segunda-feira, março 08, 2010

TODO DIA É DIA?

Ele a beijou e disse bom dia; não foi um beijo especial do jeito que ela queria; ele pensou: e por que seria?

Seria porque hoje é dia; e ela esperava por algo a mais; não que precisasse, mas achava que merecia. Ele ignorou o pedido, fez que não tinha visto e pensou: e por que faria? Não faço jamais!

Afinal, o que ela esperava? - Ele ponderou - Flores, bombons, um "bom dia" com outro tom? Com licença, eu vou trabalhar - disse ele - ela foi logo em seguida, depois que arrumou a mesa do café da manhã e limpou a bandeija.

Assim são os dias de hoje - mulher é mulher, homem é homem - ele pensou, enquanto esperava o ônibus - Se homem não possui "Dia Internacional", por que mulher deveria ter? Todo dia é dia! - ele com convicção pensou - difícil foi convencer a sua caixa postal com centenas de mensagens sobre esse dia; e quanto mais ele desviava o olhar da data comemorativa, mas via: mulheres recebendo flores com sorrisos desabrochando em rosas; outras tantas lendo cartões com caras chorosas; anúncios na rádio, conversas de elevador, lembrete até no mural de informações; tudo para contrariar a sua intenção de esquecer aquela comemoração. Que horror - ele dizia - Todo dia é dia!

Dar presente nesse dia é render-se ao poder da mídia; perder a identidade para a opinião coletiva - ele repetiu para si mesmo - Não! Não vou com a massa! Sou diferente, é só ignorar que passa!

Não passou!

Durante todo o dia, a lembrança do olhar da sua mulher o invadia e ele passou a perguntar para si mesmo se fazia mesmo o que ele dizia. Resposta: não fazia!

Ele não lembrava da última vez em que deu flores a sua esposa, nem se algum dia a agradeceu por ela fazer parte da sua estrada. E estranho, quanto mais ele boicotava aquela data, mas lembrava da importância do suporte da sua mulher em sua vida. Sem ela, onde ele estaria?

Sim, ele começou a perceber que nesses anos todos de casamento, na verdade, todos os dias eram dele, pois ela sempre estava ao seu lado, cuidando para que nada lhe faltasse, dando-lhe força, comida, carinho e alma lavada; exaltando os seus sucessos, ignorando as suas falhas; compreendendo os seus equivocos e lhe dando a firmeza necessária para todos os seus objetivos.

E na correria do calendário, na batida dos ponteiros; ele sempre se esquecia de lembrar da companheira que tinha, desse poder feminino tão sutil e tão presente, que ainda luta por seu direito de ser respeitada com igualdade numa sociedade opressora e violenta que sempre a tratou como diferente, por pura imaturidade e preconceito, afinal o homem não compreende direito que não tem nada a temer, pois assim como a água complementa a terra, a força feminina complementa a firmeza masculina numa mesma moeda, cujo valor é o companherismo baseado no amor.

Sim, era preciso ainda um "Dia Internacional da Mulher", para que todo homem se lembre do que sempre se esquece: homenagear ao menos um dia por ano, quem por todo o ano o enaltece.

No final da tarde, ela descobriu que ele agora sabia que, sim, todo dia era dia, mas aquele dia era especialmente dedicado a ela!

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