sábado, maio 22, 2010

A hora e a vez de Zé Brasileiro

Enfim, chegou a hora e a vez de Zé Brasileiro. O Brasil vai bem, o comércio vai bem, a Copa do Mundo vem aí e, quem diria, também as Olimpíadas. O curioso é que este Zé Brasileiro, à semelhança do seu congênere Carioca, criou-se no exterior. Mas, ao contrário do Carioca imaginado pelas distorções coloniais dos criadores da Disneylândia, o nosso Zé forjou-se pelo suor e pelo sangue do trabalho migrante. "Zé Brasileiro, à semelhança do seu congênere Carioca, criou-se no exterior"
(foto: Reprodução)

Enquanto o Zé Carioca do imaginário hollywoodiano constituía-se no eterno malandro, avesso a qualquer trampo, o Zé Brasileiro da nossa realidade nunca recusou trabalho, por mais pesado, sujo e perigoso que fosse. Ele forjou-se no trabalho e pelo trabalho.

Zé Brasileiro tinha medo de retornar. Sua terra parecia-lhe muito distante, esquecida pela mídia internacional. Só lembrada pelo futebol, carnaval e violências.

De repente, seu país começou a ficar mais próximo. Pela TV. A mídia internacional lembrou-se que o Brasil é imenso território de recursos: petróleo, minérios, álcool, soja, boi gordo, frango, café. Além de duzentos milhões de brasileiros com alta disposição ao consumo. O Brasil transformou-se, no noticiário internacional, em um grande mercado. O país dos investimentos.

E Zé Brasileiro que não pensava no retorno, começou a avaliar se o estresse do trabalho pesado, sujo e perigoso compensava o poder de consumo que adquirira no exterior. Mas não se animava a dar uma direção ao próprio destino. Uma crise globalizada foi necessária para que tomasse o rumo de casa.

Contudo, ao chegar ao seu país, Zé Brasileiro depara-se com o seu congênere nacional forjado na própria terra. Assustado, não consegue ver nesse outro seu próprio semblante. Esperava ser Alguém. Foi transformado em Zé Ninguém das linhas de produção. Esperava, no seu retorno, também ser reconhecido como Alguém. Mas, ele mesmo não se reconhece nesse novo país que é a sua pátria.

Zé Brasileiro não consegue mais se aceitar como Zé Brasileiro. Daí, também não pode aceitar o Zé do Brasil que encontra pelas ruas de sua cidade. Fica escandalizado quando que o seu congênere nacional joga copos de plásticos nas ruas. Indigna-se quando o vê atravessando as ruas fora das passagens destinadas aos pedestres. Sente-se ofendido pelo ar de indiferença dos vendedores de lojas, dos shoppings ou das ruas.

Zé, então, começa a se isolar. Mas o isolamento só lhe aumenta a angústia do não reconhecimento. Fica agitado. Ou fica paralisado. Seus familiares também são tomados pela angústia desse isolamento. Angústia gerando angústia, o ambiente torna-se insuportável.

O que você vai fazer? Vai ficar? Vai trabalhar? Vai estudar? Para onde vai? Zé não sabe responder. Gostaria de ficar ali, quietinho, sem ser incomodado. Mas o incômodo maior vem de dentro. De suas próprias angústias.

Zé começa a pensar que teria sido melhor não ter voltado. Começa a pensar novamente em voltar. Paradoxalmente, voltar para fora. Do seu país. Zé passa a ficar sempre voltando. Sua trajetória é repleta de voltas. Tenta sempre voltar sem perceber os riscos do retorno ao inanimado.



Sobre o autor:
Taeco Toma Carignato é psicóloga psicanalista e jornalista. Doutora em psicologia social (PUC-SP) e pós-doutora em psicologia clínica (USP), é pesquisadora do Laboratório Psicanálise e Sociedade (USP) e do Núcleo de Pesquisa: Violência e Sujeito (PUC-SP).
Fale com Taeco Toma Carignato: taecotoma@terra.com.br

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4173327-EI14363,00-A+hora+e+a+vez+de+Ze+Brasileiro.html

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