sábado, outubro 02, 2010

Mergulhando no Oceano Vazio

" ...diante do todo e do vazio, não cabem mais palavras. Nem tudo pode ser representado, escrito, narrado. A mente e a linguagem não tem como dar conta daquilo que sequer é expressável em termos de tempo-espaço...*"



Eu, peixinho de rio, certa vez, mergulhei no Oceano e fiquei vazio.

Diante do infinito liquido, meus olhos de rio tentavam compreender o que estava sendo visto, e depois de tanto tentar, tentando, deixei de tentar, e acabei me entregando a viagem do nadar em águas que eu já havia conhecido em algum tempo talvez para sempre dentro de mim.

Peixinho de pena que eu era, queria escrever, reter tudo o que via; queria compartilhar com os outros peixes o que eu sentia, mas não conseguia, tentava, acreditem, mas não conseguia, daí, percebi que a linguagem que eu usaria não caberia num conto, não daria de conta, nem mesmo se eu escrevesse uma odisséia onde tentasse descrever a idéia daquele Oceano que se apresentava. Daí, fiz dos meus olhos espelhos e do meu corpo percepção, e mergulhei naquele Meio, em busca do sentido daquela visão.


" ... esse caminho é uma noite escura rumo ao inefável. Tudo que falamos sobre esses estados é muito lindo, mas não dissemos nada do que é. É terrível e maravilhoso...**"
Confesso que tinha medo, muito receio do azul profundo daquela imensidão, mas sabia que tinha que confiar, confiei então, que nada de mal ocorreria, e bastou afastar o medo, e eu vi, gente eu vi, a Mãe Divina, Lakhimi ou Iemanjá, ou qualquer nome que se dá, sim, ela estava lá para sempre a nos esperar, e ao seu lado, o Pai Eterno, Oxalá ou Brahman, Ishalá que eu não diga o seu nome em vão, e Ele sorria, como se estivesse me aguardando eternamente nas profundezas das alturas onde Está. Vi minha Casa, cheguei em casa, como se eu estivesse voltando de uma longa viagem e percebesse que a vida no rio era apenas uma passagem; e eu quis, por lá ficar, e nunca mais voltar, para o rio, voltar para o rio mais nunca; porém, eu sabia, por intuição que a minha aventura de existência no plano fisíco, estava longe de acabar e sim, eu teria que retornar.

Então, olhei para a Mãe Divina e para o Pai Eterno, e me senti orgulhoso de ter chegado até minha casa sozinho, enquanto outros tantos sequer tinham idéia que era possível vencer o mito e descobrir a verdadeira face do Divino. Eu deveria mesmo ser alguém especial, se não "o", um escolhido.

Cheio de orgulho pelo que eu consegui, comecei a ver meus Pais se afastarem de mim; daí, Papai e Mamãe do Mar sorriram um adeus, mas ainda houve tempo de ver que eles apontavam para o lado, para cima, para a esquerda e para baixo, e eu via, que outros tantos estavam chegando, e vinham de todos os cantos, e não eram peixes vindos do meu rio com a fé das minhas águas, mas outros tantos bichos que com os seus olhos pequenininhos, viam os Pais Divino com outra visão, com outra face, bem diferente do rosto que eu enxergava, das imagens que eu havia visto, cada um vestindo o Amor que nos gerou de acordo com a sua bagagem de conhecimento e crença, e vinham em busca da constatação que aquela saudade que sentimos no peito não é ilusão, é uma essência, pois existe mesmo uma Casa Eterna, e o caminho para Ela, começa dentro de cada um, ao termos a coragem de abrir a porta do coração e mergulhar na transcendência.


"... é uma totalidade vazia, ou um nada repleto de tudo. Eu não sei contar quanta vida e tempo há em um segundo, quando projeta-se na vertical, em vez de descer a ladeira horizontal do tempo espaço. Eu não sei dizer sequer quanto tempo o tempo tem. Como falar de todo o universo que há no vazio, quanto o tempo é tempo que NÃO tem?***"


SOMOS TODOS UM SÓ




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Essa três partes da crônica foram extraídas do texto original portado por Lázaro Freire na Lista Voadores:
http://br.groups.yahoo.com/group/voadores/

Um comentário:

Anônimo disse...

Que lindo Frank, faço minhas as suas palavras.

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