sábado, agosto 22, 2009

Minha noite com a Jurema

Por Ricardo Kelmer
08 Jun 2007 - 09h10min

Em 1999 participei de um ritual no Santo Daime, com a Ayahuasca. Foi uma experiência intensa e reveladora - mas extremamente difícil, que exigiu muito de mim, física e psicologicamente, durante várias horas. Dia seguinte, ainda assustado, estava convicto que jamais me meteria com isso novamente, que o melhor era que meu interesse por estados especiais de consciência ficasse apenas nos livros e filmes.

Mas mudei de opinião após refletir bastante sobre tudo que me ocorrera. Entendi que esse tipo de experiência podia, de fato, me ajudar a entender melhor a vida e a mim mesmo. Concluí que alguns fatores me impediram de aproveitar melhor a oportunidade, como o orgulho, as regras e filosofia da seita e o medo de perder o controle. Eu precisava de outra chance. Estava disposto a tomar novamente o chá e empreender nova viagem ao interior de mim mesmo. Porém, só tentaria novamente se fosse fora do ambiente das seitas.

A oportunidade chegou no ano seguinte: o convite de uma amiga antropóloga para participar de um ritual xamânico com o chá de Jurema, outra planta psicoativa, que cresce no semi-árido nordestino e é usada por tribos indígenas em rituais religiosos. Aconteceria na casa de um seu amigo, também antropólogo, e seria algo mais descontraído e desvinculado de dogmas - que normalmente compõem as seitas que utilizam chás de plantas de poder.

Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas.

Sim, sei perfeitamente que afirmar isso soa como atentado à racionalidade. Mas não me importo. Aprendi definitivamente nessa noite que o que chamamos razão é apenas uma das ferramentas humanas para apreender a realidade e que ela, a razão, deve ser descartada em certas situações onde precisamos ampliar a percepção da vida. Se nessa noite eu insistisse para que meu lado racional se mantivesse no controle dos fatos, repetiria o mesmo erro da experiência anterior, com a Ayahuasca, quando usei a orgulhosa razão durante horas, num esforço ingênuo, inútil e muito doloroso, tão-somente para barrar o curso natural da experiência. A racionalidade é vital para a vida, sim, mas infelizmente ela se convenceu que a realidade deve ter seu exclusivo carimbo para poder existir.

Nessa noite de 2000, uma hora após ingerido o chá de Jurema, eu estava deitado tranquilo e confortável no sofá da sala e experimentava um intenso fluxo de idéias que se sucediam sem que eu tivesse total controle sobre elas. Foi aí que senti uma forte presença e entendi que se tratava da própria planta, ou melhor, o espírito da planta. Evitando racionalizar sobre o que me ocorria, logo percebi que deveria deixar que a própria Jurema me conduzisse pela experiência e isso significava confiar inteiramente no fluxo natural das idéias e sensações, abdicando de qualquer controle racional sobre elas. Então fechei os olhos e soltei-me das últimas resistências. Mesmo um pouco temeroso ainda, depositei toda minha confiança na estranha força feminina que se apresentava e que em seguida, como se apenas esperasse minha concordância, passou a me conduzir pelas mais diversas idéias, sensações, sentimentos e revelações.

Mal a Jurema se manifestou fui tomado de um imenso respeito por ela, uma reverência que jamais sentira em minha vida. Entendi logo que ela era sábia e poderosa, além de muito, muito antiga. E era bastante amorosa, sem deixar de ser dura quando necessário. Ela não falava, pelo menos não como entendemos o “falar”, mas eu me sentia inteiramente envolto pela grandiosidade de sua presença como, imagino, um peixe “sente” o mar, e era através desse sentir que se processava a comunicação, através da minha mente e também do meu corpo. Eu me sentia protegido e muitíssimo grato por ser tocado por sua imensa sabedoria e generosidade. Se abria os olhos, essa comunicação perdia a força em meio às tantas informações do ambiente - por esse motivo mantinha-os fechados e bastava isso para me sentir novamente amado, compreendido e protegido pela espírito da Jurema.

Durante as quatro horas seguintes o espírito da planta esteve bem presente, me conduzindo, com firmeza mas amigavelmente, por um corredor cheio de portas. A cada porta que se abria eu me deparava com uma nova experiência interior, vivenciando sensações, idéias, sentimentos e revelações importantes sobre minha vida, meus relacionamentos, meu trabalho. Houve momentos de alegria e êxtase mas também momentos de tensão em que me vi forçado a encarar e repensar questões delicadas de minha própria personalidade. Houve também um momento em que me deparei com uma porta e nesse momento fui tomado de um terror nunca antes sentido. Eu não sabia o que me esperava além da porta mas sentia que era algo terrível. Então implorei à planta para me dispensar daquela experiência, fosse qual fosse. Para meu imenso alívio ela me atendeu. Anos depois é que compreendi o que havia além da porta e que eu tanto temia: era a experiência do amor, do qual durante muito tempo em minha vida eu fugi e fugi. Mas isso é outra história...

A Jurema mostrou-me também a urgente necessidade de respeitarmos o planeta e de cuidarmos dele e nesses momentos o espírito da Jurema era o próprio espírito da Terra. Em vários momentos me emocionei e chorei baixinho. Sem dúvida, foi a experiência mais intensa e mais incrível que vivi em minha vida.

Pela manhã não consegui dormir, ainda eufórico. Sentia-me renascido, mais vivo e disposto do que jamais fui, maravilhosamente bem. Era como despertar de um longo sono.

A experiência dessa noite me transformou em outra pessoa. O senso de estar atavicamente ligado à Terra trouxe-me uma notável segurança e tornou-me mais confiante e tranquilo, ciente de minhas origens e de meu papel no mundo. Minha vida ganhou um novo sentido. É difícil explicar mas algo deslocou-se dentro de mim, mudando para sempre minha noção de quem sou eu, minha relação com o mundo e também minha noção do que é este planeta. Entendi que tudo tem uma espécie de consciência e que é possível se comunicar com animais, plantas e minerais e aprender com eles. Como, porém, esta comunicação não se processa no nível da racionalidade, é muito difícil para o intelecto aceitar tal fato, preferindo tratá-lo com desdém e descartá-lo como fantasia, superstição ou patologia.

Mas para mim não há dúvidas. Nessa noite abri minha alma para a sabedoria da Jurema e, através da planta, reconectei-me à minha verdadeira origem, à força sagrada que me gerou e que me nutre dia após dia: a Terra. Senti a imensidão de seu amor e me surpreendi por ter vivido tanto tempo sem senti-lo. Em termos junguianos, poderia dizer que vivi uma profunda experiência com o arquétipo da Grande Mãe, sendo envolvido por sua imensa força e vivenciando-o em ambas as polaridades, positiva e negativa, êxtase e terror. Mas nesse momento dispenso quaisquer explicações científicas, preferindo ater-me ao que, de fato, vivi, ou seja, um encontro com o espírito da Terra, essa mãe generosa e compreensiva que ama a todos os filhos, mesmo que eles tenham esquecido de onde vieram e o que devem fazer. Mas ela alerta: o preço que o filho pode ter de pagar por esse esquecimento é a sua própria destruição.

Os antigos já sabiam e os cientistas de hoje já reúnem provas: a Terra é um imenso organismo vivo. Além disso é dotada de um tipo de autoconsciência que ainda não entendemos bem, dona de um avançado senso de auto-regulação bioquímica e capaz de se comunicar perfeitamente com tudo que nela existe, inclusive os seres humanos. Animais, vegetais e minerais, tudo que há na Terra são como células de um corpo que precisam estar em harmonia para que o todo funcione bem. Infelizmente as células chamadas humanos cortaram a ligação espiritual com sua origem e se desconectaram do todo, passando a se entender como algo separado. Essa ilusão tem causado terríveis problemas ao organismo inteiro, principalmente à espécie humana.

Plantas mestras como a Jurema têm o poder de despertar as pessoas. Mas entendo o medo que a maioria tem de largar sua racionalidade e saltar no escuro de suas próprias possibilidades espirituais. Entendo também o pavor que as religiões cristãs têm da Natureza, sempre demonizando-a. No fundo, é o velho medo de ser livre. Porém, já que isso ocorre, seria maravilhoso se ao menos educássemos nossos filhos no respeito sagrado à Natureza e eles entendessem que a Terra é nossa casa. Ensinar isso já seria uma forma de lhes deixar um mundo muito melhor.



Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3a. pedra do Sol


Para ler este texto no site do autor: http://blogdokelmer.wordpress.com/

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