quinta-feira, julho 08, 2010

Bruno e o futebol como retrato social

Por: Raphael Bruno

O futebol é uma manifestação social e, como tal, reflete mazelas e contradições do cotidiano brasileiro

O caso do goleiro Bruno, independentemente do nível de responsabilidade do atleta no suposto desaparecimento de sua ex-amante Eliza Samudio, despertou preocupação naqueles atentos à maneira como os jogadores de futebol podem se tornar, para milhares de jovens brasileiros, modelos de sucesso e carreira. Assim como, em ocasiões anteriores, ocorreu com as evidências de conexões entre os atacantes Adriano e Vagner Love e traficantes cariocas.

Ídolos de torcidas apaixonadas, perseguidos por mulheres belas e famosas e donos de salários estratosféricos que desafiam a realidade do mercado de trabalho nacional, os jogadores são vistos, muitas vezes, como representantes de um ápice profissional ao qual praticamente todo jovem que sonha ou sonhou viver do futebol aspira. O desequilíbrio de parte dos profissionais da bola, a maior parte oriunda das camadas sociais de menor poder aquisitivo, para lidar com a fama e o enriquecimento rápido revela não apenas falhas na capacidade de formação de atletas dos clubes brasileiros, mas aspectos problemáticos da cultura de uma sociedade incapaz de oferecer a seus jovens civilidade, educação e oportunidades do tamanho dos sonhos deles.

Os que repudiam a idealização midiática dos jogadores justamente por causa dos padrões de comportamento erráticos de parte deles parecem não perceber, na maioria das vezes, que o fato retrata o reconhecimento, por parte dos jovens, da ausência de oportunidades para vislumbrarem outras carreiras socialmente valorizadas. Tal fenômeno não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, além dos atletas de futebol americano e basquete, os rappers são os responsáveis por embalar os sonhos de consumo desenfreado, orgias sexuais e comportamento de gângster de milhões de jovens das periferias norte-americanas.

A verdade é que o esporte - e, no caso brasileiro, principalmente o futebol - é uma manifestação social. Como tal, reflete, em menor ou maior medida, a depender das circustâncias, mazelas e contradições da sociedade na qual está inserido. A tendência é que casos envolvendo violência, corrupção, racismo e machismo continuem a acontecer enquanto esses e outros problemas ainda forem encontrados no cotidiano brasileiro como um todo. Isso não isenta, de maneira alguma, a responsabilidade individual de atletas e dirigentes ligados ao futebol. É apenas uma lembrança de que o papel e a tarefa que lhes cabem são muito mais complexos do que furar uma retranca bem montada ou parar um ataque habilidoso.


http://www.destakjornal.com.br/default.aspx?cid=1#

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