domingo, agosto 29, 2010

Mente ou coração, fé ou razão, conhecimento ou espiritualidade?

Por Lázaro Freire

"O poste é o posto da virtude, e oposto ao pote do pensar"


Quanto mais estudo e tento compartilhar, mais observo que alguns preferem condenar o conhecimento, como se este fosse o oposto do coração.

O curioso é que não se ataca aqueles que buscam conhecimentos materiais. Nem os que se aprofundam na academia sem tentar traduzir os assuntos ditos "doutos" para os comuns. Ao contrário, estes são valorizados na sociedade, inclusive na espiritual.

Já os que questionam, ou pelo menos estudam os perigosos caminhos que poderiam levar ao questionamento, ah! Estes não tem coração! E se é a mente quem faz isso, esta torna-se "inimiga de Deus". A mente "mente", dizem, sem perceber que na falta dela, "mente-se" muito mais.

Engenharia, pode. Não afeta a sabedoria, especialmente se o engenheiro for porta-voz de algum grupo ou religião. Condena-se - sem conhecer - o coração de quem estuda discernimento, ou filosofia, ou psicologia, ou espiritualidade. Ou quem ousa usar a mente em áreas dominadas pelo ditado pelos proprietários das comunicações divinas. Por mais que já tenham usado também a alma e o coração.

Ah, mas psicologia, até pode! Desde que seja aplicada no RH de uma corporação. Filosofia também pode. Desde que seja mais uma pesquisa histórica ou uma excentricidade acadêmica do que um incentivo ao pensar transformador das tradições culturais e religiosas vigentes, por mais acomodados que nela estejamos. (*)

Pode tudo, desde que conformado com o que o pensamento anterior classificava como virtude. Pode encher ou esvaziar os compartimentos que limitam o amor e a mente do outro. Vale exigir que o conhecimento do outro caiba no limite de meu pote, e nunca transborde - o que milênios de igreja fizeram muito bem.

Universal, Kardec, Vaticano, Reiki e Wicca, pode. Pode virtude, moral e evangelho. Pode pedir e obter. Pode até ser cético ou crente, desde que em torno da mesma linha vigente. Pode até sociologia, desde que isto não o torne comunista. Economistas e administradores, sejam bem vindos à casa de Deus. Que venham todos os Chicos, da Silva, de Assis ou Xavier. Pode química, biologia, medicina e MBA. Vamos fazer assim, Deus é nosso, o conhecimento é de vocês, e colaboramos juntos para que tudo fique igual. Sempre deu certo assim, desde os tempos dos reis. Vamos morrer e Renascer assim, e se eu estiver errado, que o teto desta igreja caia sobre nossas cabeças.

Pode quase tudo, até curso superior. O que não pode é mudar, o que não pode é conhecer "demais" o que "desvirtua" o Deus anterior. O problema não são os potes, o que não pode é tirar os poStes do lugar. Isso gera assédio. Isso anula o caminho de coração e samadhi do espiritualista que resolveu estudar - e, pecado, compartilhar. Isso ofende muito ao Deus de todo o universo que, triste comigo, nos envia obsessores e castigos: "dói mais em mim do que em você, filho; mas é para o seu próprio bem". Se já há luz suficiente para os potes debaixo dos postes firmes e fixos, porque este sonho de Ícaro de querer ver a luz do Sol? O poste é o posto da virtude, e oposto ao pote virtual do pensar. O poder do rei, como sabemos, emana sempre de Deus.

Bem... Mas acontece que se de fato conhecimento não é, por si só, sabedoria", tampouco há sabedoria sem ele. Opinião não é conhecimento, nem fé é experiência. Negar o coração não faz de ninguém mais conhecedor ou sábio. Negar o conhecimento não faz de alguém mais amoroso. O que é difícil é discernir sem conhecer. A certeza do outro não deveria abalar a minha fé. Estudar é confessar ignorar, permanecer é que presume já saber. Na pior das hipóteses, se o conhecimento dele um dia demonstrar que estive errado... tanto melhor! Como dizia Arthur Conan Doyle, excluindo-se todas causas impossíveis e sem lógica, o que sobra, por mais estranho que pareça, é a verdade.

Ora, a verdade não exclui o que chamo de espiritual, talvez o contrário, porque repousa em meu longo caminho de experiências íntimas e coração. Não sei porque o meu conhecimento, ou mesmo a revelação de uma verdade em comum, poderia incomodar tanto a "fé" de meu irmão. Vieram Platão, Giordano Bruno, Spinoza, Darwin, Nietzsche, Freud e Jung, e Deus e a espiritualidade não acabaram. A única coisa que se vai com a verdade e o conhecimento são apenas mitos, que nos afastam da experiência interior.

Mente e coração não são incompatíveis. Quem tem autoridade para determinar o "excesso" de mente e coração... do outro? Este confronto de fé e razão foi tema de 1000 anos de Filosofia, e é curioso vê-lo reproduzido nos meios espiritualistas do terceiro milênio. Meus colegas seminaristas se assustam no primeiro ano de filosofia quando, para se formarem padres, a igreja lhes exige justamente discernir os mitos de sua fé. Eles protestam ao saber do Jesus Histórico e dos dogmas medievais justamente em uma escola cristã. Entretanto, os padres professores lhes lembram que o discernimento sobre temas espirituais e o desenvolvimento da mente e conhecimeto jamais poderá lhes roubar a experiência íntima que tiveram. Ao contrário, Deus teria nos dado a mente e a razão para que possamos compreender o que para outro seria apenas objeto de fé. A idéia da Igreja Católica, ao desconstruir seus futuros sacerdotes, é a de que quem tem fé cega pode ser um bom cristão, mas jamais poderia ser o sacerdote que conduzirá os demais. É preciso experiência íntima, samadhi, satori, comunhão, e essa sobrevive a - e complementa - qualquer racionalização. O que na contra mão sugere que os inimigos do conhecimento no caminho espiritual nem sempre tiveram tanto ágape assim. O que não faz diferença, desde que vivam seu próprio caminho do coração e fé, e não o julgamento do caminho de seu irmão.

Entretanto, vejo muitas vezes comentários como se ter mente e conhecimento fosse negar a experiência e o coração. Como se o conhecimento do outro fosse excessivo e devesse ser freiado, se ultrapassar a fé e conhecimento de meu irmão. Como se aquele que já soubesse alguma coisa não pudesse estudar mais, a não ser que negue três vezes seu coração diante da inquisição: "se terá algo que não tenho, preciso que abra mão daquilo que tenho". Quanto comparação! Como se quem faz um curso dito "superior" (para se habilitar amanhã a disseminar melhor estes assuntos éticos e espiritualistas em escolas, artigos e clínicas) fosse obsediado - se e somente se os cursos acadêmicos tangenciarem assuntos da fé. Ora, acadêmicos não são mais nem menos obsediados do que os que tem segundo grau, ou primário, ou formação tecnológica. Como qualquer outra pessoa, suas companhias serão fruto de sua sintonia, e não de seus estudos e esforços realmente "excessivos" para alguns. A obsessão de um doutor obsediado não se deu por seu título, assim como a do assaltante não é fruto de seu alfabetismo.

Portanto, e isso é importante, que as pessoas que tem autoridade espiritual para julgar a mente e o coração dos demais chamem os estudiosos de mau-caráter, de descrentes, de discordantes ou de hereges, se assim o forem. Mas sem a hipocrisia indireta da acusação ao discernimento ou formação. Já temos muitos problemas educacionais na escola, e esquisoterismos na religião, sem essa apologia religiosa ao desconhecimento, ou ao limite de conhecimento que os autores religiosos consideram "adequados" a um espiritualista. Condenar a informação é perigoso e falacioso. Já temos relatos na voadores de igrejas e seitas que condenam abertamente os livros e estudos, exigindo que todo "conhecimento" venha de um mestre, de um sacerdote ou até mesmo de uma planta psicoativa. Nesse aspecto, é um progresso ser protestante, que pelo menos estudam a Bíblia.

Mas se a questão da obsessão evidentemente não está associada ao grau de instrução ou ao tamanho do pote do conhecimento do outro, devemos refletir no PORQUÊ desta associação entre obsessão e formação acadêmica em temas humanos ou subjetivos. Porque o equívoco de colocar a balança NESSE eixo, e não em outro? Por que o estudo incomodaria, e a quem?

Aliás, onde está a arrogância em confessar ignorância com a atitude de estudar mais, buscar outras visões, sentar em bancos de escola e dar ouvidos diariamente ao conhecimento de alguém? É difícil compreender como quem estuda menos presume que quem confessa ignorância é quem "sabe mais". Mas se o que não sabe estuda mais para ter essa compreensão, tendo vivido e amado tanto ou mais que o que o "sábio" que o condena, isso implica que a tão alegada "sabedoria" não se sustente. A não ser, é claro, que se invalide o estudo e conhecimento de meu irmão. Sócrates há muito resolveu esta questão. E morreu com cicuta, por "desvirtuar" os postes da espiritualidade mítica de seu tempo.

Enfim, são apenas reflexões. Não tenho o conhecimento, e é por isso que o busco. Deus não ama, ele É. E é da ciência desta minha incompletude que sei que tenho coração, tão infinito quanto minha mente, e criados pelo mesmo Ser. Curioso a mente ser o demônio de alguns. Não deve ser por acaso.

Parece que, como diz Sartre, o inferno são os outros. Há muito tempo os sacerdotes nos lembram que o demônio persegue de perto aqueles que estudamos ou questionamos um pouco mais.

Pelas companhias, liberdade, universalismo e qualidade do pensamento, creio que prefiro ir para o inferno do que para este céu. Não estou certo de que a supressão da mente garanta, àqueles religiosos, uma eternidade de coração. (Ei, Osho, Krishnamurti, Aurobindo, Giordano Bruno, Mestre Eckhart, Spinoza, vocês tem lugar para mais um filósofo E espiritualista aí embaixo?)

E pensando nesta milenar questão da fé "ou" razão, Pistis e Sophia, Doxa versus Episteme, fides et ratio...

... me desculpem se os ofendo, mas insisto em ter Mente E Coração!

Lázaro Freire (**)


"Quando tivermos passado além dos conhecimentos, então teremos o Conhecimento; a Razão foi o auxílio, a Razão é o entrave. Transforma tua razão em uma intuição ordenada; que tudo em ti seja luz. Este é teu alvo. Transforma teu esforço em um conhecimento igual e soberano da força da alma; que tudo em ti seja força consciente. Este é teu alvo. Transforma o animal no Pastor dos rebanhos; que tudo em ti seja Deus. Este é teu alvo."
(Trechos de Sri Aurobindo em "O Entrave")


"Dançar a noite inteira não significa dar bobeira; de manhã se alienar ou esquecer. É a busca do supremo equilíbrio, num processo inteligente sua mente clarear sem perceber.
(Oswaldo Montenegro, em "Incompatibilidade")

(*) Em artigo opinativo recente, a Revista Veja, importante porta-voz do conservadorismo neoliberal, condenou o que chamou de "besteirol" do reestabelecimento do ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas de 2º Grau. Segundo o editorial, isso levaria "nossos filhos" a pensar e questionar demais, ao invés de se dedicarem a temas mais "práticos" e "úteis" (como talvez ler as instruções, tc no msn, subtrair o troco, apertar parafusos - e, no topo da pirâmide acrítica, programar o o computador).
Curiosamente, a Filosofia é ensinada - e até valorizada - em escolas da classe alta, onde apenas os que lêem são aprovados. A preocupação maior dos governos neoliberais (e da elite que os sustenta) é com o ensino do pensamento crítico nas escolas públicas, onde Filosofia e Sociologia encontravam-se proibidas desde... os governos militares. Foram estes que convenientemente as substituiram pelas doutrinárias "Ensino Religioso", "Educação Moral (!) e Cívica" e "OSPB - Organização (?) Social e Política do Brasil), que nos fazem gerar bem mais eletricidade para a Matrix. Amem.


(**) Texto dedicado ao meu querido amigo Dalton Roque, do "Amor Consciencial", cujas reflexões sobre mente e coração inspiraram este meu artigo. Professor de exatas E escritor do alma, engenheiro E médium, Dalton professa em pensamentos espirituosos as verdades que encontra no sentimento espiritual. Com a coragem dos que sabem que sua mente, alma e corações transbordam, sim - principalmente de amor e luz.

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Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br

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