sábado, maio 29, 2010

Lua Mãe

Por Diógenes Mira

Estamos reunidos aqui hoje, assim como fizeram muitos de nossos ancestrais, sob o olhar prateado da Grande Lua, cheia e plenamente iluminada. Gostaríamos de trazer à reflexão as múltiplas simbologias que a Lua guarda em si.

Nossos ancestrais se orientavam pelos astros, e a Lua invariavelmente é correlata ao grande astro rei, o Sol. As duas características mais marcantes da grande Avó são: a ausência de luz própria, que acaba por fazer da Lua um grande espelho a refletir a Luz do astro rei. A outra é sua jornada, que revela transformações na forma como nós a vemos, chamadas de fases da Lua.

Simboliza a Lua o principio feminino assim como o ritmo e a renovação, a transformação e o crescimento. Ela representa o eterno retorno: a vemos crescer e se desenvolver, decrescer e desaparecer, voltando a reaparecer em seu contínuo ciclo. É considerada o astro que rege os movimentos e os ritmos da vida, controladora dos elementos, água, chuva, vegetação, fertilidade assim por diante.

A lua representa o “morto”, ela desaparece do céu durante três dias em cada mês, para então ressuscitar no firmamento, crescendo em majestosa luminescência. Por representar esta passagem da vida à morte e da morte à vida, a lua está ligada a inúmeras deidades que são ao mesmo tempo fecundas e fúnebres.

Por não possuir luz própria, sendo o espelho do Sol, a Lua é considerada como símbolo do conhecimento indireto, ou seja, o conhecimento por reflexo, a memória, o estudo racional, teórico, por tal motivo associada à coruja.

Em tradições hinduístas, no entanto, ela representa a mente do sábio, que reflete a luz maior do Sol espiritual nascido do contato direto com a realidade divina.

Em relação ao Sol que traz o fogo e o calor, ela é a água e o frio, o norte e o inverno simbólicos opostos ao sul e ao verão. Assim ela é a mãe de todas as mães, entre os xamãs é chamada de grande Avó, fonte de fecundidade, ligada às águas primordiais, à mater. Recordamos a figura mitológica de Maria coroada de estrelas e pisando a lua.

Ela é a taça que contém o néctar da imortalidade, por isso também é chamada de soma. Os chineses vêem na superfície da Lua a lebre que está a moer os ingredientes que dão origem ao sumo da vida longa, e este elixir se derrama como o orvalho noturno. No extremo oposto vê-se na superfície da lua São Jorge em sua peleja contra o dragão, batalha revelada pela luz do Sol indicando a vitória da santidade, da verdade.

A força da imaginação dos primitivos revelou diferentes imagens nas manchas da Lua: lebre, urso, raposa, cachorro, lobo. Algumas tradições observaram uma face desenhada na Lua, e numa tradição inca, as manchas seriam feitas de poeira que o Sol teria lançado contra a Lua por ciúmes, para obscurecê-la por julgá-la mais brilhante do que ele próprio.

No hinduísmo a esfera da lua é a via dos ancestrais (priti-yana), e veremos uma lua crescente na cabeça de Shiva, o grande transformador. Os ancestrais tântricos foram relacionados a um antigo ritual lunar.

Entre os astecas a Lua é ligada a divindades da embriaguez, por causa dos bêbados que adormecem e nada recordam ao outro dia, da mesma maneira que ela ao transitar por suas fases não deixa rastros; e também por estar associada aos banquetes das colheitas, onde aconteciam às grandes celebrações de fertilidade.

Todas as civilizações agrárias realizaram rituais de fertilidade, em geral sociedades ligadas ao culto da Deusa. Não é de se estranhar que em sociedades patriarcais a Lua venha ter um significado absolutamente oposto.

É também a padroeira da tecelagem, e o animal associado a esta sua face simbólica é a aranha. É a Lua a tecelã da vida. Desenvolveu-se seu culto, ora como uma divindade feminina dissociada do Sol, ora como o Deus das mulheres, sendo o Sol o Deus dos homens. Também como esposa do Sol e parindo as estrelas; ela já se configurou como a esposa incestuosa do seu irmão o Sol, e este mito está ainda presente, por exemplo, entre os incas, que transitaram entre todas estas representações do satélite lunar.

A Lua é considerada patrona dos partos, o que trouxe a lenda de que os partos acontecem em sua maioria nas luas cheia e nova. Esta suposição, no entanto, foi estudada em pesquisas e por fim desmistificada.

É importante salientar que não é unanime a associação da Lua com uma deidade feminina, em muitos povos ela é representada como um Deus masculino. Este é o caso dos índios Gês aqui no Brasil e da mesma forma entre o mundo semítico árabe: a Lua é de sexo masculino e o Sol feminino, já que para estes povos nômades, a noite é que é ativa, ou seja, apropriada para caravanas e viagens. Porém, esta representação masculina da lua é presente em povos não nômades também.

O povo judeu é representado pela Lua, e seu calendário é lunar, justamente por sua característica nômade. Adão foi expulso e vagueou, Caim matou Abel e saiu perambulando pelo mundo, Moisés e o povo saem do Egito em situação nômade, Abraão recebe a ordem de Deus para abandonar sua casa e país, a divina família refugia-se em Belém e posteriormente no Egito.

Psicologicamente a Lua representa o principio passivo, mas fecundo: é o subconsciente e, em sua fase obscura, o inconsciente, o reinado dos sonhos, da imaginação, o psiquismo, a sensibilidade, a fantasia, ou seja, tudo aquilo que é mutante, transitório e também influenciável. Não é por acaso que, quando alguém apresenta estas características de forma exacerbada, é dito que “vive no mundo da Lua”.

Os budistas acreditam que Buda teria meditado 28 dias debaixo da figueira, ou seja, um mês lunar completo, atingindo o Nirvana numa lua cheia de maio (wesak).

Podemos entender estas transições da lua em sua jornada de autoconhecimento até o desfecho final como as variadas encarnações até a manifestação máxima da luminosidade interna, penso que não apenas em muitas vidas, mas nas muitas vidas presentes numa única vida, as mutações que acompanham o devoto. A lua cheia é a face voltada completamente para o Sol, é a personalidade devotada ao espírito, à verdade, a luz.

A personalidade é considerada lunar e transitória, o Sol do espírito, por outro lado, não sofre alterações, permanente em seu fulgor.

Esta simbologia não faz da Lua simbólica, menor, é antes a casa dos mistérios, a tenda dos místicos, o farol dos peregrinos noturnos. É ela quem clareia as matas e bosques escuros quando cheia, é a sensibilidade do Ser, entregue ao perfumado e silencioso jardim secreto de sua alma feminina, o jardim das flores noturnas, do encantamento das músicas de amor e prazer, do voltar-se para si.

É a embriaguez dos sentidos, do instinto e o transe da alma vagabunda, da alma boemia, da alma sonhadora, da alma aventureira, da alma apaixonada vagueando em busca do amado.

O arcano 17 do Tarô é a Estrela, representada por uma mulher jovem e nua. Ela é a condutora, a guia, aquela que norteia, que orienta, que revela o caminho. A Lua é o arcano 18, representado pela imagem da lua que puxa para si gotas saídas da terra, o que me remete diretamente à subida da energia telúrica em nós, Kundalini. Algumas imagens apresentam logo abaixo da lua dois cães, um avermelhado e outro azul, ou um negro e outro branco e atrás deles duas torres, o que também me remete a Ida e Pingala, os canais sutis por onde sobem as águas sexuais. Atrás das torres um bosque, a natureza: é a travessia da sombria floresta interna. Abaixo de tudo um tanque com as águas primordiais e um caranguejo, aquele que anda para trás, que se volta para a ancestralidade, para o caminho dos antigos, dos iluminados. A Lua é aquela que reflete a luz, iluminando o caminho até a máxima realização do espírito o Sol, o arcano 19. Este arcano é representado pelo Sol iluminado no alto e agora as gotas que subiam na lua, estão descendo como uma chuva dourada, banhando duas crianças gêmeas. Algumas cartas apresentam um casal adolescente, representando a união perfeita dos aspectos racionais e emocionais. São os filhos da luz celebrando as bodas dos pensamentos e sentimentos, da união perfeita do princípio masculino e feminino.

É uma trajetória marcada pela transformação, pelo rompimento, lembrando que o arcano 16 é a torre fulminada: algo precisa ser destruído para que se possa nascer o novo. A Lua cheia é a plenitude, o poder de realização, o fim de projeto idealizado, o cumprimento da jornada. A Lua cheia é celebrada em variadas tradições espirituais e sua revelação máxima é o símbolo da luz manifesta. Durante o ano são três importantes festivais de Lua cheia:

- Festival da Páscoa (Recebe a luz): Lua Cheia de Áries
- Festival do Wesak (Assimila a Luz): Lua Cheia de Touro
- Festival da Humanidade (Distribui a Luz): Lua Cheia de Gêmeos

Tantas informações a mais foram lamentavelmente deixadas de lado neste pequeno comentário sobre a Lua. A grande Avó tem inumeráveis simbolismos com significados contraditórios dentro de uma mesma cultura. Encerramos aqui trazendo a importância de se encontrar a lua cheia de nossa disponibilidade interna para nos fazer inteiros, voltados completamente para nosso Sol central, para nosso verdadeiro Ser.

Conscientes das mutações internas pelas quais passamos, mas nunca esquecendo que por mais sombria que seja à noite em que nos encontremos, é a mesma obscuridade que revela o brilho dos astros noturnos, e que ao fim de uma longa jornada, a estrela matutina, a estrela da manhã, anunciará o despontar de uma nova aurora, de um novo renascimento.

Que possamos acolher com carinho e zelo as mutações da personalidade sabendo que o Sol do EU SOU em nós é imutável irradiação de Amor! O Sol nasce para todos, e ninguém pode impedi-lo de nascer.

Que as bênçãos de Todos os Budas orvalhem a terra e os que nela vivem!

Que todos os seres sejam felizes!

Vida Plena!

Vajrananda (Diógenes Mira)
Revisão: Mohiní (Adriana Valverde)

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