quarta-feira, agosto 25, 2010

As Barbas do Moisés

- Você acha uma boa idéia subir o Monte Sinai à noite? Perguntava minha mulher dentro do mini-bus que nos levaria para o Deserto do Sinai, onde escalaríamos o famoso monte que Moises recebeu os dez mandamentos.

- Se Moisés que era bem velhinho conseguiu...

- Eu não acredito que ele tenha subido no escuro - ela conclui.

Nem eu acreditava, mas mesmo assim se quisessemos testemunhar o sol nascer do topo da montanha teriamos que subir o monte durante a noite. Fomos deixados nos pés da montanha sagrada junto com outros tantos viajantes . Seria quatro horas de subida até o topo e se conseguissemos encontrar um lugar em meio aos peregrinos, camelos, guias e turistas, testemunhariamos o maior espetáculo da Terra segundo os egípcios: O Amanhecer no Sinai.

- Vai valer a pena ! dizia pra mim mesmo como um mantra, à medida que via que teríamos que caminhar na escuro. Pois na pressa, nenhum menbro do grupo lembrou de trazer uma lanterna.

Sem nosso guia estariamos completamente perdidos na escuridão. E pensar que quase desistimos de contratar o moço Beduino. Eram quase meia noite e o nosso grupo de mochilas nas costas foi seguindo pelo caminho que era só subida. Não que o escuro incomodasse nosso guia que provavelemente subia e descia aquela montanha toda noite.

- Quando se tem certeza da trilha, você consegue segui-la com os olhos fechados.- dizia o homem que podia até ser convencido, mas sabia o que fazia, uma vez que não enxergavamos um palmo à frente do nariz; e com a certeza de quem sabe onde pisa, foi conduzindo a gente montanha acima.

Apesar de tanto católico, judeu e muçulmano estarem ali seguindo os passos de Moisés, a nossa peregrinação era por causa da "Aurora", princesa Linda que contam 9 entre 10 egípcios se revelava uma "rainha linda" vista do topo do monte, onde contam as lendas, Moisés teve um contato imediato de primeiro grau com Deus e recebeu a tábua dos mandamentos, grande pilar e raiz das três maiores religiões monoteistas do mundo.

Eu nunca fui muito fã do Moisés. Talvez porque tive que decorar os mandamentos numa época que mal sabia o meu nome de cor, também porque minha mente adulta o culpava por ter começado essa confusão toda no Oriente Médio e esse papo dos judeus de serem ¨o povo escolhido¨ por Deus. Porém, não deixei de pensar no homem desde que colocara os pés no Sinai, principalmente ao ver o Mar Vermelho e ter uma pré-cognição:
" O mar se abria em dois..." e eu testemunhara tudo pela telinha da TV. O filme "Os Dez Mandamentos" marcou a minha infância e nunca esqueci aquela cena do marzão se abrindo e vivia tentando entender como ele fez aquilo, na esperança de quem sabe poder repetir o truque num riacho que havia perto de casa e ficar popular no bairro. Mas à medida que fui crescendo não demorei para sacar que Moisés talvez, nem teria existido.

Curiosamente, Moisés e o Exôdo é a grande ponte de interseção das três religiões de um Deus só. Qualquer muçulmano sabe tanto quanto um judeu ou um cristão sobre o que andou fazendo e falando o profeta.

Como ja deixei bem claro, meu interesse ali era puramente natureba : a montanha e o amanhecer; mas logo percebi que era impossivel não ser contaminado com o rastro energético religioso de preces e cantigas dos fiéis. A cada parada, podiamos ver pequeninos pontos de luz movendo-se para o alto, como se centenas de vaga-lumes estivessem subindo em zique-zaque do chão em direção ao céu. E que céu.

Eu nunca tinha visto nada como aquilo, nem minha esposa tinha visto tanta estrela cadente.

- Eu vi uma! - dizia ela, sorriso de criança descobrindo o mundo - Olha outra! São tantas…

Quando vivíamos no Brasil, moravamos no centro de São Paulo , onde o céu só da passagem a algumas estrelinhas em feriados e fins de semana, quando a poluição diminui. Ali, vendo tanto estrelas eramos caipiras de cidade grande maravilhados com essas coisas “bestas” que faz a gente se sentir como moleque de novo. Lembro o quanto festejava ao abrir a janela de meu apartamento e conseguir enxergar “as três Marias” quando a noite se despia do cinza que impedia a vislumbração da sua beleza.

Em meio ao povo passando e camelos esperando por peregrinos cansados demais para subir a pé, juro que pude ver um velhinho barbudo de branco, segurando um cajado. Tentei apontar o velhinho para Auri, mas ela ainda contava estrelas caindo.

- Auri, olha o Moisés! - apontei, mas ela continuava catando estrelas.

- Esse é o céu que São Paulo teria se não fosse a poluição.

- Auri, acho que vi o Moisés - disse de novo, tentando procurar o homem com cara de Moisés, mas ele tinha sumido. Não demorou para o guia avisar a todos que precisavamos continuar, olhei pra minha esposa e juro que jamais a vi tão Linda como áquela noite em que seus olhos refetiam as estrelas caindo:

- Vamos seguir, menina que nunca viu estrelas!

Contrariada ela segurou minha mão e começamos a caminhar novamente, muito embora seus olhos ainda cintilassem com o brilho do céu.

- E pensar que algumas delas nem mais existem. – lamentou a moça.
- Existem sim, enquanto pudermos vê-las e senti-las elas sempre existirão. Elas são tão reais quanto essa mochila.

E que mochila pesada. Por que será que sempre carregamos mais do que precisamos?

Entre o peso da mochila e o topo do Monte Sinai, havia algo no ar. Havia tanta inspiração e poesia vindo que desisti de pegar meu bloco de notas e caneta, até mesmo por que seria impossível escrever no escuro. Apenas deixei vir e abri o coração para sentir, então vi o velhinho de novo.

Ele caminhava comigo, não se importando com as pessoas ou com as estrelas. Seu corpo caminhava, mas sua alma parecia estar em outro lugar.

Quem teria sido realmente aquele homem? Teria mesmo recebido os 10 mandamentos de Deus ou foi o unico meio de convencer tanta gente diferente a se unir? Teria realmente separado o Mar Vermelho? Estariam os americanos preparando uma nova versão daquele filme que assisti aos 10 anos de idade?

- Ele deve ter realmente vindo aqui! – disse a Auri - Por mais que muita coisa na Bíblia tenha sido inventada para tornar a historia mais interessante, eu acredito que toda fábula tem algum ponto de verdade. Se ele realmente existiu, ele deve ter vindo até aqui para dar um tempo. Sei lá, meditar sobre como liderar e passar informação para aquele povo que brigava por bobeira.

- Eu acho que você tá levando muito a sério essa história.- disse Auri se concentrando na caminhada. Eu continuava pensando em Moisés. Ele estava ali conosco, era impossivel não percebê-lo.

Moises deve ter subido ali para encontrar respostas. Devia estar se sentindo confuso, querendo saber se estava fazendo a coisa certa ou não. Era muita gente dependendo de seus ensinamentos e direção. O cara tinha que ter um pulso forte e um bom argumento para evitar que o povo se matasse por bobeira e parassem de bolinar na mulher do próximo.

O velhinho caminhava ao meu lado e eu podia ouvir o que o preocupava:

“ O que fazer e como orientar tanta gente? Como parar todos esses conflitos e fazê-los entender que somos uma única família? Como ser um bom guia?¨

A medida que subia, Moisés se perguntava se fez realmente a coisa certa. Não teria sido melhor continuar nos jardins dos Faraós com comida e mulher a vontade? E se aquilo tudo fosse uma ilusão da sua cabeca e seus planos não diferissem de tantos outros que so queriam dominar e ter poder sobre o que o povo pensava e acreditava? Por mais que seu coração lhe dizesse que as vozes e visões eram reais, as dúvidas continuavam a lhe atormentar a alma, mas ele sabia que todo homem que se auto-questiona e pondera sobre seus atos se afasta do caminho dos loucos por poder e se aproxima mais de se tornar um líder.

E assim, chegamos todos ao topo do Monte Sinai.

Enquanto Moisés meditava em sua fé e certezas, eu tirava a mochila e observava a multidão, Por um momento achei que alguém colocaria na entrada uma placa de lotação esgotada.

Havia tanta gente lá em cima que recordei com carinho as manhas de segunda-feira tentando pegar metro em São Paulo, mas Moisés, parecia não se importar e continuou em silêncio, até que uma melodia ecoou no ar e pareceu interpenetrar seu corpo, o enchendo de paz.

E a canção dizia:
“Essa é a Canção da Vida, Moisés. Ela ecoa pelo ar dia e noite e pode ser ouvida em qualquer lugar ou em qualquer situação. So é preciso ter coração aberto para escuta-la.”

- Você pode ouvir? Perguntou Auri
- Sim - respondi, percebendo que entre as Nikons e Panasonics de ultima geração, um grupo de japoneses evangélicos cantavam uma canção - Não sei o que eles estão cantando, mas é bem bonito.

E era!

Toda canção parece carregar uma mensagem, mesmo quando não cantada. Se conseguirmos ouvi-la de verdade, ela é capaz de transformar o que sentimos.

Uma vez quando eu era criança, minha mãe me disse, que se eu pudesse ouvir meu Anjo da Guarda , eu escutaria não sua voz, mas melodia.

Seria realmente a música um tipo de linguagem só compreendida pela alma? Seria a música que compomos uma tentativa humana de reproduzir o que os anjos transmitem nos céus de nossos corações?

Sim! A música era o mensageiro. O anjo entre Moisés e Deus. E ouvindo com o coração, ele entendeu a mensagem:

“Para tudo há ciclos
e para cada ciclo, há mudancas.
Nessas mudancas há sempre perfeição e propósito, pois ela levará o homem ao equilíbrio e ao reino de onde ele veio.
De tempos em tempos, ciclos e ciclos, se faz necessário o esclarecimento para que os homens não se percam ainda mais. E você Moisés, sabe que esse conhecimento nem sempre é facilmente ou sabiamente interpretado e assimilado, portanto as mudanças completam o trabalho que a informação não pode finalizar.
Por isso se faz necessário a dança dos opostos.

Não se preocupe em ser um bom ou mal guia. Os falsos lideres se iludem com o título de pastor, o verdadeiro líder não apenas guia e protege suas ovelhas, ele é o proprio rebanho. Ele é o pastor e as ovelhas. Ele sabe que um não existe sem o outro.
Por isso há ciclos, para que todos experimentem o mundo sob diferentes pontos de vistas. Tanto pelo olhar da ovelha quanto pelo caminhar do pastor.

Já houve a época de ser conduzido, agora é a sua epoca de conduzir.

Vá e guie seu povo e faça o melhor que puder, lembre-se apenas que o caminho do líder é solitário. Ser um guia significa que o mundo irá procurar perfeição em cada ato seu, e basta o primeiro sinal que você é tão humano quanto eles para que toda confiança se desfaça e a primeira pedra seja lançada. Mas tenha confiança no seu trabalho e em seu coração e os frutos virão através daqueles que realmente compreedam suas palavras.

Siga em paz, Moisés.¨

E conta a lenda que Moisés então viu uma grande bola de luz surgir no horizonte, e diante de tanta beleza, ele se ajoelhou e rezou ao senhor agradecendo pela oportunidade de ser um veiculo do seu amor.

- Olha o sol!!! Gritavam todos, á medida que o astro rei surgia no horizonte, iluminando as montanhas do deserto e nossas faces. Muitas pessoas rezavam, outras cantavam, e outras tantos batiam fotos, eu apenas chorava com tamanha beleza. Minha mulher olhava para mim e também estava profundamente emocionada.

Tinha valido apenas o esforço. A beleza da aurora no Sinai era tudo o que nos disseram, e ficamos ali em cima da pedra observando o sol subindo pelo céu nos convidando para um novo dia, ou melhor, para a descida.

Procurei por Moisés, mas não o ví novamente. Não sei se Deus quando virou sol deixou ao seu lado a tábua dos dez mandamentos, ou se o velhinho era um bom escultor, tudo que sei é que conheci um pouquinho de sua energia ali no Sinai.

Não sei o que ocorreu dali em diante, e o que o cara precisou fazer para manter toda aquela galera unida, mas acredito que ele fez o melhor que pôde. Nada mal para um cara que viveu a mais de dois mil anos. Acho que ali, nasceu também as tábuas da primeira constituição e as sementes da política.

Dentro do ônibus, Auri percebeu meu olha perdido nas montanhas e perguntou :

- Então, você realmente acredita que Moisés esteve por aqui ?

- Pode ser que não, Auri. Talvez o Moisés da Biblia nunca tenha existido, mas o Moisés humano, que abriu o mar da ignorância do povo judeu daquela epoca está em cada pedra nas montanhas e em cada grão de areia desse deserto. E com tanto babaca que fez história, é legal saber que pode ter existido um homem que liderou um povo através de ensinamentos de respeito e consideração ao próximo. Talvez seja essa a lição mais importante que precisamos aprender com o Sinai e com Moisés.



15 de agosto de 2002
Frank

Um comentário:

Júnior disse...

Muito bom.
Fiz uma viagem incrível...

Abraços!

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