domingo, janeiro 31, 2010

Wilson Martins morre

Escritor e crítico literário Wilson Martins morre aos 87
da Folha Online

O escritor e crítico literário paulista Wilson Martins morreu no sábado, aos 87. Radicado em Curitiba, Martins morreu em decorrência de complicações cirúrgicas, cinco dias após sofrer uma operação para extração da bexiga.

Ele estava internado no Hospital Nossa Senhora das Graças, também na capital paranaense. O escritor não deixa filhos.

O corpo está sendo velado no cemitério Luterano, em Curitiba, até às 17h. Em seguida, será encaminhado a um crematório, conforme seu desejo registrado em cartório.

Martins nasceu em São Paulo, em 1921. Sua carreira acadêmica tem passagem por universidades norte-americanas. Ele lecionou na Universidade de Nova York durante 26 anos, até se aposentar, em 1992.

Sua obra literária inclui 12 volumes do livro "História da Inteligência Brasileira" --que lhe renderam prêmios de literatura, como o Jabuti e o Machado de Assis.

O escritor teve passagem por diversos periódicos brasileiros, como "O Globo" e "Jornal do Brasil".

Source: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u687228.shtml


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O baú do Fernando


Por Wilson Martins

O mitológico baú de Fernando Pessoa assemelha-se ao buraco das adivinhas infantis: quanto mais se tira, maior fica. Nele se acumulam os inéditos que há meio século professores e críticos, editores e comentaristas da imprensa vêm explorando em todos os sentidos da palavra, inclusive os comerciais. Agora, o espólio tomou a forma de biblioteca, composta, ao contrário, de textos publicados, mas esquecidos ou ignorados - a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.

Como recorda Arnaldo Saraiva (Fernando Pessoa. Poeta-tradutor de poetas. Os poemas traduzidos e o respectivo original. Rio: Nova Fronteira, 1999), Marco Chiaretti, editor do suplemento "Letras" da Folha de S. Paulo, publicou em 1990 cinco "traduções perdidas de Pessoa", descobertas por acaso numa Enciclopédia Internacional de Obras Célebres, impressa, segundo informava, por volta de 1911. Não era "enciclopédia", mas dicionário de literatura, coleção de 24 volumes reunindo, não excertos antológicos, mas textos completos dos "autores mais afamados dos tempos antigos, medievais e modernos", cuja história editorial foi reconstituída por Arnaldo Saraiva.

Não se sabe exatamente, escreve ele, "quem a organizou, nem quando e onde foi impressa e distribuída. As indicações editoriais, sempre as mesmas que ela contém em qualquer dos seus volumes são apenas as do editor "Sociedade Internacional" de "Lisboa Rio de Janeiro São Paulo Londres Paris", referindo redatores principais em 12 capitais e colaboradores em 16 países. Data de 1906 a edição em nossa língua, incluindo autores portugueses e brasileiros, "às vezes com numerosos textos: vejam-se sobretudo exemplos como o de Camões, com mais de 25 textos[] ou de Machado de Assis, com 11 textos. Mas o número de autores e de 'colaboradores e críticos especiais' brasileiros, que são destacados na própria folha de rosto [] José Veríssimo, Vicente de Carvalho, Artur Orlando, Reis Carvalho, Constâncio Alves, Lindolfo Collor, João Ribeiro, indica sem dúvida o público-alvo da edição []."

Tudo leva a crer, acrescenta Arnaldo Saraiva, que "ela tenha sido feita em Portugal. Eduardo Freitas da Costa escreveu em 1951 que 'a edição destinava-se a ser publicada no Brasil'. 'Publicada' neste caso quer dizer 'impressa e distribuída' ou só 'distribuída', isto é, vendida?." As coleções tornaram-se raras: Arnaldo Saraíva não encontrou nenhuma na Biblioteca Nacional de Lisboa nem nas bibliotecas públicas portuenses, havendo uma na Biblioteca Municipal de São João da Madeira. No Brasil, esclarece ele, "vimos em 1995 quatro coleções, uma das quais incompleta, à venda em livreiros de Porto Alegre e Rio de Janeiro", lembrando que Carlos Drummond de Andrade ganhou uma, como presente do pai, quando tinha 10/11 anos.

Eu mesmo sinto-me ligado por contigüidade ou osmose à coleção completa da Biblioteca Pública do Paraná (que a possui até hoje), então provisoriamente instalada em uma sala (!) do Ginásio Paranaense, quando ali estudei nos anos trinta. Aproveitando as férias e as horas vagas, sob a proteção do bibliotecário Reginaldo, explorei sistematicamente as veneráveis estantes (era ainda o tempo dos grandes armários de madeira com portas de vidro).

No que se refere a Fernando Pessoa, escreve Arnaldo Saraiva, "o que pode causar admiração é que tenha sido pedida a sua colaboração nem dúvida quando ele não tinha ainda nome literário ou quando ainda não tinha prestado provas públicas das suas capacidades poéticas." Trabalhando como correspondente em inglês nos escritórios comerciais da Baixa lisboeta, é natural que fosse conhecido, chamando a atenção do sr. Kellog, editor da Biblioteca para o português e espanhol, colega seu no distrito. Arnaldo Saraiva recuperou algumas cartas relacionadas com a colaboração. Assinadas por Warren F. Kellog [] revelam que este "preparou cuidadosamente num escritório lisboeta a edição da Biblioteca, que Pessoa era um dos seus colaboradores próximos, e até de recurso, tradutor não só do inglês mas também do castelhano, mesmo antigo, e que pelo menos algum ou alguns dos volumes foram preparados já no início de 912."

Na Biblioteca, "Pessoa só aparece explicitamente - no Îndice ou no corpo dos volumes - como tradutor de poemas", parecendo-me extrapolação de Arnaldo Saraiva imaginar que pode também ter sido de sua autoria o que se incluiu anonimamente em prosa e verso. Ele mesmo adverte que, "quando se trabalha com inéditos do espólio pessoano há que usar de alguma prudência; certamente (sic) que existem mais poemas [do que os reunidos neste volume] traduzidos por Pessoa, e certamente que nem todos os textos que parecerão traduções de Pessoa são traduções e traduções de Pessoa []."

Seja como for, "parece incrível que só em 1990 se tenha dado conta - e no Brasil - da colaboração de Pessoa numa obra até fisicamente tão relevante. Mas não menos incrível parece que só tenham sido detectados nela cinco traduções [] quando aqui e agora propomos dúzia e meia." A explicação é simples: o editor paulista confiou nas indicações do índice geral no último volume, mas, pels cartas de Kellog e pesquisas próprias, Arnaldo Saraiva desencavou, como ficou dito, numerosos outros trabalhos.

Recebemos, assim, duas lições pelo preço de uma: a primeira, é que a consulta dos índices não dispensa da leitura das obras, e a segunda, aliás previsível, é que o baú de Fernando Pessoa não tem fundo, o que, aliás, não será coisa que pudesse descontentá-lo.
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