terça-feira, junho 02, 2009

PASSEIO PELA FLORESTA III


E nadei como se soubesse, mergulhei como se não tivesse medo e despenquei da cachoeira, rumo ao mar e fui sendo carregado por sereias que repetiam um único som:


oxummmmm, oxummmmm, oxummmm.

E fui sendo levado para o mar, e quando a água doce encontrou a salgada, vi a Deusa se manifestando em palavras:

“ Bem vindo, peregrino das letras!”

Era Yemanjá
Notei o som do vento assobiando em meu ouvido:

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

E vi a forma do vento, era de um poeta de muitos dentes e óculos, com um olhar apaixonado que ainda disse:

Estou voltando para Passárgada
Passa por lá, peregrino,
Quando quiser tomar um cafezinho
E conversar

Prometi que iria, mas voltei a minha atenção a Deusa, que pacientemente, parecia ter sempre estado por lá a me esperar.

Era a Rainha.

A Grande Mãe Divina, bem a minha frente

E ela era tão real que eu nunca mais duvidaria que ela poderia existir.

E eu não era o único, havia outros tantos peregrinos, um deles, parecia um xamã, seu nome era Léo e ele cantava assim:


“Luar se fez um raio prateado
Iluminando o céu e as espumas do mar

Lindo clarão a beira mar
Vejo mamãe Yemanjá

Lá vem, Lá vem, junto com suas sereias
Nos abençoar rainha Yemanjá
Dona das águas tu és mãe
Oh Janaina Odo Yá"

Iluminai minhas profundas águas
Para eu decifrar mistérios de meu mar

Nesse meu mar de emoções
Rainha vem iluminar"

Muitos eram os peregrinos que vinham prestar homenagens a Rainha do Mar.
Havia um grupo que se chamava Filhos do Sol e eles cantavam assim:

Lua branca e formosa
da Terra és dona
Senhora das marés
Senhora das colheitas e dos animais
Lua prateada dos mistérios
Me responda

Senhora dona das ondas cerebrais
Dona da transcendência
Da transferência
A minha existência
Peço-vos, Senhora

Ilumina, ilumina

Pérola sensível, coroada de estrelas
Senhora das três passagens
Que multidões domina

Ilumina, ilumina


No outro lado, havia um outro xamã e músico que tocava um instrumento bem pequenininho que produzia um som maravilhoso de ninar. Seu nome era Chandra e ele disse para mim que tinha um recado para me dar:

Recado da Mãe Divina

Vem surgindo um novo tempo
Traz glórias do Divino
Mais puros e atentos
Nos tornamos escadas do Infinito

Mãe Divina eu quero ser
Um filho realizado
E é perante o seu poder
Que me entrego para ser libertado

Como um rio que corre para o mar
Correntezas carregam o medo
Confiança para atravessar
A fronteira do eu derradeiro

Não há desculpas para se escorar
Já foi dito a hora é essa
O tempo é de se entregar
Abraçando o que ainda resta

Estou morrendo para o passado
E nem anseio pelo futuro
Minha coroa tem brilho dourado
Provo o néctar do amor maduro

“Esse é o recado, amigo peregrino – disse ele – ouça com o coração e seja um ser humano, pois só somos realmente humanos quando amamos e é amando que somos seres divinos.”

Agradeci pelo recado e depois que me despedi do Chandra e da Divina Mãe; uma gaivota veio me chamar:

- Hora de voltar a usar essas velhas asas!

Aceitei o convite e fui voar.

Era meu velho amigo Fernão.

- Fernão Capelo Gaivota, há quanto tempo!!! – eu disse vendo meu amigo voando e me olhando.

- Pássaro Preto! Senti sua falta também!

- Pode me chamar pelo meu nome! – eu disse.

- Certo, Frank! E você pelo meu.

- Como vai, Richard?

- Vou bem! Só um pouco preocupado com você.

- Mas nunca estive tão bem!

- Esse é o problema! Se lembra do amigo Rubem Alves: “Ostra Feliz não faz pérola.”
Você finalmente encontrou o caminho para o UM, mas está meio perdido, por isso vim voar com você.

- Mas estou bem, reallyyyy!!!!

- Claro que está! Mas deixa eu te dizer algo:

“ Tudo o que você aprendeu
Pode estar errado!”

Ainda assim, vale a pena voar, deixar o mistério te surpreender. Abraçar o amor, mesmo que não dure para sempre e ai é que está a piada do seu amigo Borges, tudo tem graça, até a disgraça. Tudo é mudança e o Grande Pássaro e a Grande Ave, sabem muito bem o que fazem, e compreenda: não tente compreender, apenas observe, ria e escreva. Como diz a xamã Ana Vitória:

Silencie a MENTE
Que é ENTE que MENTE
Receba, as Santas Lições
NÃO queira A-PRENDER
Mas Re-TER, para SER
Olha, Frank, a lição do Vaga-lume:

A alegria é a nossa companhia
O amor é a nossa proteção
Mil vaga-lumes iluminam o caminho
Com tantas luzes que não há escuridão...

...Acompanhado destas luzes tão pequenas
Que iluminam apenas os meus pés
Olho e vejo os vaga-lumes
Fazendo a sua parte
com o que Deus lhes deu

Tudo é mudança, meu amigo, e se acostume com isso, pois

Aqueles que não amam a mudança não são, verdadeiramente, visitantes da Terra.

- Obrigado, Richard! – respondi, e pousamos no alto de uma montanha.

- Quanto às letras? Relaxa!!!

Para ser um escritor, meu amigo, é ser como o vinho. Quanto mais bem cuidado, maturado, guardado, mas chances dos seus escritos se tornarem os melhores vinhos desse mercado mundo.

“ Quem não vê bem uma palavra
Não vê bem uma alma”

- Isso é seu?

- Não, É do Pessoa.

- Bacana, não vou esquecer!

- Claro que vai, mas ao menos se lembre: “Seja Realista: peça o impossível!!!”

- Isso é seu?

- Não. É daquele autor: o Anônimo!

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