sexta-feira, janeiro 29, 2010

UM ENCONTRO NA LIVRARIA

Estou na cafeteria da livraria do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo. Espero meus estudantes chegarem, enquanto isso, tomo um cappuccino e leio um artigo qualquer num jornal; alguém se aproxima e pergunta se pode sentar, aviso que estou esperando alguém, ele insiste, e diz que não vai demorar muito. Olho no relógio, falta uns quinze minutos para a aula, a cafeteria está cheia, portanto, acho de bom tom, não ser rude; e concordo, ele pode compartilhar comigo a mesa, mas aviso novamente: "estou esperando alguém". Ele sorri, parece compreender.

- Aconteceu muito rápido - ele diz, e eu observo que ele não está tomando café, ou suco, não carrega nada que justifique o uso da mesa, aparentemente, ele sentou ali só para conversar comigo - Eu acreditei em Deus minha vida inteira, mas diante daquela situação, percebi que a minha fé era superficial; nas profundezas da minha alma, só havia vazio em relação ao Divino. Nú, diante da face da morte, a revolta é tudo que resta aos corações que não são firmes no amor.

" Diante da força cruel da Natureza - ele continuou - a fé que me restava se fragmentou, e tudo que restou foi raiva, ira contra toda aquela previdência que permitia que toneladas de lama varresse da Terra o meu sonho de vida; e eu me senti terrivelmente sozinho, obra de um acaso cósmico, reação química inútil, fruto de um capricho da natureza que me fez homem, ao invés, de uma planta.

Quando senti a pressão da minha consciência sendo expelida para fora do corpo caído, a gritaria mental era intensa, a revolta gigantesca: havia algo além da morte, mas nada de anjos, parentes e amigos desencarnados dando boas vindas; Jesus, Santos, nada desse tipo; apenas cenas dantescas, imagens diabólicas, palavras de revolta que pesavam uma tonelada e a certeza que não havia nada relacionado a bondade, amor, ou qualquer um desses sentimentos nobres que tanto aprendemos a dar valor aqui desse lado. Diante dessa violência; eu queria retornar ao meu corpo enterrado, e achar uma maneira de voltar a viver lá dentro; ali fora, diante do limbo da minha alma, tudo doia tanto.

As lembranças vinham numa velocidade difícil de controlar, e cada uma delas, chicoteava a minha consciência com arrependimentos, lições que não foram assimiladas, mostrando as mais óbvias explicações para cada coisa que ocorreu na minha vida, incluindo estar naquele lugar, naquele momento...

Então, quando finalmente parei de lutar contra o que me era mostrado, e me entreguei ao que quer que viesse dali em diante, comecei a sentir as bordas de um novo mundo a surgir na minha frente, e diante das minhas lágrimas, agora mais calmas e caladas; um outro tempo foi chegando e comecei a perceber que esse mundo esteve sempre presente, mas eu estava olhando na direção errada.

Sem a revolta e a gritaria por uma justiça que eu não merecia, passei a perceber que eu não estava mais sozinho, ou melhor, eu nunca estive; pois sempre houve alguém do meu lado, orientando, tentando indicar as setas, o caminho a seguir, mesmo quando eu não queria ver.

Ainda sinto vontade de voltar, pois tanta coisa quero fazer, tanto ainda há por aprender, mas preciso trabalhar bastante a aceitação que não vivo mais nessa dimensão, e faz parte dessa lição, te contar sobre o que ocorreu comigo..."

- Frank, how are you, my friend? - diz o meu estudante, chegando e me pegando de surpresa. Olho novamente para ao meu lado, e não vejo mais o rapaz que estava falando anteriormente.

- I´m pretty well! Have a seat! - respondo para o meu estudante e fico imaginando se vi mesmo o rapaz, ou foi algo da minha cabeça. But you know what? Essa meditação pode ficar para depois, tenho uma aula para dar.
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