quinta-feira, agosto 12, 2010

GANHAR NO GRITO

"You are way better than that"

Símbolo: uma casa!

Procuro por uma casa, mas não acredito nisso; sou andarilho, meu lar é o mundo; sou voador, casa é gaiola, lar é no ar. Por mim, moro nas alturas for good, por minha mulher, procuro a casa que ela deseja, ela vale o sacrifício, por isso, desarmo as asas, procuro o lugar que ela diz será o nosso abrigo, o nosso templo, o chão para a corrida dos nossos filhos. Abandono os galhos, busco o vínculo, tento recriar o significado da palavra "casa" em meu íntimo, não consigo, mas tento mesmo assim e depois de muito procurar, encontro o local ideal, a casa perfeita, formato exato, posso ver Auri sorrindo, eu sorrio junto, já imagino até o cachorro, o churrasco com os amigos, as visitas inesperadas e esperadas. Sinto o chão, pés procurando conexão. Sim, esse é o lugar!

- Tem alguém na frente - diz a mulher da imobiliária - Mas dá prosseguimento aos documentos e quem for aprovado primeiramente, pega as chaves.

Aceito o desafio! Deixo de fazer isso ou aquilo, perco horas, dias com isso, cancelo aulas, deixo de lado os meus escritos, sou todo casa, sou todo marido procurando um lar para a minha família. Consigo! Em 24 horas, todos os documentos, papelada está entregue, mais 24 e a seguradora me entrega a aprovação, a imobiliária me parabeniza, ligo para a Auri, comemoramos, abrimos o vinho, repartimos o queijo e o pão, santa celebração do amor. Auri faz planos, eu sorrio; ela pensa nos móveis, no espaço preenchido com carinho, eu continuo inebriado pelo seu sorriso. Brindamos!

Dia seguinte, ligo para a imobiliária para saber detalhes das chaves, prazo e entrega da casa, a mulher que me atendeu no dia passado desconversa, diz que a outra pessoa que estava na frente, também tinha sido aprovada, depois da gente, mais aprovada.

- Quem entregou os documentos primeiro? - pergunto, ela responde "você!", mas explica que a mulher estava gritando, veio com o marido, cachorro e filhos, fizeram um escândalo, quererm chamar a policia, se não receberem as chaves.

Ao telefone, penso no que posso fazer, no que pode ser feito, grito por grito, meu Oxossi grita mais alto. Tudo está ao meu favor, a situação, tenho certeza que o bem prevalecerá, a justiça sempre ganha. Avalio tudo e decido: deixo nas mãos do bom senso da mulher, que é também dona da imobiliária.

- A decisão cabe a senhora que representa o dono do imóvel, mas a senhora prefere alugar essa residência para quem entregou os documentos primeiro, seguindo a sua orientação e quer resolver tudo na conversa e na paz, ou prefere ceder para quem se atrasou, entregou os documentos depois e quer brigar?

Perdi a casa!

A outra pessoa ganhou no grito!


"Nothing is gonna change my world"
Across the Universe
Beatles



Recebo a notícia: não consegui o que eu queria!

Respiro, mas não evito a fúria que começa a me invadir...

Nuvens cinzas e pesadas se formam no céu, o sol se esconde com medo, as ruas ficam vazias, os passarinhos param de cantar, os cachorros se escondem com os gatos, embaixo dos carros. Quero xingar, quero gritar com a mulher ao telefone, quero ir na imobiliária e mostrar para ela, que também sei brigar. Respiro, sou mais que isso; sou da paz, tudo tem uma explicação, não era para ser, Deus sabe o que faz, segui tudo direitinho, lí a linguagem do mundo, eu estava certo, fiz tudo conforme me foi dito, "we can´t always get what you want": NÃÃÃÃÃOOOO!!!!

Relâmpagos no céu, trovões, a tempestade cai e me deixa cego: sou pura fúria, estou contrariado, furioso, deixo as trevas tomarem de conta, flerto com as sombras e surto. Jogo os livros longe, grito, penso em Auri, penso no sorriso dela se desfazendo, seu brilho no olho se perdendo e fico mais nervoso ainda. Sou Hulk explodindo, solto o Mr Hyde, o lobisomem, a besta que mora dentro.

Enxurrada de mal-dizer, inundação de mal-pensar, saiam da frente, estou contrariado, estou enraivado e sou perigoso. Uma voz dentro de mim, que pode ser meu anjo ou my self aconselha: "não caia na armadilha da matéria! Transcenda!"

Não quero! Tenho todo o direito de sentir raiva, de ficar assim. Não sou menino emburrado que não pode brincar, tenho o direito de não engolir sapo nem lagarto, odeio o mundo, odeio tudo aquilo que eu vinha acreditando, tudo aquilo dentro de mim que ainda luta para me dar uma razão, um motivo, que me pede para continuar acreditando. Não quero!

Shiva OM! Roda, Kali em mim, quero destruir, avanço sob a multidão, empurro, reclamam, eles xingam, esbarro em um cara, quero confusão, se ele reclamar, vai levar na cara, ele está acompanhado da sua mulher e do seu filho, o menino me olha, não parece assustado, apenas curioso e pergunta a sua mãe: "por que o moço está nervoso?"

Respiro, ajudo o moço a se levantar, peço desculpas, ele diz que não foi nada, o menino insiste na pergunta, a mãe desconversa, não quer confusão com aquele sujeito com aquele olhar furioso.

- Mãe, mas por que o moço estava nervoso?

Respiro profundamente uma vez mais, por que mesmo que eu estava nervoso?

Entro no metrô, sento e reflito no que foi aquilo, o metro vai lotando, um senhor esta em pé, cedo o lugar para ele, ele sorri e eu percebo: não tenho jeito mesmo para as sombras, a luz ganhou de novo!





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