quinta-feira, abril 08, 2010

Quando comecei a escrever as minhas crônicas e postá-las na internet, eu queria contar mil coisas sobre o que eu estava descobrindo, alardear aos mil cantos todas as descobertas sobre o mundo espiritual que eu estava conhecendo e, é claro, acabar com certos mitos, apontar alguns perigos e quebrar preconceitos e dogmas religiosos. Nesse época, eu fazia um curso no IPPB como o meu amigo Luis Medeiros, e lhe contei sobre a repercussão que um dos meus textos teve on line e dos ataques que eu levei, vindo de alguns fanáticos que não haviam gostado muito das verdades que escrevi, e quando eu esperava um " parabéns por mostrar esse pessoal do que o mundo é feito", o Luis olhou para mim e disse:

- Você só pode tirar a fé de alguém em alguma coisa, se souber colocar algo melhor no lugar!

Estranho como uma resposta pode modificar todo o nosso pensar. Em algumas palavras, Luis me mostrou que escrever é ter acima de tudo responsabilidade em veicular as suas idéias, e mais do que convidar alguém à discussão ou mostrar quem é o dono da verdade, o intuito de um tema bem apresentado é levar o leitor a uma reflexão para que ele possa emitir a sua opinião baseada em sua própria meditação ou experiência sobre aquele tema. Afinal, enquanto um texto inteiro, às vezes, não consegue reproduzir algo sútil e bacana que ocorreu conosco, basta apenas uma palavra para negativar a experiência real de alguém.


Basta Uma Palavra para Negativar
Por Frank Oliveira



No reino da linguagem, basta uma palavra distorcida para que o seu sentido original seja negativado, e ela seja repetida, descendo goela à mente, coletivamente, causando estragos e semeando intolerância. Essa crônica não vai tratar dos mistérios das palavras, deixo esse estudo de linguística para os seus doutores e mestres; a minha intenção com esses escritos é dar um aviso a mim mesmo, que pode servir para outros tantos que se aventuram na comunicação de idéias e que formulam opiniões.

Lí esses dias na revista "Língua Portuguesa" que durante a colonização do Brasil, os pregadores da Companhia de Jesus, adaptaram muitas palavras do idioma dos nativos para catequizá-los, num tremendo esforço para mudar o significado de algumas palavras chaves do tronco linguístico tupi-guarani para associá-las aos termos usados pela fé cristã. A palavra "Anhangá", por exemplo, que significava espírito protetor da fauna e flora, foi associado a palavra "diabo"; sendo assim, pouco tempo depois, os nativos já associavam a palavra anhangá ao mal. Por essa razão, temos a tradução do termo "Anhangabaú" como Rio do Diabo, quando na verdade, se havia um rio na região, nada tinha a ver com o demônio ou coisa que o valha, mas apenas uma ação da influência das palavras distorcidas na mente de um povo. Ironicamente, a palavra "diabo" que vem do grego διάβολος, tinha o sentido e podia ser traduzido como "acusador" ou "adversário" na antiguidade, mas sofreu processo semelhante a pregação dos índigenas, quando ela entrou para o vocábulo cristão.

Tempos depois, a palavra "macumba" que designava apenas o culto religioso africano aos seus deuses e deidades, também, acabou ganhando um outro significado, e de tão negativada, por critícas preconceituosas, a palavra passou a significar trabalho espiritual voltado para o mal de outra pessoa. Os praticantes dos cultos africanos, seja na Umbanda ou no Candomblé, ainda sofrem uma perseguição incessante e lutam constantemente para que suas religiões sejam aceitadas e respeitadas.

O mesmo ocorre nos dias de hoje, com as religiões ligadas ao ritual com a bebida Ayahuasca (ou Santo Daime, como é mais conhecida). Toda vez que o assunto é abordado na mídia ou na internet, o que vemos é um grande preconceito contra essa cultura ayahuasqueira, que já foi reconhecida como religião pelo governo, e há décadas, sofre uma perseguição intensa. O termo 'Santo Daime" virou alvo de piadas, numa tentativa calculada de muitas pessoas em negativar o termo e associar o nome religioso da bebida a um termo jocoso, vulgar e maldoso.

A mídia, é claro, é sempre um capítulo à parte quando o assunto é espiritualidade. Não precisamos discorrer sobre as capas sensacionalistas da Veja ou da Época em relação a religião acima citada, mas basta uma rápida olhada na capa de uma revista como a Super Interessante, por exemplo, para sabermos como figuras como Chico Xavier são tratadas, ou como os assuntos ligados a espiritualidade são ridicularizados ou mesmo apontados como doenças psiquícas.

Lembro, certa vez, que houve uma matéria no Fantástico, onde um cientista provava de A a Z que as chamadas "Viagens Astrais" não passavam de ilusão provocada pela falta de oxigênio no nosso cérebro. Eu participava de uma lista de viagem astral naquele tempo e postei uma pergunta, numa tentativa desesperada de obter uma resposta dos colegas da lista que salvasse a minha fé nesses fenômenos. Muitos responderam que essa matéria era uma grande bobagem, outros que havia um fundo de razão, alguns que eram preconceito, outros tantos que era apenas uma teoria que se aplicava a alguns casos, mas a resposta que mais me ajudou naquela época, veio do mesmo amigo Luis Medeiros, que eu citei no inicio dessa crônica:

- E ai, Frank? - disse ele - A reportagem fez você duvidar da sua certeza que você teve mesmo uma experiência fora do corpo?

Sim, e pior que isso; até então, eu estava escrevendo sobre essa certeza...

Levei mais alguns meses ( e mais algumas experiências) para escrever novamente sobre o tema; e quando o fiz, tive mais segurança, pois sabia que havia coisas que eu sentia, que provavelmente seriam diagnosticadas como doenças psíquicas ou efeito de alguma reação química, mas o bem que elas produziam na minha vida, valia a pena e a crônica.


" Certas palavras são como granadas.
Usadas com imperícia,
Explodem na boca"
Grahan Greene

Sempre houve e sempre haverá matérias tendencionistas, artigos escritos com a intenção de causar polêmica. É um pequeno preço a pagar, quando moramos em um país com liberdade de imprensa. Controlar o que a mídia diz e tenta nos empurrar como fato, é coisa de Cubas e Chinas. O que precisamos é de educação, ensinar as nossas crianças que não basta apenas ler, é preciso interpretar, mastigar, ruminar o que é percebido nas letras e ao nosso redor. Esse exercício seria muito mais fácil, é claro, se quem escrevesse tivesse realmente a preocupação de medir o que veicula e focasse mais na informação do que na polêmica para chamar a atenção.

Seja na vida ou nas letras, todo escritor, educador, jornalista ou pesquisador que veicula idéias para a massa, tem o dever de ter cuidado com aquilo que escreve, para que uma informação que saia da sua boca, ou flua por suas mãos não destrua a vida de outras pessoas (o que ocorre sempre com casos de crimes, onde réus são condenados em praça pública e na mídia antes de serem julgados em júri) ou que não acabe por negativar a fé ou a religião alheia. Quando queremos opinar sobre algum assunto em público, precisamos como dizia Mário Quintana, "reter as rédeas dos nossos Pégasos" e preservar a informação, e mesmo que doa no ego, temos que evitar misturar fatos com as nossas opiniões. Discernimento sempre! Venalidade, nunca!

Muita gente quer escrever, compartilhar as suas idéias e contar ao mundo sobre a sua existência e experiência. Há cursos e mais cursos, que ensinam escrita criativa ou como falar em público, mas há raros casos por aí, de lugares ou professores que avisam sobre os perigos de uma palavra mal escrita ou de uma idéia mal falada baseada em crenças equivocadas ou certezas mutantes.


" A eloquência é a arte de aumentar
as coisas pequenas e diminuir
as grandes"
Sócrates


Na história temos grandes exemplos de oradores que usaram o seu poder de comunicação tanto para o bem quanto para o mal. De Jesus à Hitler, passando por Gandhi e, mais recentemente, a eleição de Barack Obama, é evidente que a comunicação pode eleger presidentes ou colocar no poder ditadores.

A eloquência é um elemento de influência exercido pelo orador sobre os ouvintes, com o propósito de informar, convencer, entreter e persuadir. O eloquente acredita em suas palavras, sente e crê no que diz. Daí o perigo, envolvendo certas certezas, afinal, todos nós sabemos, que as verdades de agora, podem ser alteradas daqui há uma hora. Cultivar a dúvida é saudável, pois é a dúvida que nos induz aos estudos mais finos e aprofundados.

Seja nas conversas de elevador ou nas matérias das revistas, a linguagem é sempre carregada de alguma intenção de persuadir ou convencer alguém. Ganha sempre a discussão quem consegue ouvir e aprender; e quem, é claro, sabe discernir sobre o que escuta e filtra o que vê.

Seguir o pensamento coletivo sem o devido discernimento já resultou em nazismo, e em outros casos, quando esse pensamento é bem guiado para conduzir a massa, liberta nações, como Gandhi fez com a Índia. Porém, em ambos os casos, percebe-se nitidamente que quem se comunica efetivamente tem a vontade do povo em suas mãos.


"Democracia? É dar, a todos, o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um."

Millôr Fernandes


Quase sempre queremos mostrar a todos qual é o melhor caminho a seguir. Atitude louvável e tipíca do ser humano, que na melhor das intenções, deseja alertar aos outros sobre os perigos que podem surgir em certas caminhadas ( armadilha onde eu caio também ao escrever essa crônica). Aprendemos isso desde cedo com os nossos pais, que sempre tentam apontar qual é o melhor caminho para a vida segundo o evangelho deles; depois na escola, aprendemos que isso é certo, aquilo é errado, e ao invés de sermos preparados para um vida social e profissional baseado em nossas aptidões, saímos do colegial, quase sempre, para uma profissão que nada tem a ver com a gente, mas que garantirá o dinheiro no bolso e a depressão na tentativa de eliminar a frustração em garrafas na mesa do bar. O mesmo ocorre na política com os governos ditadoriais, e com as religiões.

É claro que seria mais fácil se já nascessemos instruídos, direcionados, espiritualizados, assim não correríamos o risco de sermos manipulados por quem estudou de um tudo, apenas um bocado, e soa como se soubesse tudo sobre aquele assunto que ele apenas sabe um quarto, mas que lhe dá bagagem suficiente para nos aconselhar que estamos no caminho errado.

Cada leitor ou estudante de espiritualidade deve estar antenado e com o filtro do discernimento sempre ligado para poder perceber quando informações são manipuladas e quando alertas se transformam em ataques repetitivos com intuito de agressão e provocação. Esse mesmo estudante deve também aprender a ler tanto aquilo que é escrito a favor da sua crença quanto aquilo que a ofende ou crítica, justamente para treinar a sua interpretação do assunto estudado, e mostrar que sempre haverá uma outra forma de se olhar certas situações que se apresentam na fé, na vida e no social.

Por isso, essa crônica convida a todos os leitores que desejam escrever ou opinar sobre algum assunto a treinar um olhar atento a tudo aquilo que é afirmado nas letras virtuais ou impressas, nos programas de TV e rádio, envolvendo temas polêmicos. Leiam todos os prós e contras dos assuntos que estão sendo discutidos, mas cuidado para não serem convencidos a aceitar apenas um ponto de vista, afinal, não é a toa que temos um par de olhos.

Há discussões sobre temas espirituais que nos esclarecem, porém há outras tantas ocasiões, onde a condução de certos temas acabam por negativar certos temas, cuja "intenção inicial" era iluminar.

Por isso, deixo aqui esse aviso, na certeza, que a maioria dos estudantes de espiritualidade de agora, um dia serão escritores, jornalistas e veiculadores de idéias, e eles poderão evitar os mesmos equivocos que percebem na mídia ou na internet de hoje em dia; basta uma dose de respeito no tratar da religião ou opinião alheia.

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