quarta-feira, março 11, 2009

A RAZÃO DAS MINHAS SOMBRAS

Por que fiz?

Foi por causa de um grito! Um grito que ouço desde que eu era pequeno e nos últimos anos ele tem ficado mais tempo comigo. Um grito que não consigo deixar de ouvir, que não consigo parar de escutar. Daí quando percebo, eu passei a ser o próprio grito.

Tenho foco, não sou um louco sem condições de controlar os meus atos, se você quiser uma explicação para o que eu fiz, anote aí: sou um doente da alma.

Doente de alma, cuja doença ataca em certos momentos em que estou diante daquilo que mais me atrai e onde menos controle tenho sobre os meus atos.

Tenho foco, não sou um possuído pelo mal, sem controle de suas vibrações e ações, fui apenas carregado pela cavalaria dos meus próprios demônios.

Bastou uma pequena brecha na porta, uma fresta na janela, para a escuridão entrar e dominar a minha casa. Bastou uma leve caída e a sintonia com as baixas vibrações acordaram os demônios que moravam na minha alma.

Esses demônios eram máscaras que eu já usei quando elas eram necessárias, mas que por um motivo ou outro, não foram destruídas e permaneceram intactas em meu estoque de proteção, na minha dispensa de “talvez um dia”.

A escuridão é uma força, não é mais poderosa que a luz, nem mais fraca, pois as duas se complementam nessa manifestação de dualidade que mantém esse plano inteiro. Assim como a luz desperta anjos em nossos corações; a escuridão trás a tona, o pior que nós somos e o que de pior podemos oferecer. O perigo de baixar a guarda é que só percebemos o inimigo, quando ele já está infiltrado, foi assim com as minhas sombras; quando percebi já estava atuando sob o seu comando.

Faltou força, faltou firmeza para resistir, acabei tornando-me agente das tragédias que tinha que ocorrer. Acabei saciando-me nas mais tenebrosas emoções em busca das sensações passageiras.

Paguei o mais alto preço que um homem poderia pagar por um pecado: reneguei a minha existência, o meu legado, todo o meu trabalho. A minha arte que trouxe luz e alegria para tanta gente, tornou-se um trabalho deturpado de um hipócrita que cantava o amor e incorporou em sua vida privada o horror.

Compreendam que as minhas palavras não são pedidos de perdão, nem poderiam, elas são apenas exemplos, lições, para aqueles que buscam a luz e desejam adquirir a ciência de entender as sombras alheias sem o apontar do dedo, afinal, nenhum homem está livre dos seus demônios.

Agora checou a minha hora de Judas, vou ser exposto em praça pública, serei apedrejado, julgado, pois agora sou o arquétipo do mal, o exemplo a não ser seguido, e acalmarei a sede de circo e pão que acomete a todos, incluindo aqueles que também possuem esqueletos em seus armários.

As pessoas olharão para mim, saberão de cor sobre o meu caso, apontarão o dedo e dirão: “ sem vergonha, bem de vida, culto, um músico espiritualizado e na vida diária é capaz dessas barbáries”.

Acontece que espiritualidade não são palavras nem canções, são nossos passos. Muitos acham que depois de terem visto Deus, se tornarão santos, mas basta a primeira oportunidade, para que o homem batizado em águas santas se suje na sua própria lama.

Não tive forças para combater meus instintos mais primitivos. Todos os dias corremos esse risco, algo nos afeta, algo tenta alterar a nossa ação, desequilibrar a nossa jornada; eu não fui firme o suficiente para dizer não.

Nenhum homem poderá me dar absolvição. Nem Deus pode me dar a redenção, pois a doença das trevas não se cura com promessas ou orações; cura-se com experiência e tentação. A vida, talvez nessa existência ou em outra, me colocará novamente em comunhão com as minhas sombras e será o resultado desse confronto que guiará meus passos para a frente em direção a cura ou ao abismo.

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