domingo, novembro 29, 2009

Um Conto Tibetano

Muito me questionei, quando encarnado, do porque do sofrimento humano.

Tive uma infância comum, no oriente, em épocas remotas, onde com meus pais e irmão vivia num pequeno vilarejo entre montanhas onde hoje é o Tibet.

Por volta dos meus 6 anos, perdi meu irmão mais velho, vitimado por uma doença desconhecida.

Não posso dizer que sofri. Naquele tempo ainda não tinha a real noção do que era a morte. Sofri por ver meus pais sofrendo a cada dia. Vivenciei o envelhecimento precoce de minha mãe, que jamais sorriu desde então. Meu pai, pouco falante, se fechou ainda mais, e tornou-se uma pessoa amargurada.

Minha vida mudou não pela morte de meu irmão, mas pela transformação que a morte do meu irmão trouxe para dentro do meu lar.

Vivíamos em uma comunidade pobre, que cultivava seus alimentos para subsistência. Cresci tendo ao meu lado a dor e o sofrimento, e era comum encontrar minha mãe chorando pelos cantos de nossa casa, mesmo passados dezenas de anos. Meu pai não demonstrava sentimentos, e se fazia firme diante de nós. Mas me recordo de uma tarde, onde acabei meus afazeres e fui para as montanhas, buscando uma erva que crescia naquela época, que curava as cabras de uma doença que lhes secava o leite.

E subindo entre as pedras e rochas, na busca dessa erva curadora, pude espreitar meu pai chorando, defronte a imagem do Senhor Budha. Ele soluçava, e perguntava em tom inquiritório, do porquede ter perdido seu primogênito.

Me escondi, pois não queria que meu pai soubesse que eu estava lá. Fiquei ouvindo o lamento de meu pai, que por mais de uma hora, se revoltava diante da estátua, enraivecido.

Fechei os olhos e comecei a lembrar do meu irmão, de quando ainda éramos pequenos brincando todas as tardes e noites. Lembrava que antes de dormir, meu pai contava as grandes historias que o mestre Gautama Budha ensinou. E que naquele momento, meu pai com ele se revoltava, questionando sua sabedoria e justiça.

Acabei dormindo e não me dei conta. Quando acordei, já era noite, e estava sozinho. Meu pai certamente já havia ido embora, e agora eu não podia voltar, pois a noite era escura, a lua estava encoberta, e os escarpados perigosos para uma volta às cegas.

Resolvi então passar a noite diante da imagem do Mestre Bhuda, pedindo a ele proteção. Aproveitei para pedir desculpas pelas ofensas e questionamentos que meu pai fizera pouco antes, e tentei explicar ou justificar o motivo, talvez tentando me desculpar por ele, amenizando a situação.

De olhos fechados, passei a entoar o mantra sagrado e do meu coração, tentei amenizar a dor dos meus pais, envolvendo-os numa luz de amor.

Passados alguns instantes, em meditação, senti a presença de algo que estava por detrás de mim. Não tinha coragem de olhar, pois logo imaginei que se tratava de um animal que naquele local iria me vitimar.

Meu coração disparou, e lágrimas escorriam dos meus olhos. O pavor tomou conta do meu corpo, e imóvel, apenas pedia que o Grande Mestre pudesse me receber em seu reino. Permaneci inerte por tempo que não sei precisar ao certo. Minha mente não raciocinava, e estava petrificado.

Chegou um determinado momento que não podia mais agüentar tal situação, e resolvi encarar o que me aguardava. As nuvens se abriram, deixando a luz da lua invadir a noite. E tomado de pavor, resolvi aproveitar a luz para ver o que estava me aguardando.

Respirei fundo e me virei. Fiquei por instantes sem entender o que acontecia. Via ali, em minha frente, o Mestre Sidarta e ao seu lado meu querido irmão. Por um instante pensei que havia morrido pelo animal que supunha estar ali para me atacar. Mas logo percebi que eu estava vivo, intacto. Me prostrei aos pés do mestre, e em seguida, abracei meu querido irmão. Pude sentir um grande alívio, onde meu coração naquele instante retornava à nossa vida de criança, antes do sofrimento passar a residir em nossa casa.

Meu irmão, depois de um longo abraço, disse:

- Querido irmão, nosso amado Mestre sempre nos ensinou que abaixo da iluminação, só há dor e sofrimento. Hoje você teve provas disso. A ignorância do desconhecido te levou a ficar horas inerte, sofrendo e apavorado. E desde o inicio éramos nós que estávamos aqui. A tua ignorância te levou ao sofrimento, mesmo sabendo que um dia tudo que nesta vida nos compõe se acaba, exceto o discernimento e o amor. Da mesma forma, vejo nosso pai, que a poucas horas atrás aqui estava, mas devido ao seu coração estar cheio de sofrimento e dor, não pode nos ver como você no vê agora. Pedi ao Mestre que permitisse que eu viesse encontrar com ele, e mesmo sabendo de tudo, ele permitiu.

Assim, meu encontro com ele foi triste e em vão. Ele preferiu esquecer o caminho da iluminação, seguindo assim os passos da dor e do sofrimento. Gostaria de dizer a ele que a minha enfermidade me serviu de porta, de passagem para um plano de iluminação. E hoje, mesmo estando longe da materialidade, continuo vivo e seguindo meu caminho.

Peço que conte isso para ambos, pai e mãe. Diga-lhes que os tenho com muito carinho e amor, mas que o sofrimento que ambos carregam cada vez mais os distanciam de nós.

Lembra-te que a iluminação se consegue durante e principalmente, quando da partida, pois é nessa hora que mostramos a nós mesmos se o que acreditamos é verdadeiro, ou apenas uma crença. Diga-lhes que a iluminação se consegue com resignação e amor. A revolta nos traz for e sofrimento, e nos distancia da iluminação.

O caminho do meio é o mais prudente, sempre. E pensar que fomos desamparados, por maior que tenha sido o agente do sofrimento é a maior prova da ignorância. Dito disso, eles se foram.

Já era amanhecer, e me dei conta que precisava voltar. Cheguei em casa e meus pais ainda dormiam. Quando acordaram, resolvi contar-lhes o que vi. Meu pai não acreditou a princípio, e ficou pensativo. Minha mãe chorou muito, e disse que em seu sonho, meu irmão havia lhe dito a mesma coisa.

O tempo passou, e nossa pequena aldeia fora invadida. Fui, junto com os demais, tomado como escravo, e meus pais por serem velhos, foram mortos com os demais naquela condição.

Passei o resto de minha vida servindo àqueles que me escravizaram, sempre lembrando da lição que meu irmão me dera. Resolvi me distanciar da revolta e indignação, aceitando o que o Grande Mestre Sidarta havia me preparado.

Ao atingir idade avançada, meus algozes me libertaram, pois já não servia aos seus propósitos. Pelos meus bons préstimos, não me mataram. Resolvi, então, voltar para as montanhas. E numa noite, voltei àquele local onde havia encontrado meu irmão e o Grande Mestre. A lua era cheia e a luz permeava a tudo.

Fechei os olhos para meditar. Após algum tempo, senti a presença de algo próximo a mim. Lembrei da vez que, quando jovem, isso aconteceu. Mas desta vez, não temi. Sorri e expandi meu coração, envolvendo a tudo que ali estava. Me virei para ver o que me esperava. E ali pude ver meu irmão, minha mãe e meu pai. E percebi que era hora de novamente formarmos uma família.

Com eles, atingi a minha iluminação. E até hoje trabalhamos juntos, procurando tirar do coração do homem a revolta, o sofrimento e a dor. Somente assim é possível encontrar a luz e atingir a iluminação.

Tien Tzu
Tzun Cheng

Discípulos do grande mestre Sidarta Gautama, o Budha Iluminado.
(Presente recebido por Fernando Golfar, em 23/11/2009 - Grupo Phoenix)

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