sexta-feira, junho 04, 2010

O Livro em Branco

Por Thainá Rosa

Não há nada pior do que não ser nem o primeiro e nem o último em nada.

Todo mundo se lembra do vencedor e do perdedor, mas ninguém perde seu tempo analisando o mediano.

Com o Livro em branco não foi diferente, ele passou boa parte da sua existência em uma papelaria do centro da cidade, morando no meio de uma pilha de livros. Era uma época de desenvolvimento e as gráficas e editoras eram o foco de toda a atenção. Poucos eram os que ainda compravam essa espécie de livro, um exemplar feito para ser todo escrito à mão e que agora era visto como ultrapassado.

O livro em branco não entendia por que de uma hora para a outra todas as mãos da cidade ficaram preguiçosas e desanimadas. Para ele, modernização só poderia ser sinônimo de abandono.

Dias e dias passaram até que o primeiro da pilha foi levado embora.
Todos ficaram logo animados, imaginando quando o próximo iria sair. Esse era o sonho de todos: ser palco de uma grande história, ter suas folhas preenchidas por romances encharcados de lágrimas e sentimentos, ou quem sabe por alguma louca aventura, onde piratas malvados, com suas barbas trançadas, esconderiam o tesouro na última página.

O livro mediano tinha um orgulho enorme, afinal, não era o primeiro da lista, mas vinha antes do último e isso já era uma grande vantagem!Mais alguns exemplares e logo seria a sua vez.

Só não sabia que todos da pilha tinham um destino traçado.O primeiro, o segundo e o terceiro, logo foram levados.Os últimos, por suportarem sempre o peso de todo o resto da pilha, acabaram ficando muito amassados para serem vendidos e foram retirados do estoque.O mediano se viu empoeirado e triste, jogado nos fundos da prateleira mais escondida da papelaria. Acompanhado apenas do medo infinito de passar sua vida em branco.

Certo dia, uma garota catou o livro da prateleira e o colocou tão alto que ele sentiu até vertigem. Sacudiu o pobrezinho e gritou "Não tem um desse, só que menos velho e surrado não?" e o balconista desinteressado respondeu apenas "Não.". A garota observou o livro, passou suas mãos devagar pelas páginas já um pouco manchadas pelo tempo, suspirou um pouco desanimada até que decidiu! Ia ficar com o livro e dar um fim digno àquela criatura.

O Livro em branco nem acreditou quando foi carregado até o caixa, sentiu-se ainda mais honrado quando a garota fez questão de pagar o valor sem exigir desconto algum pelas marcas e manchas do livro.

A primeira coisa que sentiu quando chegou ao seu novo lar, foi a tinta da caneta de sua nova amiga, que molhava o papel devagar e formava na primeira página a frase: Era uma vez,um livro em branco...


Fonte: http://acartola.blogspot.com

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