quarta-feira, julho 22, 2009

III: O que é meu? O que é dos outros?



O Auto da Piedade
Sete Atos de Consciência

Ato III: O que é meu? O que é dos outros?

Estou na cama do hospital de novo. Olho para o teto branco, choro de alívio. Tudo não passou de um pesadelo. Se eu bem me recordo, eu estava no mundo branco, meio surtando, e você apareceu me lendo e lembrando-me como rezar:

" Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto viverá"

Yes, valeu Jesus, viva a fé!

Sim, a fé! O que seríamos sem a fé? A certeza é perigosa, é vivedouro de bicho-fanático; esses bichos que se auto-explodem ou tentam nos converter a força para a luz que só ele enxerga.

Estou no hospital, jamais pensei que estaria tão feliz em estar naquele lugar. Agradeço ao Deus de todos, oro uma Ave Maria Santa Ave e daí percebo que não estou mais amarrado. Levanto da cama e observo o quarto: não há quadros na parede, apenas a cama, uma janela com grades e uma porta aberta.

Levanto e saio do quarto, não há ninguém por perto. Ando pelo corredor e vejo dezenas de portas que dão acesso aos outros quartos, onde estão os outros pacientes e eles estão dormindo. Enfim, percebo alguém, é um enfermeiro. Fico tão feliz em vê-lo que corro ao seu encontro e grito: OLÁ!
Ele não me vê, não me ouve.

Não preciso ser um Einstein, para perceber que estou morto e virei uma espécie de fantasma, vagando pelo lugar que foi a minha última morada.

Como tudo é relativo, e pode ser que o enfermeiro é que seja o fantasma; faço o teste final e a minha mão atravessa a parede do corredor.

Sim, eu sou! Onde está a Demi Moore?

Poderia ser pior, ao menos eu saí daquele mundo branco e sei que daqui a pouco, aparecerá a famosa luz que me transportará desse lugar.

Basta esperar...

Enquanto isso, vamos bater um papo?

Sim, vamos conversar! Como assim, não é possível você conversar comigo? Você pensa o quê? Que sou apenas um monte de letrinhas na sua telinha? Eu tenho vida, ok? Posso não ter mais um corpo, mas continuo! Duvida? Olha pra trás!

Ah, pegadinha do ghost!!!

Ok, vamos discutir a nossa relação! Eu letrinhas, você leitor...

O que você quer saber?
Por que quis ler essa mensagem?
O que acha que vai encontrar dentro desses escritos?
Você acredita mesmo que continuamos a viver depois da morte?
De onde você tirou essa idéia?
É uma idéia nova ou você pegou emprestada?
E se eu continuar além da morte e você não?
E se o além for diferente para cada um?

Veja bem, não quero te provocar, estou apenas puxando papo, afinal, sobre o que mais poderíamos falar?

Acredite, estou tão confuso quanto você!

Vamos fazer o seguinte: eu atravesso o tal do túnel de luz e depois retorno para te contar o que ocorreu. Combinado?

Sim, está dando certo, estou vendo uma luz saindo do teto com todas as cores do arco-íris; e essa luz está descendo em espiral e vindo na minha direção. Consigo notar além do túnel de luz, alguns vultos de parentes que morreram há tempos e sinto um grande amor me envolvendo. Vou atravessar esse portal e cruzar para o lado de lá.

Adeus Terra! Adeus, você! Obrigado por ler até aqui...

Fecho os meus olhos, e espero ser levado.

Um, dois, três e nada!

Já vou ser levitado...calma! É só esperar um pouco mais...

Um, dois, três, três e meio...três e quarenta e cinco... e nada!

MAS O QUÊ?

O QUÊ ESTÁ ACONTENCENDO?


Por que não está funcionando? Por que nada acontece?

Estava no livro! Ouvi na palestra!

Então, abro os olhos e tudo está claro de novo. Voltei ao mundo branco.

Por que não fui levado? Por que não aconteceu comigo o que supostamente ocorre com todo mundo?

Virei alma penada? Vou precisar pagar o pedágio da alma e viver um tempinho nessa escuridão clara?

C´mon! Não é justo, eu sou do bem!!! Não é legal me deixar aqui cego novamente, sem ver nada além desse espaço infinito sem referência, sem cor.

Tenha piedade!!!!

Bem, pensando bem, aquela experiência no hospital não era muito a minha praia; e começo a desconfiar que ela não era uma vivência minha, e sim, a sua, leitor.

Sim, você influenciou as minhas letras, conduziu-me para a sua crença de pós-morte. Afinal, eu sou o que você lê. Uma página em branco na sua leitura de mundo, na sua crença de imortalidade e espiritualidade. Uma tela branca que você vai preenchendo com os seus símbolos, as suas verdades.

É estranho, mas eu apenas existo dentro da sua cabeça, assim como qualquer outra coisa.

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