por esses cânticos, para que os mesmos sejam entoados no momento certo, uma vez que possuem vibrações e finalidades próprias para cada momento ou tipo de trabalho. Isso é importante, pois, quando entoados em hora imprópria, os pontos podem perder o sentido, ou até atrapalhar a sessão. Por exemplo: de que adianta você cantar um ponto de chamada, quando as entidades já estão preparadas para voltarem à Aruanda? Se não for por ordem de um Mentor Espiritual, esse ponto em nada auxiliará nos trabalhos realizados, ou pior ainda, poderá sim, criar um problema, provocando a incorporação de uma entidade, numa hora imprópria, principalmente num médium ainda não desenvolvido.

Os pontos cantados dividem-se em pontos de raiz, que são enviados pelos espíritos (incorporados ou através de outra manifestação mediúnica, como a inspiração). Estes não podem ser modificados, pois possuem ligações diretas com a Entidade que o passou. Já os pontos terrenos, são feitos pelas pessoas, sem intervenção espiritual e podem ser aceitos pela Espiritualidade, desde que pautados na razão, bom senso e fé de quem os compõem. Deve-se tomar cuidado com a colocação das palavras, pois termos indevidos podem abrir portas para os planos negativos do astral, além de deixar uma marca negativa para a religião.

Quanto à função, os pontos podem ser, de chegada, de partida, de vibração, de descarrego, de saudação, de louvação, de demanda, etc….

É importante saber que, sendo o ponto uma oração em forma de música, o mesmo deverá ‘cantado com o coração’…. palavras jogadas ao vento não trarão as energias necessárias que ele poderia gerar e vibrar dentro do terreiro.

Sinta o que você está entoando e deixe a energia fluir, envolvendo sua casa com as forças positivas do Astral."

Um comentário:

Celso disse...

Olá,


Sou fardado do Santo Daime e dirigente de um novo seguimento de Jurema em Joao Pessoa PB.
Fiz a leitura e achei muito importante as colocações do autor, no que diz respeito a colocação das palavras nos hinos e da entoação dos cantigos. Acho que o autor é um dos poucos estudiosos com o intuito de aprender e repassar suas informações, fazendo suas colocações sem crítica de forma a respeitar os seguimentos religiosos. Parabêns amigo !!!!

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