segunda-feira, setembro 13, 2010

O QUE IMPORTA É A MENSAGEM???

Frank foi ao cinema com a sua esposa para assistir a um filme com tema espiritual. Por meses, ele esperou com ansiedade a estréia da produção, comprou o ingresso com antecendência e com alegria, esperava na fila, a chance de ter o prazer de assistir aquela obra tão ímpar que, na certa, mudaria para sempre a história do cinema nacional.

O filme começa.

Efeitos maravilhosos, trilha de primeira, imagens bem produzidas e fotografadas, atuação...well...

"Continua assistindo", Frank pensou, tentando ignorar também alguns buracos feios no roteiro, e tentando prestar atenção no que interessava mais: a energia da obra, como ela iria ajudar as pessoas a prestarem mais atenção ao que fazem um com o outro, etc. À certa altura do filme, Frank olhou para o lado, e notou que a sua esposa estava emocionada, e ele por tabela, por empatia, quis se emocionar também, afinal era a história de um grande livro que estava sendo contada, e pensando nisso, ele continuou repetindo mentalmente: " continua assistindo".

E o filme continuou, mas acabou para ele; pois Frank já não conseguia fechar os olhos para os cortes mal feitos das cenas e ver todo aquele povo no cinema ignorando algumas regras básicas de cinema. "O que importa é a mensagem", ele lembrou a si mesmo. E quando finalmente as luzes se acenderam, sua mulher olhou para ele e perguntou:

- Lindo, não? Você gostou?

- Well...

- Foi maravilhoso, não foi?

- Bem... - e diante da alegria da esposa, ele concordou: Claro! Maravilhoso!

Ao chegar em casa, ele, como sempre faz, abriu o seu caderno de notas e quis fazer uma crônica sobre como, apesar das falhas, certas coisas valem pelo resultado final. Se fizer bem, que mal tem?

Ele escreveu um texto bem bacana, comentando sobre a imperfeição sendo uma ponte para algo melhor, porém, em meio a crônica que se escrevia, ele percebeu que estava, na verdade, fazendo um Ode a mediocracia. Se continuasse com isso, ele estaria seguindo ao pé da letra as regras do Manual da Mediocridade, que dita que o que é bom, mesmo que feito de qualquer jeito, só pode ser MUITO bom; e por ter uma motivação nobre não pode ser discutido, nem muito menos criticado.

Pensando nisso, ele percebeu ter duas opções: ficar calado!

" Se não pode dizer algo bom, silêncio é o melhor remédio", já dizia a sua vó.

Ou ele poderia escrever uma crítica ao filme. O problema era que aquele não era um filme qualquer, e sendo um filme religioso, ele não saíria ileso, se tentasse dizer o que ele achava sobre a obra. Se postasse essa crônica somente em seu blog, ele não correria o risco de "perder leitores", mas se postasse isso em outros veículos e espaços virtuais, correria um risco muito grande de ... fazer sucesso.

" Preciso pagar para ver" - ele disse a si mesmo e então, decidiu prosseguir, já tendo em mente, que mexeria num ninho de marimbondos.

Como escritor, ele sabe que alguns temas podem alterar emoções para o bem ou para o, vamos dizer, "não-tão-bem". Ele, como um cronista da alegria e do amor, sempre trabalhou bem com os temas positivos, e sempre fugiu dos temas "negativos", mesmo sabendo que são esses temas que mais atraem leitores. Sim, aquela crônica era uma bela oportunidade para ele descobrir, na prática, os efeitos de um texto como aquele. Ele sabia que mesmo se concentrasse na crítica ao filme, os leitores que não estavam acostumados a ler com atenção, achariam, que ele estava criticando a religião.

Preparado para as ferruadas, ele finalizou a crônica, cujo tom era: " o que importa é a mensagem? Ô caramba! Vamos fazer direito!".

Postou, então, a crônica em seu blog e na Voadores ( lista de bate-papo que o cronista posta seus textos desde 2001), com os devidos links no twitter e no facebook, Frank contou os minutos...1, 2, 3, 4

5 m depois: a primeira marimbondada

" Seu sem religião! Vai arder no Umbral"

6 m: veio a segunda

" O importante é mensagem. Vai tomar um passe, seu desgraçado!"

E começou a chover pedradas: a terceira, a quarta... a centésima... e continuou...

Resultado: a crônica tornara-se um sucesso de público! Mais de 100 leitores escreveram, entraram em contato, exigiram que Frank os xingassem de volta. Isso num único dia! Nada mal!

Frank, então, abriu uma "Sidra" e começou a pensar seriamente em começar a provocar mais, manipular melhor as palavras e escrever sempre sobre temas polêmicos, afinal, temas relacionados a sexo, futebol, religião sempre atraiam a massa. Com uma experiência de mais de 10 anos de escrita na internet, ele sabia de cor, os passos para se tornar um escritor de massa e atrair uma multidão ao seu blog:

1. Atrair o público em algum site público e com muitos assinantes, usando algum tema polêmico, manipulando o tema para causar no público uma resposta de negação ou ataque;
2. Para não ficar com uma imagem ruím, bastava sair pela esquerda, com um discurso de estar sendo perseguido pelo povo, dizendo que ninguém estava compreendendo bem o que se estava sendo discutido;
3. Depois de algum tempo, o público se sentiria culpado e o perdoaria; mas o seu nome já estaria ligado a temas de interesse e, mesmo se não concordassem com ele, o público leria os seus escritos, só para ter algum argumento contrário ao dele;
4. Daí, a próxima polêmica reiniciaria o ciclo de atração, manipulação, saída de cena e retorno.

Sim, havia riscos: a cada ciclo, alguns leitores poderiam ser perdidos, porém, outros tantos chegariam e se tornariam parte do fã-clube.

"Bela tentação", ele pensou, daí, repensou de novo e disse para si mesmo: "humm, não!". Fazer aquilo era o oposto do que ele acreditava ser a sua função como escritor. Frank sempre escrevera para a alma, para tocar os corações, e não as emoções agressivas ou outras tantas que causavam desarmonia e revolta. Sim, uma coisa era dizer a sua opinião sobre algo, outra coisa, era provocar o vento no olho do furacão.

Todo escritor quer ser lido, e verdade fosse dita, seus textos e crônicas quase sempre não recebiam a mesma atenção e repercussão, mas ele sabia que apesar de não ser lido por muitos, os poucos que o acompanhavam, eram leitores cativos, assíduos, que liam além das entrelinhas, que meditavam sobre o que estava sendo dito. Esses leitores sabiam compreender bem uma crítica, a grande massa, não! Era melhor ter poucos leitores, mas leitores ativos, do que leitores do coletivo, das grandes emoções, mas sem juízo; passivos no discernimento, que preferem ser ditos, mesmo que de "qualque jeito", serem guiados, não importando os meios. No final, todos vão para o mesmo lugar. Beleza! Mas a que preço?

A crônica sobre aquele fime continuou alastrando brigas, desentendimentos, flames, agressões, mas ao mesmo tempo, aquela experiência de escrita, lhe havia ensinado muitas lições e reforçara muitos pontos que ele sempre desconfiara:

a) escrever sobre os tabus da sociedade brasileira SEMPRE gera discussões e flames. Pedradas doem, mas são poderosas ferramentas de marketing pessoal;
b) discutir qualquer assunto relacionado a religião, mesmo quando não se tem razão, gera SEMPRE uma repercussão tão grande, que o escritor acaba sendo convidado para palestras, cursos, viagens e seminários pagos;
c) ser do contra, garante trocado na conta, por isso há os Manardis da vida, que fazem tanto sucesso;
e) há uma relação bem confortável no Brasil do "jeitinho" em aceitar tudo aquilo que for feito de "qualquer maneira", desde que ajudem as pessoas e faça o bem no final;
f) há leitores-moscas que se atraem por qualquer polêmica e espalham suas larvas de ódio e ignorância, e há leitores-abelhas, que voam ao redor de uma assunto interessante SEMPRE meditando, discernindo, aprendendo, ensinando e compartilhando o seu ponto de vista.

Enfim, Frank decidiu escrever uma outra crônica, contando, dessa vez, os bastidores da sua experiência como escritor de um tema polêmico e as suas repercussões, no intuíto de mostrar ao leitor que o acompanha que, sim, ele prefere se manter nos temas elevados, e rechear as suas letras com muita poesia, porém, isso não quer dizer que ele vai se calar diante do mal gosto e das coisas mal feitas em nome de algo maior, contudo, uma coisa é postar uma opinião nesse blog de leitores amigos, outra coisa é postar uma mensagem para o grande público apontando o que pode ser melhorado.

Escrever para a grande massa é assumir uma grande responsabilidade pelos temas que estão sendo discutidos, e mora aí, o perigo tanto da manipulação da informação, quanto dos trabalhos mal feitos, que atraem muita gente por levarem uma mensagem bonitinha, mas carregam em suas entrelinhas, o velho modelo da mediocridade, de fazer as coisas de qualquer jeito em nome do bem, da arte ou da salvação de nossas almas.

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