quarta-feira, junho 24, 2009

Caminhos de São Paulo: Parte II


LONGE

Na minha cabeça, seria bem fácil chegar na Frequesia vindo do Tietê a pé, e cometi o primeiro e o segundo pecado mortal de um homem peregrino: aceitei o fato que estava perdido e pedi informação.

Parei numa banca de jornal. A dona, uma mulher com cara de poucos fregueses, me respondeu bom dia como se eu estivesse a xingando, mas arrisquei a pergunta assim mesmo:

- A senhora poderia me informar como chego até a Igreja Matriz da Freguesia do Só?

- Fica longe! – respondeu a mulher – Fica muito longe.

- Obrigado! – respondi de volta, e segui meu caminho, sem saber onde ficava a igreja, mas sabendo que ficava bem longe.

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A PÉ

Paro numa padaria e peço um café, o moço me serve a bebida num copinho de pinga (queria matar o português que inventou esse negócio de servir cafézinhos e pingados em copinho de vidro e não em xícaras, será que o cara não compreender que café quente e copo de vidro queimam dedos?).

Há um senhor lendo o jornal ao meu lado, meio sem jeito, arrisco a pergunta:

- Fica muito longe a Igreja da Matriz da Nossa Senhora do Ó, senhor?

- Uns 10 minutos de carro.

- É que não estou de carro...

- Então, fica uns 25 de ônibus.

- É que estou a pé.

- O ponto de ônibus é logo ali.

- É que quero chegar lá a pé.

- Por quê? Ficou louco? Ninguém vai a lugar nenhum a pé!

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O LOUCO DE SAMPA

Sim, eu decidi fazer aquela caminhada aqui em Sampa. Louco? Loucura nada, já dizia o Jorge lá do Rio, o Vercílio:

“ O mundo inteiro está guardado em mim”

Eu concordo com ele, o segredo do aprendiz é caminhar dentro de si. Eu já tinha percorrido o mundo inteiro atrás do Divino, por que não tentar fazê-lo nos caminhos que começavam no batente da minha porta?

O que havia de tão especial assim nos templos lá de fora, que eu não poderia encontrar também aqui em Sampa?

Afinal, o que fui fazer na Espanha?

Buscava a mágica que vai ver ouvi alguém contar que encontrou no Caminho de Santiago, nos Himalaias da Índia, nos templos da China. Não era eu que buscava, mas uma parte da minha mente, que imitava os passos de alguém que disse ter tido insights, samadhis ou disse ter se encontrado nesses lugares.

Sentado ao pé de uma árvore no Bosque dos Pirineus, pensava sobre o que diabos eu estava fazendo tão longe de casa, quando senti os raios do sol invadindo o teto de folhas e tocando a minha testa, achei que era a Luz Divina anunciando um encontro transcendental, mas era apenas mesmo a luz do dia, e ela vinha me dizer:

" É lógico que não precisava ter vindo até a Espanha para caminhar e encontrar respostas, meu! Um lugar é apenas um lugar, o que o torna especial é a importância que damos a ele, ou o merchadising da novela das oito."

É, raio do sol, tenho que concordar com a sua lógica: Paris é linda, mas boa parte da sua fama veio das letras dos poetas; o mesmo vale para outros tantos cantos do mundo que são "sagrados" e que foram eternizados nos mais diversos contos, livros, novelas, aventuras imaginadas ou trilhadas, onde lemos sobre o arquétipo do herói que larga tudo e parte numa jornada em busca do amor, de um tesouro ou da Grande Verdade do Universo. E o que ele encontra? Uma ponte para nos influenciar a fazer a mesma coisa.

O que seria do Caminho de Santiago se o Paulo Coelho não tivesse decidido que seria por lá o cenário da sua aventura à Castenada? Não me venham falar dos Celtas e dos livros de história; os espanhóis já assumiram que o Caminho estava OUT, até o Paulinho que não é Lebre, ter escrito a sua Erva do Diabo por lá e tornado a peregrinação na Espanha IN.

Mesmo sabendo de tudo isso, lá no Caminho estava eu, o que mostra o quanto reproduzimos em nosso consciente os mitos implatados pelos outros no fundo do quintal das nossas mentes...

Ok, uns colocam chapéu de cowboy e vão espetar bois em Barretos; eu arrumei um cajado e fui rezar na Espanha...acho que ainda estou ganhando...pensando bem, deu uma fome...humm...onde fica mesmo o restaurante?

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O PASSARINHO E O RECADO

Ainda sentindo o calor agradável e os insights dos raios do sol, agradeço ao Deus dos Viajantes por eu poder estar ali naquele lugar encantado. Olho para o lado e noto um passarinho pousado num galho; e ele canta bem alto, talvez para me expulsar do seu território, mas como sou escritor viajadão, faço a interpretação de acordo com o que eu quero que seja e percebo que a canção diz algo assim:

“ Viajante, viajante
Nem era preciso partir
Mas já que está aqui
Caminhe aqui, caminhe ali

Viajante, viajante
Nem era preciso vir aqui
Para sentir
Mas já que está aqui
Voe aqui, voe ali

Viajante, viajante
Um lugar é apenas um lugar
Quem faz o lugar
É o nosso olhar”

Sim, passarinho, eu compreendi o seu " pi pi pi". Sim, eu vim até aqui para contar a minha gente que não era preciso sair do seu lugar para voar; mas você sabe como são os humanos, passarinho, precisamos partir para dar valor ao lugar que estavámos.

- E onde você pensa que está? - pergunta o passarinho e me dou conta que não estou em floresta coisa alguma, estou encostado numa árvore, às margens da Marginal Tietê; e eu não sei se ainda estou viajando, mas enxergo uma capivara me olhando. Fecho os olhos e abro de novo, sem acreditar no que vejo; e a capivara some.

Mal-educada, se foi antes que eu tivesse a chance de lhe perguntar: onde fica essa bendita Igreja do Ó??? Volta, Sra Capivara, estou com fome, mas sou um péssimo caçador e além disso, posso ser louco de peregrinar em Sampa, mas não tão doido para mergulhar no Tietê atrás de você.

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