sábado, abril 24, 2010

Vira-latas

Por Fábio Santos
Publicado no jornal Destak

A cena se passa num ônibus em São Paulo. Com esforço, ajudada por alguns passageiros, a mulher consegue entrar no veículo com uma enorme e, pelo visto, pesada mala. Ouço um "obrigada" com sotaque estrangeiro. A mulher se dirige ao cobrador dizendo "porrr favorrrr" e algumas palavras em inglês.

O sujeito abana as mãos. Ela gesticula, aponta para a mala e para a saída. Nada. Ofereço-me para ajudá-la. "Do you speak English?", pergunta. "Yes". Ela me pede que explique o que me parecia óbvio: que pagaria a passagem, mas não passaria pela catraca. "Obrigada", diz ela de novo.

Ela se vai e o cobrador puxa papo. "Ainda bem que o senhor estava aí", diz. Sorrio e continuo minha leitura. "Esse pessoal vem lá de fora e não aprende a nossa língua", emenda ele, com desagrado. "Talvez ela esteja aqui para aprendê-la", respondo, querendo voltar ao meu livro.

O cobrador não se dá por convencido e continua: "Nós não somos mais coitadinhos, o Brasil agora é importante. Eles deviam aprender português", diz, para emendar um discurso sobre a nova posição do país no mundo. Minha parada chega e o sujeito ainda segue dizendo que agora ninguém mais deve ter "complexo de vira-lata" diante de gringos.

Fui trabalhar pensando no episódio. Pareceu-me apenas mais um caso de mau humor, comum em quem têm de trabalhar longas horas num trânsito infernal, lidando com um público nem sempre gentil. Depois, pensei: "Mas por que exigir que estrangeiros tenham domínio da língua de um determinado lugar para que eles possam visitá-los? Por que não saber português seria sinal de desprezo com o Brasil?" Não sei, mas acho que pensar assim é um sinal do tal "complexo de vira-lata" rejeitado pelo meu interlocutor.

Sim, o Brasil tem ganhado relevância no cenário internacional. Mas outros países, como Índia e África do Sul, também. Isso tem mais a ver com uma transformação do nosso país ou do cenário global? Pelo que sei, o Brasil continua sendo um lugar em que, num único dia, mais de 200 pessoas morrem num soterramento porque suas casas estavam construídas sobre um aterro sanitário ou em que o sistema de saneamento básico é comparável, segundo a ONU, ao dos territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia. E mesmo que o Brasil venha a ser o que ainda não é não creio que o português vá um dia se tornar uma língua global. Nem é preciso que seja.

(Fábio Santos*
Diretor editorial (fsantos@destakjornal.com.br))
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