terça-feira, junho 23, 2009

Caminho de São Paulo: Norte

Eram seis da matina quando cheguei ao marco zero, em frente a Catedral da Sé para iniciar a minha peregrinação. Respirei fundo, coloquei o chapéu na cabeça, arrumei bem a mochila nas costas, segurei meu cajado bem firme e comecei a minha caminhada sagrada nas ruas de São Paulo. A idéia era provar para mim mesmo que eu conseguiria, ao caminhar em Sampa, atingir o mesmo êxtase místico que senti ao fazer o Caminho de Santiago; que conseguiria encontrar anjos e demônios com
as suas respectivas lições nos cantos e recantos da cidade grande; que manteria a devida meditação, mesmo ao som do caos da metrópole, que falaria com Deus apesar do trânsito maluco das rodovias, com carros buzinando, guardas apitando e motos voando sob a cabeça dos pedestres; e completaria o meu destino: terminar a
caminhada na Catedral da Sé, dali a quatro dias, com muitas crônicas para contar.

Ok, confesso que em príncipio, assim como vocês, achei tudo um tanto ridículo, mas decidi fazer assim mesmo. Sou um Vagamundo maluco, leiam se quiser...

Tracei a caminhada de quatro dias em quatro rotas:
Norte: Catedral da Sé – Igreja Nossa Senhora do Ó – Minha Casa
Leste: Minha Casa – Igreja da Penha – Minha Casa
Sul: Minha Casa – Igreja de Santa Edwiges – Minha Casa
Oeste: Minha Casa – Igreja Nossa Senhora da Lapa – Catedral da Sé

Escolhi essas igrejas, muito mais por serem alvos facilmente identificáveis do que por interesse religioso. Respeito todas as religiões, mas essa caminhada não era uma peregrinação cristã, ou coisa parecida, poderia ter escolhido uma mesquita, um templo hindú ou uma sinagoga, teria dado no mesmo, mas essas igrejas demarcavam as devidas regiões de São Paulo que eu havia decidido peregrinar; e sendo assim, comecei a caminhar em direção a Zona Norte de Sampa,
sob o olhar curioso das pessoas que não compreendiam quem era aquele peregrino no centro da cidade.

Foi com esse sentimento, meio místico e meio mico, que parti da Sé em direção a Igreja Nossa Senhora do Ó. Só existia uma regra, eu teria que caminhar tanto para ir quanto para voltar para a minha casa e sempre com as vestimentas de um peregrino.

Achei que seria moleza, mas não é fácil caminhar pelas calçadas de Sampa, definitivamente, a cidade grande não é um bom lugar para caminhadas. Fiquei imaginando que se já era difícil para um vidente, pense no que sente um deficiente visual percorrendo aquelas ruas cheias de buracos, mas segui, entre trancos e tropeços, em direção a Luz, e mesmo sabendo que o melhor trajeto seria seguir pela Avenida São João, Barra Funda e depois Ponte da Freguesia, decidi fazer um trajeto meio L, percorrendo a Avenida do Estado, Voluntários da Pátria, cruzando a ponte do Tietê e só aí, seguir o restante da perna para a Frequesia. Sim, um trajeto tão insensato quanto aquela peregrinação, mas a lógica era captar toda a vibração do povo que circulava pela Zona Norte e vinha em direção ao centro. Fazendo o caminho contrário, eu poderia sentir melhor a energia dessa gente que todos os dias madruga em direção aos quatro cantos da cidade.

Enquanto caminhava, lembranças do meu primeiro dia de peregrinação na Espanha veio ao meu encontro, e metade de mim caminhava em Sampa, a outra metade andava pelos Pirineus. O Bosque de Ronscesvalles me assustava um pouco, eu tinha receio de assalto, de alguma agressão ou ataque. Chame de síndrome de quem vive em cidade grande, mas um certo pânico comecou a me torturar; daí rezei um Pai Nosso, repeti seis vezes o Gayatri Mantra e pedi a Maomé, abençoado seja o Profeta, que pedisse proteção a Alá por aquele peregrino de bigode. Enfim, o
medo passou e avancei pela mata, passo a passo, iniciando oficialmente o meu primeiro dia de caminhada; e quando finalmente senti que estava em paz com os meus passos, com as árvores a minha volta; com o meu corpo e com a minha alma, recebi uma mexiricada na cabeça.

- Vai trabalhar, seu vagabundo!!! - gritou o agressor.

Limpei meu cabelo, a mexerica tinha explodido em centenas de gomos e caído sobre a minha mochila e manchando a minha jaqueta; olhei para a direção de onde a fruta voadora veio e ví o ônibus, e dentro dele, na janela, o sujeito rindo e me apontando. Eu estava de volta a Sampa e era alvo daquela brincadeira sem a menor graça.

O que leva alguém a cometer tamanha violência gratuita? O que levou esse sujeito a tomar a decisão de arremessar uma mexerica de dentro do ônibus em uma pessoa caminhando na rua?

O que eu tinha que aprender com aquilo?

Como deveria reagir sendo o alvo de uma mexerica arremessada? Qual era o sentido de tudo aquilo?

Então, respirei bem fundo; repeti om, om, om e daí com toda a força que eu tinha, fiz aquilo que meu coração mandava e gritei: " Joga a mãe, seu Filho da Pu%#!"

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