quinta-feira, abril 29, 2010

O fundamentalismo dos novos ateus

Por MÁRVIO DOS ANJOS
Publicada no jornal Destak


Um ateu determinado a prejulgar qualquer religioso é perigoso e preconceituoso como um homem-bomba

A crise dos pedófilos na Igreja e as recentes manifestações sobre o papel de Deus nas tragédias ambientais - que ecoam na seção de cartas deste Destak - opõem de novo a fé e seus críticos. O debate é saudável, desde que sem fundamentalismos, seja religioso... ou ateu.

Foi após Nietzsche que o ateísmo encontrou sua face mais triunfante e ganhou terreno como parte indispensável de um mundo em que Razão e Conhecimento, filhos gêmeos do Questionamento, impuseram-se como os caminhos rumo à Sabedoria.

Chegamos faz pouco ao ateísmo militante de Christopher Hitchens e Richard Dawkins, de vasta cultura e argumentação demolidora, determinados a expor a inutilidade da religião. Depois, nasce a espécie que chamo de "ateu fundamentalista": quem não vê qualquer valor na religião e opta por combatê-la, como se fosse a raiz de todos males da humanidade. Pior: virou moda.

Que o fundamentalismo religioso é uma praga todos sabemos. De que uma educação religiosamente rígida pode ser extremamente destrutiva poucos duvidam. E a intolerância é mais gritante quando surge dos que seguem um líder cujo principal ensinamento era "amar o próximo" e até o inimigo.

Nada disso, porém, justifica ser intolerante com toda forma de religiosidade. Um ateu truculento é tão perigoso quanto um homem-bomba.

Por mais revolta que causem a Igreja que acoberta pedófilos e os favelados que proclamam confiar em Deus para encurtar o papo e continuar a viver em áreas de risco, não se pode jogar tudo no mesmo saco.

Seria desonesto negar que há milhões que usam crenças religiosas como uma via pacífica para alcançar uma vida mais sábia, mais justa e, sim, mais feliz.

O mal não vem da crença. Mas é óbvio que acobertar crimes ou justificar imprudências num manto de sacralidade torna tudo duplamente condenável. Este é o problema: à sombra das religiões, abrigam-se diferentes humanos - dos mais respeitáveis aos mais abomináveis e aproveitadores. Como em qualquer lugar.

Invalidar filosofias que pregam amor ao próximo, respeito à vida e busca honesta pela sabedoria - e, pior, acusar todos os seus adeptos de indivíduos irracionais - é impor uma tirania míope, baseada num preconceito tão vilão quanto a homofobia e o racismo.

Intolerância não é aceitável. Nem travestida de "justa vingança" nem de modernidade obrigatória.



(MÁRVIO DOS ANJOS*
Editor do Destak Rio (marvio@destakrio.com.br))
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