sexta-feira, abril 09, 2010

Niterói, Natureza, Homens e Rachaduras

"Quando algo começa errado..."

Havia uma rachadura no teto da nossa casa. Minha mãe não dizia nada; a gente fingia que não notava.

A rachadura não estava lá antes do terreno ao lado ser ocupado por uma obra; e provavelmente, ela significava alguma coisa, pois cada vez que rangia, ela falava conosco, porém, não falavámos rachadurês, e assim, a gente seguia ignorando e a rachadura aumentando.

Nunca imaginamos que a casa ia cair; desabou! A tristeza e o choro só não foi maior, porque ninguém havia sido ferido, mas quando a gente pensava sobre as coisas que haviam se perdido, nos móveis destruidos, uma sensação de injustiça nos invadia e comprimia o nosso peito. Daí, a gente dizia, e chorava:

- Por que com a gente? Por que logo com a gente?

Com os outros, tudo bem, até normal e natural; pois essas coisas não ocorrem com a gente e nem ocorrerão - queira Deus, Ishalá! Avemaria que não - e se ocorrem, como ocorreu, é castigo, é injustiça, é culpa do governo, é por causa do outro e nunca da gente que por acreditar que isso nunca aconteceria conosco, fizemos o possível para ignorar a linguagem da rachadura, pois Deus de onde está, nos protegerá, afinal, o que podemos fazer? Não falamos rachadurês.

É claro, que a culpa maior foi da construção irregular que não levou em consideração a firmeza do chão ao redor do terreno onde a nossa casa estava; desde a escolha do cimento ao desabamento, tudo estava apontando para o desastre, a rachadura apenas foi um aviso: "criem, juízo, mudem-se daqui!"

- Mas a gente vai pra onde? Não temos onde morar! Viver com parentes, não dá! A gente se arranja, puxa um fio aqui, faz um gato ali, a vida é mesmo assim; somos gente humilde, se tivessemos dinheiro não estaríamos vivendo ali.

Não tinhamos escolha, pelo menos até a casa cair...

Aprendemos a lição, e quem via a gente chorando, nos carros que ia passsando, deveria ter pensado que a gente merecia, ou que isso nunca ocorreria com eles. Tragédia, só a dos outros!

Quanto a gente - para encerrar essa crõnica trágica - encontramos outro lugar para morar - tão humilde quanto, mas sem rachaduras, afinal a gente é pobre, é limpinho e quer viver.

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