sábado, março 20, 2010

Quem Entende as Canções de Zé Ramalho?

Gosto muito do Zé Ramalho, mas talvez me falte cultura, leitura ou locura para entender esse meu conterrâneo.

Esses dias, surfando por essas ondas virtuais, me deparei com esse texto e quero compartilhar com vocês que também gostam do Zé, mas não entendem lhufas das suas letras, pois o seu xará abaixo, soube como ninguém dá uma luz...ou complicar ainda mais a nossa tentativa de compreender esse poeta trovador do sertão.

Frank Oliveira





Apresentação do livro "Carne de pescoço"
Zé Neumanne Pinto

Saibam quantos queiram entender Zé Ramalho que:

1 - Zé é oral. Ou seja: um texto qualquer, desde que Gutemberg inventou os tipos móveis, deve ser visual. Mas Zé não é pos-gutemberguiano. Ele vem do sertão, de brejo do cruz, ouviu desafios de viola quando era menino. E descendente direto de homero e dos bardos gregos. Sua poética é, portanto, oral. Tem ritmos, inflexões, devem ser cantada.

Zevohai é filho de Oliveira Francisco de Pandas, Pernambuco. E filho dos irmãos Batista que embasbacaram Manuel Bandeira. A viola está enfiada na goela dele, ouvido adentro. Os tipos móveis são uma forma de guardar palavras que saem da boca, no limite entre a poesia popular e a canção de consumo. Um processo semelhante ao do cordel.

Leitura para bem entender Zé Ramalho da Paraíba é leitura cantada no microfone rústico das feiras livres como quando se faz o merchandising do cordel. Ou como quando a gente pega um encarte de um disco para ler as letras. E preciso ter presente a oralidade.

Em resumo: Zé é um vento que sopra no nordeste. Zento nordeste.

2 - Zé Ramalho é uma figura apocalítica. Tal qual o Bob Dylan de "desolation row' E interessante essa semelhança, porque sempre pensei que fosse influência, não acreditei que não fosse, agora - de repente, ao ouvir um disco de Oliveira de Panelas produzido por José, descobri que não é - vejo que é parentesco. Porque Oliveira não sabe quem é / foi / será Woody Guthrie. E contudo, são primos.

Parodio Frank Kermode para retornar o primeiro item e uni-lo a este: "Todos sabem que a letra escrita no papel dá uma idéia muito pobre sobre o som real da poesia de Zylan - ele escreve levando em conta sua garganta. Então, no papel, seus poemas não podem ser mais que sugestões e sinais alusivos, como as notas musicais numa partitura". Kermode escreveu sobre Dylan / Inácio da Catingueira / Zé Ramalho / Woody Guthrie e / Homero... os orais.

Mistério. "Sua falta de sentido é sagrada", escrefalou Bob Dylan. Dylan de Brejo do Cruz (volto a parodiar Kermode), Zevohai oferece mistério, não somente opacidade, uma geometria da inicência. Seus poemas são necessariamente abertos, vazios, um conluio sedutor. Escrever assim é praticar uma arte muito moderna, embora - como Zylan sabe muito bem - seja uma arte de complexo passado.

you walk into the room with your pencil in your hand
you see somedoby naked and say who is that man?
you try so hard but you dont understand...
…os hemisférios do prado
as palaganas do mundo
os prugis da galiléia
quelés do meditabundo
filosomia regente
deus primeiro sem segundo.

3 - Outro Zé, Limeira, um mito dos sertões, um e muitos violeiros, é inclusive Zé Ramalho da Paraíba. Porque Zé é também um banquete de signos. Sendo ele próprio signo.

Ou seja, pra bem entender Zé Ramalho é preciso saber que ele bebeu água de muitas fontes antes de verter as sua própria. Na viola tem Robert Johnson, George Harrison, Nokie Edwards, Charlie Cristian, Ivanildo Vilanova, Heraldo do Monte. Lá do monte. Lá estão os "riffs" de um Lightnin'Hopkins, Jimi Hendrit e também - por que não? - o "abismo de rosas" de Dilermando Reis.

Na voz gutural dos violeiros da infância de Brejo do Cruz somam-se trejeitos de Elvis Presley e um indisfarçado (embora até provalente não ouvido) Sam Cooke. Ser do sertão, Zé da Paraíba tem voz do mar - zeternas ondas - chegando pelo porto de cabedelo. E voz do ar... pelo eter - the gates of eden (por que não recorrer de novo a Robert Zimmerman?). Zécaro em asa delta colada com cera.

Esse pirão - esse cozido - comido nos sertões da Espanha onde Antonioni filmou seu "passageiro" está presente em todo o que Zé faz. Aqui também - uma mistura - geléia total.

Ou seja: pra entender bem Zé Ramalho é preciso primeiro desentender, desenrolar e enrolar. O maior mistério é haver mistério. Como diria Walt Whitman (que só não foi Bob Dylan porque ainda não havia sido inventado o juke box):

dificilmente saberás quem sou ou o que significo.

Sim, porque, tal qual um personagem de Nelson Rodrigues, zeve de prata é a-histórico e um homem de seu tempo - primevo e sintetizador. Ídolo dos lambões de caçarola e de Deus do Baixo Leblon.

Estrela no chapéu, lua no céu, Zé Ramalho trilha o sertão da infância refugiando-se na Praia do Futuro. Precisa dizer mais?

Bem. Apertem o cinto. A mesma viagem vai começar agora:


Source: http://www.zeramalho.com.br
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