sexta-feira, julho 03, 2009

Caminhos de São Paulo: Oeste - Parte Final


Caminhos de São Paulo: Oeste
Parte Final


CHEGANDO

Deveria ter ido para a Lapa, acabei na Igreja da Unifai com um diploma na mão e a recompensa no peito. Os Caminhos de São Paulo tem dessas coisas.

Não existe trilha certa. Às vezes, saímos mesmo do percursso, pulamos trechos, nos extendemos em certas partes da trilha; ameaçamos desistência, xingamos o Dono do Caminho, e reiniciamos com cajado novo essa nossa busca do Divino.

O importante é seguir em frente, isso foi o que me disse, um peregrino, ontem, na cafeteria do albergue, seu nome era Nelson. Tomamos café e discutíamos sobre as nossas buscas. Eu e as minhas infinitas dúvidas, mesmo já tendo experienciado tanto e ele com a sua infinita fé, mesmo sem ter visto nada.

- Acho que sou míope para as coisas do Divino - dizia ele - Mais mesmo não vendo, sei que estou na passada certa e isso pra mim basta.

- Para mim não, Nelson. Eu preciso ver o que há atrás da cortina, conhecer o segredo da mágica, acho que faz parte da minha natureza.

- Cada um com a sua natureza - diz ele e dá rizada - O importante é fazermos a caminhada bem feita, seja ela qual for.

Foi pensando no Nelson, no Lázaro e em tantos outros peregrinos que cruzaram o meu caminho,que coloquei o pé na Praça da Sé. O local estava lotado, as usual, mas havia algo diferente: o meu olhar.

Sempre ví a Sé como um laboratório de mendigos e um dos mais arriscados locais para se estar em São Paulo, mas não aquela tarde. O sol batia dourado em suas árvores e a Catedral da Sé parecia Santiago de Compustela.

Tinha começado há quatro dias uma caminhada que parecia ser uma loucura, mas resultou em mais uma grande experiência sagrada. Eu provara para mim mesmo que São Paulo poderia ser um local de peregrinação, um destino para a fé, uma fonte espiritual.

Centenas de peregrinos chegavam, pessoas comuns que veem na Sé, um local sagrado, um destino para as suas preces, no coração da Grande Megalópole.

Naquela tarde, em outros cantos da cidade, indo para as suas casas, havia outros milhares de caminhantes, que mesmo em meio ao cinza da cidade grande, esboçavam um sorriso de contentamento no rosto, com a certeza de ter feito o melhor que puderam para garantir o pão de cada dia, o leite dos filhos, a água fluente em suas pias.

Cada morador de Sampa que insistia em construir um caminho honesto e ao mesmo tempo contribuir para com os outros era um Peregrino da Luz. Conheçia muitos deles, que mesmo cansados, depois de um dia longo de trabalho, podendo estar em casa vendo TV, optava por contribuir com os menos afortunados. Seja em preces em casas religiosas ou trabalhos voluntários por essas ruas escuras e cheias de gente necessitada, sempre há um desses Peregrinos, fazendo algum trabalho espiritual para os seus semelhantes.

Quando cheguei ao ponto inicial da minha caminhada, onde há a Pedra dos Caminhos, indicando as quatro direções para fora da cidade, orei por todos aqueles peregrinos, pedindo aos Santos, Orixás, Devas e Seres Divinos para abençoar a estrada de cada um.

Então, escuto os sinos da Igreja e lembro de uma bela canção de Chandra Lacombe:

" Na noite escura
Brilha uma estrela
Guardo o seu brilho em meu olhar
No coração trago a verdade
Fogo que arde
Pra me lembrar

Sigo essa luz
Vou caminhando
Já não importa onde eu chegar
Dentro do peito
Bate a certeza
Que tráz firmeza
Pro caminhar

Vou caminhando
Vou com atenção
Em cada passo
Há uma lição

A experiência tráz consciência
Que me liberta da ilusão

Com a mente quieta
Sigo adiante
Basta um instante pra revelar
Já não sou eu o caminhante
É Deus em mim a caminhar"



A Caminhada está chegando ao fim..

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Missa de Encerramento de Caminhada
Praça da Sé


Assisto a missa com atenção. Engulo meu preconceito e todas as coisas que não concordo e que estão sendo ditas na missa. Estou ali pelo rito, pelo símbolo e o seu significado para a minha caminhada.

Na hora do sacramento, os fiéis comem suas hóstias; eu como uvas passas. Penso em tudo o que aprendi nesse dia. Recordo as conversações com o Lázaro e lembro da importância de estar presente seja lá no que for que eu dedique a minha consciência. Por isso estou ali, assistindo uma missa do começo ao fim, depois de ter criticado por décadas quem frequentava esses lugares.

Lázaro aparece ao meu lado e me lembra:

" As pessoas vão até a Índia para visitar o templo de Kali e tem uma profunda vergonha e preconceito da Catedral de Nossa Senhora Aparecida. Ora, se elas fossem mesmo espiritualistas saberiam que Kali ou Aparecida, todas são máscaras da Mãe Divina."

O padre puxa uma Ave Maria, todos rezam, eu acho graça. Qual é mesma a diferença entre:

"Jay Ma, Jay Ma, Jay Durga"
E
"Salve, Salve Rainha"

Acho interessante a lógica caindo junto com a ficha. Fico rindo. Não estou me convertendo ao Cristianismo, mas que ridículo é descobrir que somos aquele filho que só acha bonito o quintal do vizinho.

A missa acaba, ponho o meu chapéu na cabeça, pego o meu cajado e vou-me embora. Se eu tiver sorte o albergue estará ainda aberto e quem sabe aquela moça de olhos cintilantes não esteja por lá com pão e vinho.

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