sábado, maio 30, 2009

PASSEIO PELA FLORESTA


Vinha pela floresta quando ouvi um som ecoando entre as árvores:

PENETRA SURDAMENTE NAS PALAVRAS
PENETRA SURDAMENTE NAS PALAVRAS
PENETRA SURDAMENTE NAS PALAVRAS
PENETRA SURDAMENTE NAS PALAVRAS
PENETRA SURDAMENTE NAS PALAVRAS


Caminhei um pouco mais e ví, aos pés de uma árvore, um pergaminho, onde havia manuscrito um poema:


CORRESPONDÊNCIAS

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

Charles Baudelaire

E u não sabia se estava em corpo, ou mente, ou em aventura de espírito, mas decidi não pensar muito sobre isso e mergulhei na caminhada por entre a mata, quando encontrei um Mago das Palavras que tinha quatro caras e quatro nomes; ele se chamava, ao mesmo tempo, Fernando, Ricardo, Álvaro e Alberto. Eis a conversa que eu ouvi:

Ricardo:
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Álvaro:
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Fernando:
Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo
Não compreendo, compreender nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei?”



ALBERTO:
Sou guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Sinto todo o meu corpo deitado no realidade
Sei a verdade e sou feliz.


Continua...

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