quinta-feira, julho 02, 2009

Caminhos de São Paulo: Oeste


CAMINHOS DE SÃO PAULO
OESTE: Nossa Senhora da Lapa – Sé

SURPRESAS NA CAMINHADA

Mirei na Lapa e acabei na Unifai. Sai de casa em direção ao Caminho do Oeste, tinha traçado a rota Rebouças-Pinheiros-Lapa, até que vi numa placa: “o seu diploma já está pronto. Basta vir pegar!”. Era uma propaganda de uma dessas faculdades novas, mas também um aviso pra mim.

Dezembro - 2008

Em meio a correria de ter voltado a um antigo emprego e ter que reaprender o que eu tinha feito questão de esquecer, precisava sobreviver a semana de provas finais. Corro de uma sala a outra, matéria por matéria. Algumas sei de cor, outras vai mesmo no decoreba.

Prova de Português

O suor desce pela testa e a gota cai na prova, a tinta da caneta borra e eu respiro fundo. Estudei tudo, mas não lembro de nada. Branco total. Português é a única matéria que devo pontos, preciso de uma média alta, senão...Sesim! Lembro de algumas coisas, rabisco respostas, adivinho outras. Busco as forças do astral, faço pactos com todos os demos do aprendizado: preciso passar, quero as minhas letras.

Saio da sala com o pé ocupado com os piores temores. Já não ando, rastejo, até que duas semanas depois, recebo a resposta: acertei tudo! Sou um Professor das Letras.

Comemoro, grito, embebedo-me com iorgute. O diploma só sairá dali à alguns meses. Não tem problema, espero. E espero!

Vou mil vezes a faculdade, e assino isso, pedem aquilo, assino mais isso, é preciso esperar, espero. E esqueço!

MOMENTO AGORA

Estou na Paulista, quando vejo a mensagem numa placa. Mudo meu trajeto e vou para Santa Cruz a pé. No meio do caminho, penso nas Letras e em como desejo compreender bem como a linguagem é absorvida pela nossa mente. Quero me especializar em linquística ou qualquer outra ciência que estude a fundo o processo de aquisição de um outro idioma. Penso em meu amigo Lázaro, talvez ele possa me ajudar: ele conhece bem desses assuntos da mente, é Psicanalista, estuda filosofia, talvez possa me indicar alguns livros, filmes, um por onde começar.

Uma hora dessas ligo pra ele.

Vou caminhando e pensando em meu destino de professar e em como brigo com esse meu dom, fico arrajando desculpas para não lecionar: dinheiro, status, a segurança de um emprego com carteira assinada e no final não faço opção alguma, fico na estrada.

Chego rapidamente a Unifai Vila Mariana, passo pela catraca com um crachá de visitante e dou de cara com o Lázaro. Ouço o Deus das Coincidências rindo, um sacana que adora aprontar com esse peregrino.

Cumprimento o meu amigo e combino com ele um almoço qualquer em algum desses dias que ele esteja livre. Desprezo a mágica do acaso. No meu universo: ele está lá somente para conversar comigo e não fazendo as provas do seu curso de filosofia. Despeço-me e vou até a secretaria e descubro que sim, o diploma está pronto, mas eu preciso ir até o Ipiranga, na outra Fai, pois é lá que fica o setor de diplomas. Saio da secretaria zangado, não consegui o diploma e perdi a oportunidade de conversar com o Lázaro, mas para a minha sorte, ele ainda está lá, escrevendo em seu “palm” mensagens sabe lá deus pra onde.

- Cara, precisamos conversar, vamos tomar um café? – eu convido.

- Vamos! – ele responde sem hesitar – Te levo lá na outra Fai e tomamos o café por lá.

Esse cara não existe, penso comigo, e o sigo até o estacionamento, e enquanto isso, conversamos sobre filosofia, psicologia e linguagem. Agradeço ao Deus Sacana das Coincidências.

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DOIS PEREGRINOS

Chegamos na Unifai Ipiranga. Vou até o setor de diplomas e peço a uma moça com traços orientais que procure pelo meu nome. Ela encontra e pede que eu confira: tudo está certo!

O meu sorriso se abre por todo o horizonte do meu rosto, saio do setor de diplomas com uma alegria transbordante. Lutei por aquele pedaço de papel, estudei por anos para conseguir ter o direito de brincar com as letras e ser oficialmente reconhecido por isso. Eu Sou.

Lázaro sorri, percebe o meu contentamento e nos abraçamos.

Fico feliz por não estar sozinho. Queria realmente compartilhar aquele momento com alguém querido. Agradeço uma terceira vez ao Deus Sacana.

Lázaro tira foto do graduado sorridente.

Tudo parece irreal, a minha classe inteira recebeu o diploma na formatura oficial, eu não fui, estava trabalhando; mas naquele momento, eu estava obtendo a minha cerimônia de formatura com o meu amigo. Não precisava de beca, nem de festa, apenas estar presente ali, com alguém que soubesse o quanto especial era aquela pedaço de papel pra mim. Meu amigo sabia e seu sorriso de contentamento era a sua maneira de dizer isso pra mim.

Há dias em que você se sente tão completo que se só tivesse esse dia para viver, você partiria feliz. Foi assim para mim aquela quarto dia de caminhada.

Algum tempo depois, não só tomamos o café como almoçamos juntos. O papo não tem fim. Aprendo um tantim sobre os grandes filósofos, Lázaro me recomenda filmes, livros, ensaios. Conheço a sua clínica, próximo do metrô Ana Rosa, um lugar de tanta calma e luz, que dá vontade de ficar conversando com ele lá por toda a tarde, mas precisava voltar para a caminhada. Tinha mais um trecho de caminhada por fazer e para a minha surpresa, ele quis caminhar comigo.

Eu já não era o peregrino solitário, éramos dois agora, os Caminhantes de São Paulo, descendo em busca da Liberdade de ser, questionar e discernir. Discutindo espiritualidade, psicologia, linguagem e viagens. Falamos sobre amor que vira bola de luz saindo do peito, e sobre o direito que temos em raciocinar sobre os absurdos em nome do amor, da amizade e do Divino. Conto pra ele a razão de toda aquela caminhada; ele acha graça, dizendo que o meu caminho agora era o caminho dele também. Diferentes símbolos, mesma busca. Rimos e dessa vez agradecemos juntos ao Deus Sacana das Coincidências.

Por um momento ou dois, que quase passa desapercebido, vejo o Divino refletido nos olhos do meu amigo.

Lembro das palavras do escritor Alex Alverga:

" O jogo da vida, em seus vários planos, é o de um espelho onde um Eu olha e vê refletido o seu avesso, que é um outro mesmo Eu que está, simultaneamente, tendo consciência de nós, e nós dele."

Alguns buscam a extrema solidão para encontrar no silêncio, o Sagrado. Eu optei pela companhia das pessoas e por calar a quietude com uma boa conversa; e para a minha surpresa e alegria, encontrei o Divino no outro, se avatavando na palavra dita por meu companheiro de caminhada que peregrinava comigo, sem querer nada em troca, sem segundas intenções, sem julgamentos sobre a minha insistência em acreditar que São Paulo também era uma cidade sagrada.

Chegamos em fim ao centro da cidade e nos despedimos. Eu agradeço a ele pela companhia; ele me agradece por essa crônica.

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