segunda-feira, dezembro 29, 2008

O Vazio e o Espaço Preenchido

Estou em uma das praias de São Paulo. Vejo carros cruzando as avenidas deixando um rastro de som; as pessoas falam alto; os bares atraem clientes com as mais variadas batidas eletrônicas; procuro, tento, mas não consigo escutar o mar.

A praia está lotada, no lugar da areia, os guarda-sóis com seus milhões de banhistas. Todos os espaços estão preenchidos, não insisto, desisto do mar, vou em busca do vazio, estou precisando de uma dose disso, de silêncio, de quietude, do descanso merecido.

Por um momento, penso que estou ficando velho: percebi que tenho tolerância zero para o barulho; evito nadar no mar de pessoas das ruas de São Paulo ou qualquer outro lugar; mas sinto que a questão não é a idade e sim a seleção. Tornei-me mais seletivo. Tenho selecionado melhor os lugares que me dão prazer, os sons que ouço, as pessoas com quem converso e aprendo; tenho filtrado melhor o que absorvo dos outros, do mundo.

Sou um observador, sou cronista, adoro estar entre a nossa gente, ouvindo as suas estórias, aprendendo com a vida de cada um; mas as vezes é preciso estar só; as vezes é preciso cultivar o silêncio; as vezes é preciso esvaziar os bolsos da matéria, para alcançar o que guardamos na alma.

Nesse processo coletivo que é viver nesse mundo, muitas são as vezes, em que ocupamos todos os espaços vazios da nossa praia com guarda-sóis, quarda-tranqueiras, guarda-coisas que não valem mais nada.

Eu percebi, na minha busca para escutar o silêncio, que na minha jukebox toca canções sem parar. Melodias ultrapassadas que atraem emoções estranhas e já experenciadas, nessa rádio da minha alma, ecoando músicas distorcidas no volume mais alto. Ocupo a minha mente com qualquer coisa, na tentativa de expulsar o silêncio, livrar-me do vazio, combater a quietude; sem perceber que é no espaço entre duas palavras, no vazio entre dois sons, que EU SOU pleno.

Quem EU SOU de verdade reside no espaço vazio entre o que eu penso e o que eu faço. Quem EU SOU em essência reside na quietude da alma que tudo vê e tudo sabe. Para perceber esse SER EU, é preciso calar-me, silenciar os pensamentos e perceber o vazio entre as letras. Como escritor, eu deveria já ter compreendido que uma frase não é feita apenas de palavras e sim também com os espaços vazios entre elas. Sem esse espaço, as palavras ficariam todas coladas uma as outras, não existiria pausa, não existiria nada.

Ao prestarmos mais atenção as pausas, ao vazio, ao espaço que não precisa ser preenchido; educamos os olhos e os ouvidos e limpamos o caos que criamos e que nos distrai do que realmente interessa ser ouvido, lido e aprendido. Ao dedicarmos mais tempo aos momentos de solitude, de harmonia com o mundo a nossa volta e ao silêncio, somos capazes de perceber que o que buscamos fora, sempre habitou dentro; e por trás do que aparenta ser nada, está tudo.
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