quinta-feira, dezembro 10, 2009

BOA MORTE!!!

Um botão desligado era o remédio tão desejado; se ao menos, ele pudesse se mover, pudesse se levantar da cama, apenas para puxar a tomada, desligar a máquina, a dor desapareceria; e ele enfim, poderia descansar.

Se ao menos pudesse falar; se ao menos pudesse se comunicar, mas nem os olhos ele conseguia mover para dizer:" por favor, meu corpo se tornou a minha prisão, me tirem daqui!"

Se ao menos ele tivesse fé para rezar, reclamaria com o Deus Cruel que o fez viver assim, e ordenaria que o Todo Poderoso, tão surdo aos que sofrem; o tirasse dali, ou ao menos, que alguma alma caridosa, fizesse-lhe o favor de oferecer uma saída honrosa para aquela situação.

Seu corpo não se movia, mas a sua consciência estava cada vez mais lúcida, e toda aquela claridade veio tarde; pois enquanto ele tinha uma vida de verdade, ele dormia.

Se ao menos ele pudesse correr novamente...não! Não queria pensar nisso, pois quando imaginava essas coisas, ele sentia inveja até da mosca que voava livremente pelo quarto e pousava em seu nariz. Suprema ironia: nada no seu corpo se mexia, mas ainda assim, ele sentia cocégas quando aquela mosca insistia em pousar em seu nariz.

Se ao menos ele tivesse tido uma vida feliz, talves as lembranças do que foi ocupassem a tristeza do que é. Ele poderia sonhar o resto dos seus dias e viver das memórias de quem viveu, mas nem isso, o Deus Ausente lhe oferecera.

E foi nesse estado de clareza que ele começou a lembrar de certas coisas que não tinha vivido: lembrava de um homem triste e um tiro; lembrara de um jovem e uma corda; lembrava até de uma mulher e uma ponte; e por um instante, que pareceu três vidas, ele andou com esse homem; caminhou com esse jovem e chorou com essa mulher. Conheceu essas três histórias, como se assistisse uma novela em que os três personagens vivem vidas distintas com trajetórias semelhantes. Então, percebeu, que todos eles tinham algo em comum: um olhar de quem não viveu!

Ele sentiu pena dessas três pessoas, pessoas boas, que não tiveram outra escolha a não ser o tiro, a corda e a ponte; e de repente, ele foi tomado por uma certeza desconcertante: todos os três se pareciam com ele.

Era como se eles fossem parentes, gente bem próxima e não parte de uma história que ele fantasiava em sua mente em corpo doente; e de repente, se deu conta. Que ele fora aquelas três pessoas em três tempos diferentes; e a história novamente se repetia; e agora era ele que escolhia qualquer coisa que não a vida.



Frank Oliveira

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