domingo, setembro 26, 2010

BACKROOM

Havia o backroom, um lugar onde a gente costumava se encontrar, não pensem vocês, que a gente fazia essas coisas proibidas, porque muita gente entrava, muita gente saia, e justamente por isso, a gente só fazia coisa bonita, que era prosar, falar de música, de filme, da vida, nunca dos outros, sempre da gente.

Foi no backroom que a encontrei e por muita tempo a gente foi amigo parente, esse tipo de amigo que dura para sempre, que não some, só soma, e somando, ela fez diferença em minha vida, me via sempre no salão da frente, bem, dizia que eu seria grande, que eu faria o mundo melhor; eu, claro, não acreditava e achava que ela dizia aquilo só para ficar no backroom comigo, mas ela me via, por mais que eu não conseguisse enxergá-la.

O tempo passou e o backroom se foi, sai de lá, fui promovido ao caminho do middle, o room do meio, onde as coisas ainda não são vistas por inteiro, mas a gente acha que já vê muito, não via, mas quando lá estive, ela quis continuar amiga de mim, mas eu a afastei da minha vida, achando que de nada adiantaria ter comigo alguém que me lembrasse de onde eu vim, pois, não queria mais nada que me ligasse aos backroom da vida. Afastei-a da pior forma possível: fiz com que ela me odiasse, visse o monstro que havia em mim.

Outros anos se passaram, e quis a vida que eu continuasse a minha caminhada, avancei para o room da frente, aquele mesmo lugar que ela disse que eu estaria, um dia, e eu estava finalmente; e em mente, e coração, lembrei da minha amiga do backroom e já não tive medo de lembrar do que sentíamos, do que senti, do que ela sentiu por mim, e tentei localizá-la, conversar, reatar qualquer coisa que ainda houvesse, e para minha surpresa, muito ainda havia, passado o vale das mágoas, percebemos os dois que eramos amigos da alma, amantes do carinho que sempre sentimos um pelo outro. Passado era passado, o que importava era a nossa relação que tinha sobrevivido a todos os rooms que atravassei e ela sempre esteve comigo. Nossa relação era dourada porque ambos dela retiravam coisas boas. Eu estava enganado.

Nesses dias desses, nos encontramos de novo, no mar de águas claras, de onde se enxerga os reflexos da alma e percebi na imagem que se mostrava, que embora só o bem ela tivesse feito para e por mim; eu lhe havia faltado, e de certa forma, eu tinha estragado, boa parte dos rooms que ela passara, pois ela sempre carregara consigo, a lembrança torta de um amor não correspondido, e projetava nos outros tudo aquilo que ela não tinha vivido comigo. Ela, então, olhando profundamente em meus olhos, diante das margens da água do mundo, disse para mim: "por favor, some da minha vida! Você sempre me fez mais mal que bem, e eu preciso seguir sem você em meus rooms para que eu possa,enfim, ser feliz, sem esperar que seja com você. Toda vez que você me procura, deixa em mim, um pedaço de loucura, e eu penso erroneamente que há a gente, mas não há, nunca houve, e nem haverá"

Foi então que eu percebi que certas relações podem ser luzes na nossa vida, pois ela sempre foi uma estrela para mim, porém, outras, podem ser manchas escuras nos vidros do nosso coração, escuridão que não nos permite ver com atenção o que se passa na gente e pela gente, todas essas oportunidades de amor que se apresentam e são desperdiçadas, pois alguém do backroom do passado ainda mora com a gente e nos prende nos calabouços dos amores acorrentados.

Ouvindo tudo isso, não me senti ofendido, apenas beijei minha amiga na testa e com isso, foi-se o encanto, ela virou princesa novamente e eu tornei a ser sapo, quebrando o que era laço para mim, mas que para ela, sempre foi uma corrente.

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