sexta-feira, janeiro 08, 2010

Avatar, arquétipos no cinema e Campbell

Por Lázaro Freire
--- Em voadores, elza maria schultz escreveu:
Laz/Cami
Gostaria de saber se qundo voces citam Campbell...
"A história é clichê. Mas todas histórias assim, por serem épicas, remetem à Jornada do Herói. Como diz o @Cardoso, quem acha Avatar "previsível demais" provavelmente não conhece Joseph Campbell, hehehe. Nem entendeu essa piada. ;-)"
A previsibilidade atribuida refere-se ao conjunto de sua obra ou ao filme o poder do mito
Elza Schultz


Lázaro:
Olá, Elza. Não sei se entendi bem a questão - ou você a piada - portanto vou marcar a letra
c) n.d.a.

Conjunto da obra de quem?

- De Joseph Campbell (o escritor de As Máscaras de Deus, O Herói das Mil Faces, entrevistado por Bill Moyers para a TV em um documentário chamado "O Poder do Mito, e autor de uma série de estudos mitológicos e antropológicos)???

- Ou de James Cameron (cineasta de Exterminador do Futuro, O Destino do Poseidon, Titanic e Avatar)?

Pra entender o que falei, ou melhor, o que o Carlos Cardoso (http://www.carloscardoso.com/) ironizou, é preciso lembrar quem foi Campbell, né?
http://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Campbell

Ainda assim não entendi a pergunta. Nenhum dos dois tem uma OBRA previsível. Campbemm tem uma série de estudos sobre mitologia, quase todos sobre o mesmo tema, pode ser "previsível"?
http://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Campbell

E a OBRA de Cameron (o cineasta) tampouco é previsível. Quando assistiamos Piranha II, Aliens I, Exterminador do Futuro e True Lies não diziamos: "Ah, tá na cara que alguém assim um dia fará um Titanic e Avatar!" No máximo pensamos que tem que ser muito f* para fazer filmes como "O Segredo do Abismo" (The Abyss), quase inteiro debaixo d'água, um grau de dificuldade incomensurável, e uma direção genial. O sujeito gosta de épicos e de desafios! E "Segredo do Abismo" também tem uma mensagem ecológica e ficcionnal claríssima, e belíssima, bem no estilo do Wagner Borges, com crítica ao estilo de vida da humanidade. Bem imprevisível, aliás. Mas é forçar muito dizer que isso é o embrião do Avatar. Em todo caso, Exterminador do Futuro também tem essa visão da humanidade fazendo mal para si própria no futuro - um tema constante, mas nem por isso previsível.

Joseph Campbell é um mitólogo, especialista em estruturas comparadas nos mitos e religião. Um grande universalista, que conhece bem as aplicações dos arquétipos do Jung na cultura humana milenar. E o Campbell é particularmente famoso por ter colaborado no cinema, especialmente a partir do enredo de Star Wars de George Lucas.

A série de filmes orientada por Joseph Campbell intencionalmente utiliza estruturas mitológicas e psíquicas comuns - a conversão à sombra, a luta com o pai, a jornada do herói. Campbell observou que a literatura e cinema sempre utilizaram arquetipicamente os mitos sem perceber. Tanto que ele propõe que, talvez, haja um só grande mito no mundo, com diversas variações: O MITO DA JORNADA DO HERÓI. E Campbell disseca as estruturas e variações desse mito, desse herói que cumpre tarefas, que às vezes desce aos infernos, que tem um paraíso a resgatar, que desce aos infernos, que é tentado pela sua própria sombra, que pode ser crucificado, que se redime, que transcende. que ganha o direito de viver em paz com sua amada, ou de ganhar os céus. ESSA É A HISTÓRIA DE CADA UM DE NÓS, e também a de cada um de nossos deuses e heróis: Jesus Cristo, Hércules, Duro de Matar, Matrix, Luke Skywalker no Star Wars, Moisés no Egito, Avatar.

Depois de Campbell, o cinema ficou menos bobinho psiquicamente, o que se uniu com um tempo em que ficou também mais agressivo comercialmente. Entramos na era da globalização com uma indústria de massa mundial, que agora vendia home-videos nos anos 80 e 90. E a partir daí, com muito Jung, Freud e Campbell usados INTENCIONALMENTE nos enredos, os cineastas perceberam que se usassem estruturas comuns aos mitos e religiões que ressoam na humanidade com poucas variações há milênios, acabariam tocando "não se sabe porquê" em algo muito mais profundo da psique. Se as pessoas se identificam tanto, por milênios, com essas histórias que tem uma estrutura comum (arquétipos); então é claro que uma obra comercial que use e abuse desses MESMOS arquétipos não só venderá muito, muito mais; como também terá um impacto "viral". E, num mundo sem muita espiritualidade, será tomada inconscientemente quase como uma religião substituta. Devidamente descartável e substituída a seguir, para lucro das coorporações. Você pode notar isso nos fãs de Star Trek, nos colecionadores de Matrix, Indiana Jones e outras séries de "Jornada do Herói"; e, mais recentemente, na profunda identificação quase religiosa que as adolescentes tem entre Crepúsculo E/OU Hary Potter. Há turmas que gostam de um e nem tanto do outro. É quase um orixá, um time de futebol, um SIGNIFICANTE, nos termos de Lacan. Mas estamos falando de obras que INTENCIONALMENTE manipulam conceitos psicológicos profundos de maneira arquetípica. Vampiros, o encontro do amor, a sensação de impossibilidade romântica na adolescência. Não podemos dizer que sejam temas originais, não é?

Por isso, há muito de TRISTÃO E ISOLDA e de PARSIFAL E O GRAAL em tudo quanto for obra dos 1000 anos que os seguiram. Shakspeare era também um grande copiador. E não é só em Romeu & Julieta, Eros & Psique, Tristão & Isolda que vamos encontrar essa estrutura do amor impossível, ou do herói que faz vários trabalhos para ganhar o direito ao beijo feliz do final. Seria impossível citar quantos Shreks & Fionas repetem essa estrutura do mito, do herói, da jornada, das dificuldades, dos 12 trabalhos e do beijo final.

Até mesmo filmes de tragédia, ação, catástrofe, terror, luta, faroeste ou comédia precisam, na grande maioria, deste beijo no final. Ou de um outro equivalente de sentido. Afinal, só terá público se o público se identificar! Tipo "Tá, este herói está se f... bem mais do que eu passo no dia a dia, mas porque raios mesmo é que faz(emos) isso?". Se o filme não traz uma solução de SENTIDO - mesmo que seja um beijo no final, a luta pela "amada" JulietPsiqueIsolda; ou a salvação de um povo - ficará uma sensação de filme de "arte", mas carecerá do apoio popular que faz um INCONSCIENTEMENTE indicar para o outro e a indústria faturar dezenas (ou centenas) de milhões de dólares.

Para "garantir" mais ainda o retorno do investimento, o Cameron ainda fez - em Avatar - um recorte mais que intencional de muitos elementos de filmes que foram sucesso. Harry Potter e seus vôos em aves. Monges de Baraka, copiadíssimos. Temática e estilo de Final Fantasy. Muito de Star Wars e Senhor dos Anéis. Muito, muito de Matrix. Sempre discretamente, mas o cinema tem feito cada vez mais isso (2012 foi o pior exemplo disso que já vi). Parece uma "homenagem", uma brincadeira com a "cultura pop"; mas na verdade é a GARANTIA de que o filme já nascerá familiar, com base em cenas que emocionam, cuja receita já está testada.

Ninguém lá é BOBO de deixar essas estruturas arquetípicas - que comprovadamente funcionam e geram ressonância com o íntimo do expectador através da manipulação do que está no inconsciente coletivo - para adotar fórmulas diferentes por demais inovadoras que, se funcionassem, já teriam sido colocadas pelo mesmo inconsciente coletivo em outras obras.

Por isso a história se repete. Por isso um grande filme épico, como Avatar, PRECISA tocar em estruturas de SENTIDO, de RESGATE. E não pode repetir isso com os anseios antigos, mas sim adaptar-se às demandas atuais (a questão ecológica, por exemplo). Por isso é preciso um herói. É preciso tocar em temas que sejam quase religiosos para o público atual. É preciso o casal. É previsível que ele vá se apaixonar. O amor entre estranhos, que são próximos. A traição, a separação, a dor, o reencontro. O lado mau que é mau e pronto, bem estereotipado; o lado bom que é bom e incompreendido e pronto. E nosso herói no meio, mudando de um lado para o outro, sofrendo tentações e seduções de ambos, até no final a estrutra cristã também presente em Matrix III. Cristo é um Deus que se faz humano, habita outro corpo; e é um humano que renasce Deus, em outra substanciação. Avatar começa e termina com habitações de outros corpos. E trata de um Eden, um paraíso perdido, exatamente como aquele que o homem perdeu (há uma alusão indireta a Gaia), aquele ao qual inconsciente queremos lutar. Há a superação das deficiências (no caso, explícitas e físicas). E há, claro, a simbologia da morte e ressurreição, com batalhas épicas, maus no exílio (podendo voltar) e bons em celebração. Que venha o beijo no final.

É previsível? Só para quem não conhece Campbell, ou seja, a importância intencional do uso das estruturas arquetípicas de Carl Jung e do conhecimento mitológico e psicológico na confecção dos enredos épicos; do quanto isso garante esse "sucesso viral" de uma obra que já nasce PRECISANDO faturar mais de trezentos milhões de dólares (seu custo). Não dá para conseguir isso só com críticos de arte, intelectuais, filósofos e psicanalistas. É preciso apelar para o povão, se tornar quase uma RELIGIÂO substituta, é preciso fazer com que vistam a camisa, usem o ícone em seus perfis de internet, comprem o DVD, voltem ao cinema, chamem mais pessoas para assistir. E fazer isso sem utilizar das estruturas arquetípicas - consciente ou inconscientemente - seria o caminho do fracasso. Palavra que não consta do dicionário de Cameron, ainda mais quando ele usa Campbell e outros filmes descarada e inteligentemente.

Portanto, eu disse:

> > "A história é clichê. Mas todas histórias assim, por serem épicas, remetem à Jornada do Herói. Como diz o @Cardoso, quem acha Avatar "previsível demais" provavelmente não conhece Joseph Campbell, hehehe. Nem entendeu essa piada. ;-)"

Espero que quem leu até aqui tenha entendido a piada dessa vez.

Abração,

Lázaro Freire
http://voadores.com.br/lazaro

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