segunda-feira, março 22, 2010

O Garoto que nunca viu Chuva

Para algumas pessoas, o Egito, causa forte impressão por causa das pirâmides e do legado faraônico. Para outros, é o mundo árabe que lhes causa espanto; para minha esposa e eu, nosso objeto de fascínio, durante a nossa viagem, foi a água.

Se há algo nesse país mais adorado que Alah e futebol brasileiro, com certeza é a água.

Num país com quase 90 % do seu território coberto por desertos, qualquer fonte d`àgua doce vira um templo de adoração.

Em volta dos oásis ou às margens do Nilo, o povo sobrevive há milênios e a impressão que temos é que realmente o tempo parou. Tanto faz se estamos no século 21 ou vivendo na época que construiram as pirâmides, o povo aproveita cada pedaço de solo fértil para plantar e colher vida.

Mas importante que o guia, a água mineral era a nossa companheira inseparável dentro ou fora dos templos e durante todo o dia o "Pai Sol" não nos deixava esquecer que éramos totalmente dependentes dos elementos que a "Mãe Terra" nos fornece. E às vezes nem nos damos conta disso.

Em Sampa ou em qualquer outra cidade grande do mundo ocidental, desperdiçamos água, sem qualquer consciência que se continuarmos desperdiçando tanto, logo não teremos suficiente água para beber.

Não é uma questão daquela lamentação inútil de que não podemos desperdiçar, por que há tantos no mundo sem ter acesso. Esse tipo de lamentação faz você ficar pensativo e se sentir culpado na hora, mas não consegue fazer você entender que não é uma questao de comparação e sim de consciência e agradecimento pelo que a vida nos trouxe.

Lembro o quanto a água era importante e era sempre recebida com festa nas ruas do sertão paraibano. Eram meses de seca e quando o céu sempre azul dava lugar ao cinza da pré-tempestade, a crinçada corria para rua, enquanto as mães colocavam os baldes e panelas pra fora das casas. Cada pingo de chuva era aproveitado, quer para saciar a sede, quer para banhar a molecada. Jamais vou esquecer aquele sorriso bobo no rosto com a chuva caindo na cara e matando o calor.

E foi essa lembrança que veio a minha mente quando perguntei a Mustafá, um garoto de 12 anos, se ele já tinha visto chuva antes?

Ele sorriu.

Provavelmente ja tinha ouvido aquele pergunta antes de algum babaca curioso; mas talvez por educação respondeu:

- Eu nunca vi chuva na minha vida.

Sua resposta levou-me ao passado e a essas lembranças que nunca te abondonam. Não lembro da primeira palavra que falei ou da primeira barra de chocolate, mas lembro muito bem do meu primeiro banho de chuva e do que senti.

E ainda busco a sombra dos trinta, sentir novamente aquela emoção de primeira vez, mas não consigo nem sorrir com a mesma espontaniedade. Você adulto que lê essas palavras, pode achar que dou muita importância para essas coisas de crianças, mas acredite essas lembranças são o alicerce para o adulto que me tornei, assim como o Rio Nilo é o alicerce que leva o pão para Mustafá e seu pai, o Capitão Badhar.

Todos os dias os dois levam turistas para passear de feluca, o barco egípcio, pelo Nilo e foi o seu pai que contou que não chove em Luxor, no "Meio-Egito", por quase 40 anos. Ele nos conta que na última vez que chuvou, o povo fez festa durante uma semana.

- E quanto tempo durou a chuva? Perguntei curioso.

Ele deu risada e respondeu:

- Cinco minutos!

E foi meditando nisso que me perdi nas águas do Nilo e no verde das suas margens; esperando do fundo do coração que eu não precise voltar a viver no sertão ou nascer no deserto para celebrar e respeitar cada pingo de vida que a água nos traz.

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