sexta-feira, setembro 24, 2010

PORQUE EU POSSO

Não havia motivo, nem razão, fiz porque pude, faço porque posso.

É a situação, é a oportunidade, tanto faz a idade, se elas derem bola, se ignorarem a aliança em minha mão, por que não? Se elas querem, não sou eu que direi não; faço porque posso, quem não faria o mesmo na minha situação?

Se uso os recursos da minha empresa, mesmo quando não preciso, quem é que não os usaria se os tivesse em mãos?

Se uso a impressora da empresa para meus documentos pessoais ou levo para casa o material de escritório que está sobrando, quem nunca o fez que atire o primeiro clipe; quem me acusa terá 100 anos de perdão.

Não fiz por mal, mal seria não fazer, se maltratei o motorista, se humilhei a empregada, fiz porque podia; não aponte o dedo, você os trataria do mesmo jeito, se já não os tratou.

Se joguei o lixo pela janela do carro, se a bituca saltou da minha mão, fiz porque eu podia e também para ajudar o pobre Guari, que sem a gente como eu, não estaria varrendo o chão.

Se coloquei meu irmão no gabinete, se na folha de pagamento consta minha sogra, meu cunhado e minha filha, fiz porque podia, afinal, estou aqui em nome do poder de escolha de uma eleição.

Tenho um trabalho a fazer, se você estivesse usando a minha gravata, não faria o mesmo? Não se cercaria com os seus? Quem não colocaria a família para trabalhar consigo? Batatas para quem crítica, repolho para quem me acusa de nepotismo.

Tenho certeza que vocês fariam esse mesmo "isso" que vocês tanto criticam; se pudessem, se tivessem as mesmas oportunidades, não seriam diferentes de mim, dos outros, dos que proliferam nos partidos políticos, nas esquinas, nas empresas ou na sua casa.

Fizemos todos porque podíamos, e fazemos todos porque podemos...


Frank Oliveira



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Cargos de Desconfiança
Por Stephen Kanitz

Daqui a três meses os governadores eleitos terão de enfrentar um dos maiores pesadelos de um político. Como preencher as centenas de cargos de confiança que compõem um governo.

O número exato de cargos varia de Estado para Estado. Para o governo federal eu já ouvi estimativas que variavam de 2.000 a 20.000 cargos a ser preenchidos.

A problema é que a maioria dos políticos não conhece um número suficiente de pessoas em quem realmente possa confiar. Ao contrário dos grandes executivos e profissionais que desenvolvem listas de colaboradores ao longo de suas carreiras, os políticos normalmente acumulam listas de pessoas em quem não se deve confiar, pelo menos politicamente. Poucos convivem, no dia a dia da batalha por votos, com administradores profissionais, orçamentistas empresariais, gerentes de RH e planejadores, profissionais necessários para um bom governo.

Por isso, as primeiras pessoas convidadas são normalmente amigos e parentes de irrestrita confiança. O desespero é tal que até genros, normalmente vistos com certa suspeita na escala familiar, são convidados para participar da equipe de governo. Não que amigos e parentes não possam ser pessoas competentes, mas a base de escolha é muito pequena para que a média seja qualificada. Imaginem criar uma seleção de futebol dessa maneira. Você apostaria no seu sucesso ? O mesmo ocorre com nossas equipes de governo. Você apostaria no sucesso de um governo assim constitúido ?

A primeira decepção de cada novo governo e a primeira crítica que a imprensa lhe faz ocorrem por ocasião do anúncio da equipe e dos parentes contratados. Insinua-se em alguns relatos, que parentes foram contratados para que todos se tornem ricos, o que pelos salários atuais do setor público é praticamente impossível.

O erro que a maioria dos políticos eleitos comete é desconhecer uma das leis básicas da administração: Todo cargo, seja público, seja privado, é de total e irrestrita desconfiança. Infelizmente, todo colaborador, por mais amigo que seja, precisa ser tratado com certa dose de desconfiança.

Os maiores desfalques em empresas familiares são cometidos por parentes, em que não escapa nem filhos, muito menos genros. Bons amigos então, nem se fala. De onde surgiu este mito de que amigo do peito e parente não roubam ?

Essa prática não é exclusiva de nossos políticos. A maioria de nossas empresas contrata diretores da mesma maneira, tanto que são chamadas de empresas ‘familiares’.

A saída para esse dilema é outra. Em vez de contratar um amigo do peito, selecione o melhor e mais qualificado profissional possível para o cargo, independente de conhecê-lo ou não. Em seguida, cerque o contratado de controles gerenciais, fiscalização interna , auditoria externa, o que for necessário para manter o pessoal na linha.

As multinacionais não trazem mais um presidente de confiança do exterior como faziam antigamente. Contratam brasileiros, sejam eles amigos dos acionistas ou não. Dois brasileiros, Alain Belda Fernandez e Henrique de Campos Meirelles, são presidentes da matriz americana das multinacionais em que trabalham, o equivalente a contratar um americano para cuidar de nossa dívida externa. No Brasil, o melhor administrador financeiro do país tem poucas chances de ser Ministro da Fazenda, se já não for amigo do presidente bem antes de sua eleição.

Cargo de confiança é simplesmente um conceito anacrônico, algo do passado pré-gerencial. Num mundo competitivo, todos os cargos, incluindo os do governo, precisam ser de total e irrestrita competência, e não de confiança.

A rigor, num mundo globalizado, onde temos de dominar alguns segmentos da economia mundial deveríamos estar contratando os melhores do mundo. Pelo menos algum dia vamos começar timidamente desde o início, contratando os melhores brasileiros.

PS – Se você, amigo ou parente de político, for convidado para um cargo de confiança nos próximos três meses sem ter pelo menos vinte anos de experiência na área, a nação encarecidamente implora : recuse delicadamente.

Publicado na Revista Veja, Editora Abril, na edição 1560, nº 33, de 19 de agosto de 1998, página 22

http://www.kanitz.com.br/

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