sábado, junho 05, 2010

Entrevista com um Tuareg realizada por : Victor – M. Amela

A Moussa Ag Assarid

Não sei a minha idade .
Nasci no deserto do Saara sem documentos .
Nasci em um acampamento de nômades Tuareg entre Timbuctu e Gao , ao norte de Mali .
Fui pastor de camelos , cabras , cordeiros e vacas do meu pai . Hoje estudo gestão na Universidade de Montpellier .
Estou solteiro .
Defendo os pastores Tuareg .
Sou muçulmano , sem fanatismo .

- Que turbante , tão formoso .

- É uma fina tela de algodão : permite tapar o rosto no deserto , e continuar a ver e respirar através dele .

- É e um azul belíssimo !

- Nós os Tuaregs , somos chamados de homens azuis por isso ; o tecido solta alguma tinta e nossa pele adquire tons azulados .

- Como conseguem este tom de anil ?

- Com uma planta chamada índigo , mesclada com outros pigmentos naturais .
Para os Tuaregs o azul é a cor do mundo .

-Por que ?

- É a cor dominante . É a cor do céu , do teto da nossa casa .

- Quem são os Tuaregs ?

- Tuareg significa “ abandonados “ , por que somos um velho povo nômade do deserto , solitários e orgulhosos : “ Senhores do deserto “ , é como nos chamam . Nossa etnia é a amasigh ( bereber ) , e o nosso alfabeto , o tifinagh .

- Quantos são ?

- Uns três milhões , e a maioria permanece nômade . Mas a população diminuiu .
“ É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu “ : Apregoava um sábio . Eu luto para preservar este povo .

- A que se dedicam ?

- Pastoreamos rebanhos de cabras , camelos , cordeiros , vacas e asnos num reino de imensidão e silêncio.

- O deserto é realmente tão silencioso?

- Quando se está sozinho naquele silêncio , ouve-se o batimento do próprio coração . Não há lugar melhor para se estar sozinho .

- Quais recordações de sua infância você conserva com mais nitidez?

- Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai . Elas nos dão leite e carne , nós as levamos onde há água e pasto …
Assim fizeram meu bisavô , meu avô e meu pai…. e eu .
Não havia outra coisa no mundo além disso . E eu era muito feliz com isso .

- De fato ! Não parece muito estimulante …

- Mas é muito ! Aos 7 anos já te deixam afastar-se do acampamento para que aprendas coisas importantes : farejar o ar , escutar , apurar a vista , e as estrelas …
E a deixar-se levar pelo camelo , se você se perder . Ele e levará onde há água .

-Saber isso é valioso , sem dúvida …

- Ali tudo é simples e profundo .
Existem muito poucas coisas . E cada uma tem um enorme valor !

- Então esse mundo e aquele são muito diferentes ?

- Ali cada pequena coisa te proporciona felicidade . Cada toque é valorizado . Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos e estarmos juntos . Ali ninguém sonha com chegar a ser , por que cada um já o é .

- O que mais o chocou em sua primeira viagem á Europa ?

- Ver as pessoas correndo pelo aeroporto . No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia . Me assustei ! É claro !

-Eles iam apenas buscar suas malas …

- Sim ! Era isso . Também vi cartazes de mulheres nuas . Me perguntei : por que esta falta de respeito para com a mulher ?
Depois no Íbis Hotel , vi a primeira torneira da minha vida , vi a água correndo e senti vontade de chorar …

-Que abundância ! Que desperdício ! Não ?

-Todos os dias da minha vida consistiam-se em procurar água .
Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá , continuo sentindo por dentro uma dor tão intensa …

- Tanto assim ?

-Sim ! No começo dos anos 90 houve uma grande seca . Morreram animais e nós também adoecemos . Eu tinha uns 12 anos e minha mãe morreu .
Ela era tudo para mim !
Me contava histórias e ensinou-me a conta-las muito bem .
Ela me ensinou a ser eu mesmo .

- O que sucedeu com a sua família ?

- Convenci meu pai que me deixasse ir á escola .
Quase todo dia caminhava 15 km . Até que um dia o professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me dava o que comer , quando eu passava em frente á sua casa . Entendi que esta ajuda vinha da minha mãe .

- De onde surgiu este desejo de estudar?

- Uns dois anos antes havia passado pelo nosso acampamento o rally Paris- Dakar , e uma jornalista havia deixado cair um livro da sua mochila . Eu o apanhei e o entreguei . Ela me deu o mesmo de presente . Era um exemplar do pequeno Príncipe e eu me prometi que um dia consiguiria lê-lo .

- E conseguiu ?

_ Foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França .

-Um Tuareg na Universidade !

- Ah ! o que mais sinto falta aqui é o leite de camela … E o calor da fogueira , e de andar com os pés descalços na areia quente . Lá nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras como cada cabra é diferente . Aqui á noite , você olha para a TV.

- Sim ! E o que voce acha pior aqui ?

-Voces tem tudo , mas não acham suficiente . Vocês se queixam . Na França passam a vida reclamando ! Aprisionam-se pelo resto da vida á uma dívida bancária , num desejo de possuir tudo rápidamente …
No deserto não há congestionamentos e você sabe por que ?
Por que lá ninguém quer ultrapassar ninguém !

- Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante .

- Todo dia , duas horas antes do pôr-do-sol : a temperatura abaixa , mas ainda não chegou o frio , e os homens e os animais , lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor-de-rosa , azul , vermelho , amarelo , verde …

- Fascinante , na verdade …

- É um momento mágico . Entramos todos na cabana e colocamos o chá para ferver .
Sentamo-nos em silêncio a ouvir a ebulição …
A calma invade todos nós e o nosso coração bate no ritmo da fervura …

- Que paz !

AQUI VOCES TEM RELÓGIO , LÁ NÓS TEMOS TEMPO !!!

2 comentários:

Tarissa Giselle disse...

Este post é maravilhoso, demonstra claramente como reclamamos de mãos cheias e o quanto não prestamos atenção nas coisas e pessoas a nosso redor.

Velzi Moreschi disse...

Eu conheci os Tuaregs em 1962, aos noves anos,os homens azuis do deserto que se alimentavam de gafanhotos, um prato nobre, mas não comiam as pernas por serem indigestas...
Creio q foi neste momento que tomei cosnciência do meu amor pelo deserto e do meu espírito Tuareg, ler essa mátéria me transportou ao estado silêncioso e meditativo que só é alcançado quando se está só sobre uma duna em pleno deserto, Obrigada! " O homem da cidade vive e morre de mãos vazias e sem paz, com o coração infeliz e temeroso" Velzi Moreschi

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