segunda-feira, abril 19, 2010

O REBELDE, O INVEJOSO E O FUJÃO

Para um garoto que cresceu sem chocolate, desejar o inusitado, foi uma forma que encontrei para evitar a comparação, que planta as sementes da inveja bem fundo no coração da gente-menino. Eu não pensava nos brinquedos que anunciavam na TV, não desejava as mesmas coisas que meus amigos na escola queriam, pois sabia, que nunca as conseguiria. De alguma forma, com essa atitude, aprendi a fugir da decepção e tentei viver bem com o pouco que eu tinha. E dediquei-me a conseguir aquilo que eu não precisava ter dinheiro para conseguir: o conhecimento. Lia tudo o que me cabia na mão, vivia na biblioteca da minha escola, curiava as notícias dos jornais, assistia sem compreender o que ocorria no mundo nos programas de TV.

Talvez tenha sido por isso que, depois de adulto, nunca desejei muito, sempre vivi bem com pouco. Sempre coloquei o conhecimento como meu maior objetivo, todo o resto: carro, casa, investimento, roupas e tênis de marca, não tinham apelo para mim, nunca teve, nunca teriam, até o dia em que veio a família.

Só casei porque minha esposa me prometeu que não tentaria mudar o meu "eu". Porém, logo percebi, que apesar das coisas que ela faria para sempre por mim, havia nela, um desejo de construir uma família dentro da segurança de uma propriedade, ter a estabilidade de um investimento ou poupança que pudesse garantir o que há no porvir.
Em nome da família, mudei! Comecei a pensar em coisas que até então não queria nem pensar: casas, mobílias, automóvel e toda série de coisas para comprar e ter. E isso, inicialmente, acordou em mim, uma face rebelde, que através do boicote, passou a minar qualquer construção de uma vida baseada nessas coisas. E isso ocorreu, de uma maneira inconsciente, provocando pequenos incidentes, para que não conseguissemos como casal, todas as coisas que minha esposa achava ser essencial para construir um lar.

Ela nunca notou, nem eu, o culpado que causava o motivo pelo qual não conseguíamos montar uma casa ou ter algo. O rebelde atuou até esses dias, quando tivemos uma conversa, e o rebelde apareceu acusando-a de querer mudar a minha essência. Estranhas são as coisas e os eus que aparecem durante uma simples conversa.

Depois de trancar o culpado, dentro do meu inconsciente novamente; passei a desejar cumprir as minhas obrigações como marido e passei a procurar tudo aquilo que pudesse servir como símbolo de uma união normal e, nesse busca, surgiu uma outra face que nunca achei que fazia parte de mim: o invejoso!

Eu queria uma casa como aquela, um carro como aquele; se aquele sujeito poderia ter aquela mansão, por que eu não? Pouco a pouco, comecei a pensar somente em coisas materiais, e assustei-me com a inveja que começou a surgir, provocada pelas coisas que os outros tinham e eu tinha que ter.

Aquilo passou a me incomodar cada vez mais até o ponto em que percebi que as muralhas que o menino que eu fui construiu lá atrás, estavam caindo; e aparecia todos os sentimentos daninhos que a vida inteira eu combati e escondi nas revoltas por ter nascido tão sem condições de ter o que desejava; então percebi que eu tinha duas escolhas: ou voltava a ser quem eu era e perdia a família - afinal qual mulher ficaria com um cara que só pensa em aprender e não a ter - ou me anulava para manter o que eu tinha.

Optei por um terceiro caminho: nenhum! Com isso, apareceu outro eu bem perigoso,
aquele que não toma nenhuma decisão por temer a responsabilidade da consequência
dela.


Freud explica?

3 comentários:

Anônimo disse...

nossa mesmo depois de tanto tempo ainda me surpreendo como vc consegue traduzir tão bem o que esta na alma,é tão saber q vc é meu amigo bjss

Anônimo disse...

é mais facil falar quando vc mesmo serve de exemplo...vc sabe quem vc é. ninguem pode se esconder no mundo espiritual. afinal o mundo esta cheio de livros com lindas palavras e mentes cheias de podridão. Deus te proteja.

Dúvidas Crueis disse...

Gostei muito da sua sinceridade ao escrever seu texto. Não sei se faz como eu, mas quando escrevo algum texto com esta essência, imagino meu teclado como se fosse um psicólogo e por meus dedos deixo escorrer todo o sangue estragado que faz doer minhas veias.

Publiquei recentemente no meu blog um texto que tem, de uma certa forma, a mesma essência que você expressou aqui.

Talvez queira dar uma olhada: http://duvidapensamentos.blogspot.com.br/2012/12/14-terapia.html

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