terça-feira, novembro 24, 2009

Espiritualidade, Arrogância e Letras

Difícil caminho percorri para chegar até aqui.

Não foi fácil ter acesso aos estudos espiritualistas. Apesar das muitas casas que conheci, poucas ofereciam no pacote informação e discernimento; bom humor e práticas de uso da teoria espiritual no cotidiano real. Nunca estive preocupado com o céu; pois o que sempre busquei foi uma forma de aliar a espiritualidade com o meu dia-a-dia, por essa razão, precisava estudar numa casa que me possibilitasse voar, mas que me trouxesse de volta ao chão, pois é com os dois pés na terra que devemos estar sempre, com estudos ou não.

Contudo, mas difícil, foi perceber em mim, que os anos de espiritualidade, ao invés de me deixar mais flexível, estava me deixando mais rígido, mais intolerante ao comportamento de quem não conhecia o que eu sabia; e assim, a arrogância foi se instalando no meu coração e comecei a me sentir como uma espécie de "escolhido". Com uma missão especial de salvar todos os meus amados, familiares e amigos ignorantes da Grande verdade que descobri.

E para complicar ainda mais a minha cegueira e aumentar o meu egão de superiniciado, foi me dado o dom da escrita e comecei a escrever sobre espiritualidade e outros assuntos relacionados ao mundo espiritual.

Com uma farta satisfação, logo compreendi, o poder da palavra escrita. Um texto jogado na internet era uma bola de neve que poderia levar muito esclarecimento para a grande massa. Não ví aí, no começo, um veículo sadio de informação, mas entendi isso como uma ferramenta efetiva de evangelização; e é claro, de salvação das almas de milhares de desconhecidos que não tinha tido acesso aos textos ocultos, as palestras e livros que me ensinaram a ser um grande espiritualista de plantão.

Somos todos evangélicos, no sentido original da palavra, que quer dizer anjo, ou mesmo mensageiro, aquele que trás a boa nova. Se ganhamos com a evolução (ou com a criação) o dom da palavra é porque deveríamos aprender a usá-la para o nosso bem estar e do outro. Toda pessoa que escreve ou se utiliza da palavra para veiculação de idéias, precisa ter claramente em sua mente o objetivo da sua preleção e o destino das suas idéias. Se a informação trará esclarecimentos ou será apenas um correio da má notícia é fácil saber com a repercussão da mensagem enviada. Essa repercussão nos dirá se escrevemos como anjos, ou como evangélicos, no sentido perjorativo que a palavra ganhou, ao descrever seguidores de alguma religião cristã que tenta convencer a sua verdade aos outros, não importando o quanto agressivos possam parecer.

É claro, que nem todo texto precisa ser poesia, mas quando escrevemos para um público espiritualista e visamos o esclarecimento, é fundamental entendermos que há pessoas que estão nos lendo que já sabem interpretar as entrelinhas, porém, há outras ( a grande maioria) que podem ser afetadas para o bem da sua caminhada ou desvirtuadas por intenções nebulosas que colocamos por trás das nossas letras.

Lembro de meu grande amigo Luis Medeiros certa vez dizendo que "só podemos tirar a fé de alguém se colocarmos coisa melhor no lugar"; e foi depois de muita cabeçada e de uma trilha de inimizades deixada em nome da minha verdade, que aprendi a moderar a minha linguagem e freiar meus impulsos de convencer alguém das minhas verdades.

Curioso é o fato de que quanto mais prática eu faço, mais percebo que o que defendo é relativo ao momento em que vivo; há excessões, contudo. Sempre defendi o respeito (mesmo antes do começo da minha caminhada espiritual) e sempre vou defender. Respeito, no sentido de compreender a minha própria ignorância frente ao diferente, ao que não consigo compreender totalmente. Respeito, no sentido de aceitar que eu também tenho os meus preconceitos e se não consigo calá-los, tento ao menos filtrá-los para que não apareçam em meus textos. Já basta os escritores do apocalipse que há em revistas semanais, na internet e em livros best-sellers. Respeito, no sentido de garantir o direito de qualquer pessoa seguir a sua religião ou crença, da forma que for, com o ritual que lhe for mais apropriado, mesmo que envolva símbolos ou substâncias, que temos as nossas razões pessoais para ser contra.

Todos temos as nossas linhas de atuação. Alguns constroem, outros desconstroem; alguns escrevem crônicas, outros poesias; mas de uma maneira ou de outra, trabalhamos pelo coletivo através de nossos escritos, daí a importãncia de usarmos a nossa inteligência a favor da luz e evitar ao máximo cair nas armadilhas da arrogância.

Podemos aprender com todas as linhas. Quem fala mal de uma trilha ou de outra, está praticando qualquer coisa, menos a informação, o respeito e o discernimento. Podemos alertar os que estão começando agora sobre os perigos da caminhada, mas não podemos afungentá-los com argumentos baseados em certas experiências espirituais que nos foram danosas.

Quando o assunto é espiritualidade, todos nós, que já engatinhamos um pouquinho sabemos, que tudo é muito subjetivo. O que serve para um, não ajuda outro; o que guia uma massa, para outro alguém pode fazer o oposto. Isso vale para qualquer coisa na vida, relacionamento, vida profissional e deveria valer ainda mais em relação a escolha que cada um faz com a sua vida espiritual.

Estou ainda aprendendo a escrever. Posso dizer, porém, que recebemos feedbacks proporcionalmente ao que escrevemos. Há textos, que transbordam luz, outros explodem em discernimento. Porém, há coisas que escrevemos que só causam discórdia, motivos para discussões desnecessárias e deixam um rastro de arrogãncia que não condiz com quem somos de verdade.

Difícil caminho percorri para chegar até aqui e para escrever sobre isso para vocês. Espero não pecar por arrogância, e mesmo que muitas pessoas achem que escrevo texto para crianças; eu fico com a leveza, como dizia o Gonzaguinha, das respostas das crianças, pois a vida é muito bonita para eu pregar a intolerância.

2 comentários:

Sonia Beth disse...

Gostei!

Luciene disse...

Sincero e tocante...
Parabéns.

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