quinta-feira, abril 08, 2010

Pés Descalços Para Aprender

Lava Pés

Por Diógenes Mira

Qual o sentido do “aprender”? Esta é uma boa pergunta, e quem pergunta quer aprender.

A palavra “aprender” tem origens etimológicas vastas, ligada a outra palavra que é o “compreender”, estudando o sentido original das palavras chegamos a uma nova dimensão do signo, e isto é valioso, pois produz emancipação interior.

A criança absorve os símbolos passados pelos adultos, e em algum momento estes símbolos deverão ser reavaliados, normalmente na adolescência, quando então questionamos a “leitura” do mundo de nossos pais e buscamos a re-significação não apenas do mundo, mas de si mesmo.

A palavra ‘adolescência’ tem sua origem no Latim “ad” (‘para’) + “olescere” (‘crescer’); portanto ‘adolescência’ significaria: crescer para, ou seja, desenvolver-se para o que a vida trará, é necessário manter esta disposição interna de aprendizado, de se estar pronto, mas não finalizado.

Manter-se virgem, renovado, e isto é parte integrante do aprender. Adolescência também deriva de adolescer, origem da palavra adoecer, este é o característico turbilhão de transformações biológicas e emocionais, é adoecer do coração, e o enfermo busca a cura, mas uma importante faceta do aprender é não estar satisfeito, acomodado, mumificado, aprendizado é desafio continuo.

Compreender significa amarrar, abranger, prender, é algo que fica comigo, que não pode ser perdido. Mas há uma segunda opção para a origem da palavra, significando conceber, engravidar, logo eu compreendo, eu gesto.

Esta é uma imagem belíssima de se estar prenhe de luz! Grávida de sabedoria!
A palavra engravidar vem de gravis, “pesado”, “cheio”, e isto também é o significado etimológico para a palavra Guru, ele esta pesado, pleno de sabedoria e conhecimento espiritual, e quando penso na “barriguinha de guru”, penso na formosa imagem do ventre prenhe de uma nova vida, não apenas a gestação da criança, mas a gestação de uma nova maneira de ser e viver.

A palavra aprender é irmã das palavras, presa, prisão, prender. A=não, prender; o aprender é a capacidade de se estar relaxado diante do ensinamento. É o estado de absoluta entrega e abertura. Se estou tenso, como posso estar sensível, com os punhos cerrados e os braços cruzados, nada posso receber. È preciso abrir-se, florescer.

Este é um principio espiritual básico na experiência de meditação e contemplação interior, o corpo deve estar estabilizado, firme, mas perfeitamente relaxado, aberto. Gosto de brincar com a palavra despertar e desapertar, entendo que o despertar espiritual é um desapertar físico e mental. Contraídos nossos músculos estão nos deixando num estado de tensão, de “cuidado perigo próximo”, prontos para atacar, fugir ou defender-se.

O alerta é sinal de que existe perigo, mas também há o estado de alerta relaxado, passivo, uma vigilância amorosa de si mesmo, atenção plena e descontraída. Recordarmos do sorriso de Buddha, absolutamente alerta, atento, sensível, mas profundamente descontraído e relaxado. Não como um vigia de guerra, mas como uma criança interessada, viva!

O aprendizado é o conciliar da atenção com a descontração, o masculino e o feminino. Esta alquimia interior me leva diretamente a uma imagem simbólica poderosa, a da divina concepção. Se compreensão é um estado de gravidez, podemos relacionar a paternidade com o método de ensino e o professor, aquele que doa a palavra, que professa algo, se estou grávida, um “outro” me engravidou, no entanto na divina concepção, o evangelho relata que a virgem Maria não “conheceu” homem algum, manter relações sexuais é ser conhecido, este é o sentido bíblico, e por isto o pecado original foi interpretado como algo sexual, já que o fruto proibido esta na arvore do conhecimento. Porém Maria esta plena e prenhe de conhecimento que não veio de um outro, mas do espírito santo, ou seja de si, da própria respiração, da inspiração divina.

Maria é o coração intuitivo, é a passividade do intelecto, representado por José, que pouco participa de toda historia, Maria é o “sim” do coração virgem para o anjo, o mensageiro do ar, a inspiração. Aprender é ser virgem, é dar a luz, e voltar a virgindade, a origem.

Mais tarde leremos no evangelho como o Cristo chama-se a si mesmo de “o filho do homem”, ou seja, filho de si, concebido, gestado e parido em seu próprio interior.
O aprender é um renascimento, é a renovação continua de nosso ser, e não é necessário buscar uma paternidade externa, ainda que o compartilhar seja o solo fértil onde o aprender acontece. O apontamento esta nas relações de poder, onde um esta sentado e o outro em pé professa e inibe o primeiro. A velha formula controle, controlador e controlado.

É necessário que a relação do aprendizado coloque a todos no mesmo nível, na mesma altura. Isto serve para nosso modelo de educação escolar, e para a verdadeira vivencia da unidade em nossa via espiritual. O tratar em igualdade é o reconhecimento natural da presença divina em todos, em tudo (aprender com as pessoas e com as situações diárias). Saber que ninguém é tão sábio que nada mais tenha a aprender, nem tão ignorante que nada possa ensinar.

Ensinar é assinalar, dar sinal, por signo, significar, logo há o partilhar daquilo que nos sinaliza o viver, com os demais,a troca de valores e significados, mas principalmente um auto-ensino, a procura do significado de cada atividade, de cada sentimento, de cada motivação interna; E isto vem através de auto conhecimento, e para que aconteça é necessário disposição para estudar-se. Nossa vida, e nossas respostas ao viver, são a grande cartilha, o B a Ba do Ser.

Apenas um mergulho profundo em observação de si na meditação e uma vida levada com consciência e atenção, podem produzir verdadeiro aprendizado, isto significa ser discípulo da própria atenção, de si mesmo. Importante assinalar, esta observação para que possa produzir frutos verdadeiros de sabedoria, precisa de uma qualidade indispensável, o despojar-se dos significados plantados antes, ou seja, liberdade do juiz interior. Se existir algum tipo de julgamento, algum tipo de bem e mal em conflito, o conflito produzira a tensão e o recalque, e onde existir “prender”, não existirá “aprender”.

Se eu me vejo a mim mesmo a partir de óculos emprestados, de pontos de vistas admitidos como meus, não poderei me ver de fato, estarei vendo a partir do olhar do outro, não sou “filho do homem”, filho de si, e sim imitação de um outrem.

Se o meu caminhar é a reprodução exata do caminhar de outra pessoa, então nada sei sobre meu verdadeiro ritmo e minha maneira única de seguir viagem. Os meus pés estão feridos e sujos, no livro do êxodo temos o momento em que Moisés sobe a montanha sagrada de Horeb, e vê uma sarça ardente que queima e não se consome, curioso ele quer se aproximar para averiguar, quando do meio da sarça fez-se ouvir uma voz chamando-o pelo nome e dando a orientação que se segue:

“Não se aproxime, Tire as sandálias dos pés, porque o lugar onde você esta pisando é um lugar sagrado.”

Para que possamos adentrar o lugar sagrado, o coração, no alto da montanha de nosso Ser é preciso remover as sandálias, há que se despojar do conhecido, dos significados adquiridos, os pés devem estar descalços, e quando pensamos sobre os pés descalços, imediatamente associamos com simplicidade, humildade, contato com a natureza, com a Terra. Ter as plantas dos pés na Terra é estar enraizado, encarnado. Encontramos nossas raízes, nossa origem como matéria nua, desprovida de moral e de ajuste social.


A contemplação interna exige este despojo, esta liberdade para ver-se a si mesmo sem medo e sem receio do que vai se descobrir. Então fazemos do nosso lugar no mundo, um lugar sagrado, pois agora ele tem significado real, foi descortinada a nossa verdadeira natureza, este encarar-se no espelho da consciência nos devolveu a face original.

Se carregamos para a meditação a experiência espiritual de um outro, estaremos sempre nos comparando e no fundo querendo “ser o outro”, é um desejo de não-ser para tentar ser um “alguém”. O recurso que nos mantém presos é a palavra, é necessário que encontremos a nossa palavra perdida, o nosso nome, e isto ninguém poderá fazer por mim, terei eu mesmo que abandonar o que li sobre a vida, Deus, verdade, paz, felicidade, justiça, amor, e descobrir por mim mesmo, o significado de tudo isto em mim.

Mais tarde poderei encontrar outros recursos que serão importantes para alguma comunicação, mas agora não será simplesmente um discurso proferido a partir de uma informação registrada na memória, mas a experiência viva e pulsante do Ser revelado no silencio interior.

No Evangelho encontra-se um relato emocionante , quando o mestre em casa de um fariseu, sentado a mesa para a refeição é visitado por uma mulher considerada pecadora, que prostrou-se aos pés de Iehoshua(Jesus) e pôs-se a lavar-lhe os pés com suas lagrimas, enxugando-os com seus cabelos, beijando-lhe e ungindo-os com bálsamo. O ato da mulher pecadora emocionou o Mestre e horrorizou o fariseu.

O Mestre responde ao fariseu com uma parábola e encerra dizendo sobre a mulher:

“Muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas ao que pouco se perdoa, é porque pouco ama...”

A palavra fariseu significa separado, é o estado de isolamento, que se faz necessário para manter uma certa aparência, uma imagem que lhe bem posiciona na sociedade. O Mestre recebe a visita desta mulher que é considerada pecadora, recordando que pecado significa errar o alvo, o alvo é sempre o amor, e ali lavando-lhe os pés ela se posiciona como alguém que esta disponível para servir e amar. O alvo foi acertado, todos os erros foram perdoados.

Ela reconhece a dimensão do homem no santo, pois os pés são o local do prazer em nosso corpo, massagear os pés pode ser o sinal de interesse amoroso entre duas pessoas, e ali ajoelhada, a mulher reconhecia que aqueles pés muito haviam caminhado, e que necessitavam do amoroso cuidado, reconhecendo que aqueles são pés santos, santificados pela própria jornada, sem esquecer-se da dimensão humana do Mestre, devotando-lhe prazer também.

O fariseu dentro de nós pode estar horrorizado com o coração que põem-se a chorar diante do amor, nossa preocupação com a imagem pode convidar o amor e o saber para a ceia, no entanto evita intimidade, para proteger-se, para resguardar os valores de outros, continuamos com as sandálias nos pés empoeirados por caminhos tortuosos de uso e egoísmo.

Antes deste episodio não se conhecia esta pratica, ouviu-se falar de João batista que mergulhava o povo no rio Jordão, e mesmo o Cristo vinha trazendo um batismo espiritual, de fogo e espirito, agora uma mulher veio se prostrar e lavar os pés, ela veio ensinar, e o Mestre só poderia ser mestre, estando aberto a aprender.

Voltaremos a ver esta cena magnânima agora com o messias lavando os pés de seus discípulos, a grandiosidade deste homem esta na sua aceitação do feminino em si, horizontalidade de abertura e sensibilidade, verticalidade de ética e atenção vigilante. Ele é a cruz, o cruzamento do masculino e do feminino integrado no SER.

O texto indica que ele depôs o manto, diria, que despiu o tórax, peito aberto, coração disponível, e pôs-se a lavar os pés dos discípulos, Simão Pedro quer manter aquela relação primeira, do outro, do superior,retrucando:

“Jamais me lavarás os pés!”
Responde-lhe o Mestre:
“se eu não te lavar, não terás parte comigo”
Então Pedro oferece-lhe não apenas os pés, mas as mãos e a cabeça.
Respondeu-lhe o Messias:
“quem tomou banho, não precisa lavar senão os pés, para ser todo limpo; e vós estais limpos...”

O Ser verdadeiro, original, é limpo, é imaculado, a poeira instalada nos nossos pés, nos caminhos tortuosos que trilhamos é que nos fazem esquecer quem somos; lavar os pés é purificar nosso intelecto dos conceitos dualistas, é remover as manchas (magoas) de nossas experiências emocionais, é recuperar a capacidade de sentir prazer, e aceitar nossa dimensão humana e divina. É colocar-se em “pé de igualdade”, peito com peito, olhos nos olhos, é o reinado da amizade, da unidade, como o Cristo vai dizer após este momento de beleza e emoção:

“já não os chamo de servos, pois o servo não sabe o que faz seu patrão, chamo-lhes amigos.”

Descer do salto é ter humildade, ter humildade é reconhecer-se como húmus, como parte da Terra, reconhecer-se como parte integrante da Terra é experimentar a unidade, experimentar a unidade é o resultado do aprender, é deixar-se solto, livre, descontraído.

Nirvana traduz-se como não-grilhão, nenhuma amarra, nenhuma rigidez Desperta alma amada, desaperta e vive a bem-aventurança do Amor.

Recebas o ósculo santo em teus pés!

Vida Plena!

Vajrananda (Diógenes Mira)

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