sexta-feira, setembro 10, 2010

Leia com atenção - ou não

Por Contardo Calligaris
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Novas pesquisas valorizam a divagação e o devaneio, ambos hoje considerados indispensáveis para pensar
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A SEXTA temporada de "House" está acabando, no Universal Channel, e a sétima é iminente. Quem segue a série sabe que, frequentemente, o achado decisivo do médico House acontece, digamos, por distração.

Durante uma boa metade de cada episódio, House testa todo tipo de hipótese diagnóstica, enquanto o paciente sobrevive a exames e tratamentos inúteis.

Mesmo durante essa primeira fase, House não avança graças a sei lá qual capacidade focada de examinar e interpretar os sintomas do paciente. Ao contrário, ele funciona direito só numa espécie de jogo em que os membros de sua equipe, meio que no chute, levantam hipóteses que ele derruba.

Essa componente lúdica e divagadora de seu funcionamento aparece em outras circunstâncias: o paciente está morrendo e House (para pensar melhor ou para não pensar?) toca guitarra elétrica, ironiza a vida sentimental de um amigo, brinca com uma bola.

Reconhecemos facilmente a hora do diagnóstico final e correto porque 1) faltam 15 minutos ao fim do episódio, 2) repetidamente, esse diagnóstico surge quando House se perde num pensamento que não tem nada a ver com o paciente e sua doença.

Imagine, por exemplo, que o paciente esteja morrendo ou prestes a ser operado por causa de um diagnóstico errado. House entra num bar para assistir a um jogo de futebol. Vergonha: ele deveria estar preocupado com seu paciente, não é? Mas eis que um zagueiro faz um gol contra, e a distração desse momento-futebol permite que House se lembre de que, às vezes, o organismo também faz gol contra: heureca, doença autoimune!

Para os psicanalistas, essa situação é familiar. Freud recomendava que os pacientes fossem escutados com "atenção flutuante". Ele não sugeria que, durante a sessão, os analistas lessem o jornal ou cuidassem de seus e-mails.

Mas acontece que interpretar significa juntar dois pensamentos que, à primeira vista, não parecem ter muito a ver um com o outro. Para que isso aconteça, é preciso manter aberta a porta da divagação, de modo que pensamentos estrangeiros ao contexto não sejam barrados por princípio.

O diagnóstico médico e a escuta psicanalítica são processos que exigem um exercício criativo, se não inventivo. Neles, pode ser bem-vindo, AO MESMO TEMPO, divagar (ou mesmo devanear) e seguir os caminhos focados do pensamento que executa uma tarefa.

Nos anos 60, o metilfenidato (um estimulante) começou a ser usado para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças em idade escolar. De 60 a 90, o diagnóstico de TDAH aumentou brutalmente: nos EUA, por exemplo, de 12 crianças em cada mil nos anos 70, chegou-se a 34 em cada mil nos anos 90.

Seja qual for a realidade neurológica e psicológica do TDAH e seja qual for a eficácia do seu tratamento com metilfenidato, é difícil não constatar que a epidemia tem também uma explicação cultural.

Sua história começa logo nos anos 60, uma época em que divagar (perder-se no pensamento e pelo mundo) era um valor positivo da contracultura. Desde então, voltamos a prezar o olhar focado do predador. O ápice dessa reação (e do diagnóstico de TDAH) foi a religião do sucesso dos anos 90.

Ora, começam a aparecer pesquisas que revalorizam a divagação e o devaneio. "Descobrimos" o que já sabíamos: há uma desatenção sem a qual não se consegue pensar nada que valha a pena.

Usando apenas o dito "controle executivo" focado, conseguiremos cumprir tarefas adequadamente (mesmo assim, à condição que não haja imprevistos), mas não inventaremos nada. A própria invenção científica (não só a criação artística) pede um uso simultâneo de controle executivo e divagação.

Duas pesquisas, para quem quiser ler (com atenção, claro): www.migre.me/1aZZu e www.migre.me/1b57h.

A segunda documenta (por ressonância magnética funcional) a cooperação possível de pensamento focado e devaneio (que ainda são, por muitos, considerados como atividades exclusivas uma da outra).

À luz dessas pesquisas, seria bom reavaliar nossa hipervalorização da atenção focada e, sobretudo, nossa medicalização sistemática de crianças que, às vezes, com toda razão, gostam de sonhar de olhos abertos.


Sobre o autor Contardo Calligaris:
Da Revista Língua Portuguesa


O psicanalista e escritor Contardo Calligaris fala das relações entre o idioma e a psicanálise, comenta sua amizade com Roland Barthes e critica a linguística adotada por Jacques Lacan.

Por Edgard Murano

O psicanalista Contardo Calligaris, italiano radicado no Brasil desde 1985, tem uma relação especial com a língua portuguesa. Não só por ter se familiarizado rapidamente com o idioma. Ao desembarcar aqui, sentia-se "colonizado" pelo hábito de escrever textos psicanalíticos e foi graças ao português que diz ter se reencontrado com a literatura. O idioma, garante, lhe deu uma visão de mundo que sustentou a recente criação de suas obras de ficção, o romance O Conto do Amor (Cia das Letras, 2008) e a peça O Homem da Tarja Preta (2009).

Nascido em Milão, na Itália, Contardo aprimorou sua escrita no jornalismo. Há mais de dez anos colunista de Folha de S. Paulo, exerce um modelo de texto marcado, segundo ele, pela "renúncia a querer parecer inteligente". Nos tempos de faculdade, em Paris, conviveu com intelectuais que a geração atual admira por meio dos livros, como o amigo Roland Barthes, que orientou seu doutorado, e Italo Calvino, que o encorajou a ser escritor.

Contardo concedeu esta entrevista em seu consultório no bairro dos Jardins, em São Paulo, e por quase duas horas falou sobre sua relação afetiva com o idioma e os pontos de contato entre a linguagem e a psicanálise. O gosto pela clínica não ameniza suas críticas ao discurso psicanalítico, a começar pelo uso desregrado de clichês. Para ele, uma linguagem fechada privilegia o reconhecimento mútuo dos membros do grupo, em detrimento do real interesse daquilo que se diz.

A gramática de uma língua ou pessoa pode revelar algo da psiquê?
Claro que sim. Essa organização é tão constitutiva quanto reveladora. Num artigo clássico sobre pronomes pessoais, [o linguista] Émile Benvéniste deu o exemplo de uma língua oriental cuja construção seria diferente das línguas latinas. A construção dominante ali é a forma passiva do verbo, até quando falamos na 1ª pessoa. Se dizemos "Eu vou ao cinema hoje à noite", lá temos algo como "Hoje à noite por mim é ido ao cinema". Imagine uma língua em que não exista a possibilidade de o sujeito da enunciação ser o sujeito da frase, mas só complemento de agente, numa forma passiva: é uma língua que supõe uma consciência subjetiva completamente diferente. Nossa experiência subjetiva é ligada ao sujeito gramatical da 1ª pessoa do verbo. Grandes diferenças desse tipo revelam e constituem subjetividades diferentes.

O que seria específico da "psiquê da língua portuguesa"?
Há coisas que fazem o charme da língua portuguesa. Entre as línguas neolatinas, a única que tem o modo futuro do subjuntivo é o português. O modo e o tempo são peculiares. Você pode formular não só uma hipótese, mas uma hipótese num futuro incerto. No italiano ou no francês, você pode dizer "Se eu eu fosse rei, faria", o que não é a mesma coisa que dizer "Se eu for rei". É um sentido que, de certa forma, não se consegue expressar em outros idiomas. Não se trata só de um elogio à sutileza da língua, mas também de uma dimensão de experiência subjetiva que é própria de quem fala essa língua e ainda mais de quem cresceu falando-a.

Ser criado numa língua deixa marcas na psiquê?
Sem dúvida. Você se constitui como sujeito de mil maneiras, tanto pela percepção quanto pelas experiências intersubjetivas, e cada língua tem um leque de experiências subjetivas que lhe são próprias. Não é diferente do que acontece com os fonemas. No fundo, a possibilidade de formar um certo número de fonemas diferentes dos de sua língua materna depende da variedade de fonemas que, por alguma razão, você aprendeu a emitir na primeira fase do funcionamento do seu aparelho vocal. E isso é análogo no que concerne à construção de frases e, de certa forma, à visão de mundo. Não falo hebraico, mas sabe-se que a troca verbal em Israel é rude, extremamente direta, sem aquela série de locuções com que atenuamos aquilo que tratamos: "Será que eventualmente você poderia me trazer um café?". Lá seria "Faz um café", e pronto [risos]. É uma propriedade de uma língua que foi um caso único de um idioma ressuscitado.

O que devemos ter em mente para entender uma cultura por meio da psicanálise?
A mesma coisa de quando nos interessamos por alguém ou alguma cultura, isto é, escutar. Quando decidi vir para cá, o primeiro passo foi ter o mesmo tipo de conhecimento da cultura brasileira que um vestibulando mediano teria. Então comecei a ler aqueles livros obrigatórios para ter uma visão do Brasil. Por mais que a gente estude, tem uma hora que você precisa de uma imersão, que nunca vai ser equivalente à experiência de quem cresceu e viveu numa cultura. Há uma expressão de um escritor italiano, "léxico familiar", que diz respeito não só às palavras usadas num núcleo familiar restrito mas a expressões que constituem a unidade e a consistência psíquicas desse núcleo.

O que acha que mudou em sua relação com a língua desde que chegou?
O Brasil e o português brasileiro exerceram uma função importante na minha vida. Passei por várias línguas. O alemão e o espanhol são idiomas pelos quais circulo, mas nunca passei por eles. Fui alfabetizado em inglês antes de ir para o primário e a língua que se falava em casa era o italiano. Ao ir à escola fui realfabetizado em italiano, uma experiência rara - boa ou ruim. Aí veio o francês, que meus pais falavam quando não queriam que a gente os entendesse. O português me chegou tarde, perto dos meus 40 anos. Hoje, o português é a língua na qual escrevo melhor. Aprendi a escrever de um outro ponto de vista, pois quando cheguei ao Brasil era totalmente colonizado pelo hábito de escrever textos psicanalíticos.


Colonizado?
Os textos psicanalíticos franceses são escritos numa língua que não é o francês, mas um idioma "próprio" [risos], cuja função não é produzir textos que sejam lidos, mas que funcionem como token [senha] de reconhecimento dentro de uma seita. Só serve para que os colegas o reconheçam como alguém que pratica a mesma "língua", textos de caráter conotativo e fático, "Alô, estou falando a sua língua, alô..." [risos]

Quais os grandes clichês do discurso psicanalítico?
De certo ponto de vista, o discurso psicanalítico é um clichê. Não todo, pois você pode pegar um texto de Freud e nele há pouquíssimos clichês. Hoje em dia, falar de complexo de Édipo já não escandaliza. Mas Freud tem coisas incríveis, e me impressiona sua honestidade intelectual, que é cada vez mais rara entre os psicanalistas atuais, sobretudo os franceses, cujos congressos são uma coisa entediante, hermética.

Como o português ajudou a arejar seu texto?
O fato de escrever para jornal por onze anos me ensinou a escrever para os leitores, e não para os colegas. Tem sempre um colega que diz "Mas você, na coluna da semana passada, poderia ter citado..." Claro que poderia ter citado. Mas só cito quando acho que pode ser de ajuda a quem não leu. Não me interessa citar algo para que meus pares saibam que eu li a bibliografia. Escrever para jornal é renunciar a querer parecer inteligente. É dizer alguma coisa que de fato interessa ao leitor, que está eventualmente tomando café da manhã.

A linguagem tem lugar na psicanálise para além de Lacan?
A atenção ao que o paciente literalmente diz já existe em Freud, não só em Interpretação dos Sonhos, mas até no Freud clínico, na escuta que ele fazia. Não tem essa de o paciente falar "Ah, me enganei", depois de dizer alguma coisa. Você não se enganou, o que disse foi aquilo, a maneira como uma frase é construída é relevante, pois pode expressar algo que a pessoa não está querendo ouvir e, no entanto, pensa. Não vejo ninguém no campo pós-freudiano que não preste atenção a isso, cuidadosamente. Se tem algo que vale a pena salvar, e de qualquer jeito se salva no ensino de Lacan, é a maneira como ele pediu para que todo mundo voltasse a ler Freud com cuidado, chamando a atenção para a letra do que o paciente diz. E disso ninguém discorda.

Onde estaria o limite da teoria lacaniana?
O que acho velho são as referências linguísticas de Lacan. A única grande referência dele em matéria de linguística foi Ferdinand Saussure. Lacan teve uma vaga noção da gramática generativa de Chomsky, mas teve pouquíssima relação com uma linguística da frase, por exemplo. Ele mal tocou nesse assunto. E hoje é estupidez tentar explicar o funcionamento interno da linguagem com o que ele pega de Saussure - o eixo da palavra, performativo, e o da língua, normativo - ou imaginar que exista uma espécie de combinação de gramática e dicionário no cérebro, e a partir disso a gente produziria frases. Ninguém mais acredita que é assim que a linguagem funciona. Seria mais interessante se o lacanianos tivessem a coragem de repensar sua atenção à linguagem nos termos de uma linguística mais forte e correta do que a saussuriana. No entanto, não lamento ter me ocupado da linguagem nem de minha formação ter passado por Lacan. Fui doutorando de Roland Barthes, que tinha uma semiologia muito interessante, pouco normativa, diferente da de Greimas e companhia... Também acho crucial ler Benvéniste e Saussure, que é leitura muito básica para quem deseja estudar psicologia clínica.

Como foi que você conheceu Barthes?
Eu me formei em Genebra em duas graduações, Letras e Epistemologia, daí fui me analisar em Paris enquanto lecionava em Genebra. Decidi fazer doutorado. Já conhecia Barthes, de um congresso de semiótica, não me lembro se foi Umberto Eco quem me apresentou a ele. Então Barthes me aceitou. Ele foi importante na minha formação, era alguém com quem jantava no mínimo uma vez por semana. Falávamos sobre qualquer coisa, literatura, romances, amores, amizades, enfim... Frequentava minha casa, adorava meus cachorros.

Nessa época você já pensava em fazer ficção?
Desde pequeno eu queria escrever um romance. Mas só fui reencontrar a ficção em língua portuguesa. O livro está saindo em alemão agora e devo terminar um segundo romance em 2010, com o título provisório de Duas Mulheres e Alguns Filhos. Se terminá-lo este mês, a publicação fica para o segundo semestre.

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