quinta-feira, junho 18, 2009

Cantiga de Malazarte

Por Murilo Mendes


Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,

ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.

Não desprezo nada que tenha visto,

Todas as coisas se gravam para sempre na minha cachola.

Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,

Destelho as casas penduradas na terra,

Tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.


Desloco as consciências,

A rua estala com os meus passos,

E ando nos quatro cantos da vida.


Consolo o herói vagabundo, glorifico soldado vencido,

Não posso amar ninguém porque sou o amor,

Tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos

E a pedir desculpas ao mendigo.


Sou o espírito que assiste à Criação

E que bole em todas as almas que encontra.


Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,

Nada me fixa nos caminhos do mundo.


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