sábado, novembro 29, 2008

O Pagador de Promessas

Nunca paguei a promessa que minha tia fez por mim. Para começar, não prometi nada; ela que negociou com o Divino ( por intermédio do Padim Ciço) para que eu me curasse de uma apendicite agúda. Quase morri, escapei por pouco do hospital que também era um abatedouro, localizado em uma dessas esquinas onde roubaram as botas do Judas do sertão paraibano.

Não sei se escapei pelas graças do milagreiro do Juazeiro do Norte, ou foi outro tipo de sorte, mas anos depois da promessa feita e quebrada; fui parar no Ceará, nas curvas de Juazeiro. Era uma época em que eu estudava as diversas formas de espiritualidade, e estava eu lá pelas bandas da terra do padim milagreiro, registrando em minhas notas aquela religiosidade tão forte e bonita daquele povo sofredor e valente nordestino, quando uma peregrina chamou a minha atenção.

Era gente vindo de todos os cantos do sertão, era a véinha toda de preto com o rosário na mão, era o véinho com os joelhos em sangue subindo o monte, era o menino vestido de paletó e gravata e segurando a estátua do Cristo; era uma rezadeira que se ouvia a distância, em meio ao choro, em meio as rezas, em meio aos cantos de "Ave Maria", de quem peregrina para pagar um promessa, para fazer outra ou apenas para agradecer a ausência de qualquer promessa. Em meio a tantas lágrimas de devoção, de tanta gente com a reza na mão com um olhar perdido entre o sofrimento de Cristo e o próprio sofrimento, ví essa mulher dançando e sorrindo, contrastando com o sentimento de pesar coletivo.

"Para falar com Deus é preciso comer o pão que o diabo amassou", já cantava Gilberto Gil, mas aquela mulher tinha muita felicidade no peito para chorar ou para lamentar, estava em seu rosto, ela carregava na cara, uma grande alegria, nos ombros uma grande felicidade.

Aproxime-me dela e perguntei: "A senhora está pagando alguma promessa?"

- Sim! A promessa de estar aqui. Sempre sonhei em conhecer a terra do meu padinho. A minha vida não é um mar de flores, mas para mim todo encontro com o meu Padinho é uma festa, as lágrimas só são bem vindas, se forem lágrimas de felicidade. Se for choro de tristeza, só depois da festa!
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